Raudério

rauderio
Fonte wacandido.blogspot.com.br

 

Já tivemos a Geração Perdida, cuja adolescência foi afetada pela I Guerra, entrou de cabeça nos Loucos Anos 20 e na vida adulta sofreu o impacto da Grande Depressão.

“Perdida” é modo de dizer, porque nos legou o jazz, Hemingway, Pound, Eliot, Joyce.

Em seguida, meio misturadas, a geração Grandiosa e a Silenciosa – gente nascida ou já criança na Grande Depressão, e que viveu (ou morreu) durante a II Guerra.  Pertencem a ela Marlon Brando, Kennedy, Lennon, Marilyn Monroe e minha mãe.

Depois os Baby Boomers, os da explosão demográfica da segunda metade da década de 40 (logo depois da II Guerra, até o início dos anos 60). Foi a geração que passou pela polarização da Guerra Fria, e criou a contracultura.

Veio então a Geração Coca Cola, a partir anos 60, influenciada pelo rock, pela cultura americana, e que (pelo menos no Brasil) assistiu às guerras só pela televisão.

Aí acabou a imaginação para dar nome às gerações e passaram a usar letras – X, Y, Z -, ou, no máximo, a obviedade de um “Millenials” para quem estava na casa dos 20 durante a virada do milênio.

Aqui estamos nós, entrando nos Malucos Anos 20 do século 21 e nos deparando – 100 anos depois do jazz, do Hemingway, da ardecô, do cinema falado, do voto universal, da penicilina – com uma nova geração dando as caras. A Geração Raudério.

É a geração que viveu a guerra contra escovar os dentes depois do Nescau. Contra só seis horas de televisão por dia. Contra ter que arrumar a cama e colocar a roupa suja no cesto.

Minha geração (a Coca Cola, apesar de eu preferir Matte Couro), foi a mentora intelectual disso daí.  Nós é que começamos a exigir (“Cadê a minha Calói?”, “Compre Baton, compre Baton, compre Baton!”) em vez de pedir. Nós usamos sapatos cavalo de aço e calça de nesga – sem que ninguém nos obrigasse a isso. Dançamos imitando movimentos de kung fu, fumamos escondidos no banheiro (eu não: eu só vigiava na porta, para ver se vinha alguém).  Inocentes, achávamos que ‘camisinha’ e ‘rachadinha’ eram palavrões.

Reprimidos, consumistas, sem noção de estética, resolvemos dar aos filhos tudo que não tivemos: videogueime, celular, televisão no quarto, quarto com chave na porta e até o direito de se trancar com coleguinha no quarto.

Deu nisso.

– Raudério entrar no meu quarto sem bater na porta?

– Raudério colocar bêicon na farofa, cebola no vinagrete, açúcar no café?

– Raudério votar de acordo com as suas convicções, não com as minhas?

Uma ditadura raudéria não seria muito melhor que aquela do Conto da Aia, que tanto indignou os raudérios quanto os fez suspirar, sonhadores.

O rauderismo também pode vir a ser conhecido como a Geração Barulhenta, da indignação seletiva. Talvez por lhe faltar uma guerra de verdade como a Guerra Civil Espanhola, a da Coreia, a do Vietnã, a de Biafra.

Fascistas e comunistas queimaram livros – os raudérios querem queimar palavras. Implementar a Novilíngua. Viver um cosplêi de membro da Resistência Francesa, mas sem a boina e com um cigarro mais alternativo no canto dos lábios.

Raudérios, o tio aqui foi censurado, aos 11 anos, por fazer na escola um cartaz de Dias das Mães com uma foto da Leila Diniz grávida e de biquíni.  Era 1970, governo Médici, ouviram falar?

O tio aqui comprava o jornal assim que a banca abria para não correr o risco de chegar lá e o “Opinião” e o “Movimento” terem sido recolhidos. O tio aqui carregou faixa em manifestação pela Anistia, participou dos comícios das Diretas. O tio não é fascista. O tio, inclusive, sabe o que é fascismo (porque estudou), o que é ditadura (porque passou toda a infância, adolescência e parte da vida adulta sob uma), o que é censura (porque viu “Laranja Mecânica” com bolinha preta saltitando na tela para cobrir os pentelhos dos artistas).

Ditadura não é nada disso que vocês estão pensando. Podem acreditar em mim: o tio tem lugar de fala.

Nossa geração sobreviveu ao óleo de fígado de bacalhau, às aulas de OSPB, ao fusca sem ar condicionado nem cinto de segurança, ao cursilho, ao xampu que ardia nos olhos, ao quissuco de framboesa, ao avião com assentos para fumantes, à Lei Falcão, à mãe limpando nosso ouvido com grampo de cabelo, às balas Soft.

Não adianta vir nos fuzilar com o olhar:  crescemos acompanhando fuzilamentos muito mais concretos, os dos dissidentes cubanos no Paredón e dos que tentavam cruzar o Muro de Berlim.  O mundo hoje é muito mais seguro, justo e próspero do que era 50 anos atrás.

E você ainda quer que eu estude História – até essa que eu vivi e da qual você só ouviu falar.

Raudério?

13 comentários em “Raudério

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