Isentão

muro

– Aqui está a nossa carta de vinhos. Temos um excelente Château Petrus 2004, de R$ 16.120,00, e este Vinho Canção Suave, por R$ 12,90.

– Não têm nenhum Malbec argentino, um Concha y Toro, um Bolla Valpolicella, um Miolo Seleção?

Garçom, entre os dentes:

– Isentão….

Isentão é isso. O sujeito que, entre jogar dominó na praça e escalar o Himalaia de costas sem oxigênio e num pé só, prefere correr no calçadão. Ou dar umas braçadas. Ou fazer meia hora de esteira e três séries de 10 no supino.

Poderia ter tido outros nomes.

Sensatão.
Racionalzão.
Equilibradão.
Responsavelzão.

Mas o que pegou foi isentão, fazer o quê.

Isento quer dizer liberto, livre, desembaraçado, imune. Limpo, imparcial, justo, desapaixonado. Neutro, sensato.

– E aí, sensatão, quando é que tu vai sair de cima do muro?

(Não ia dar certo. Não como xingamento.)

– Quer dizer que nem James Joyce nem Paulo Coelho; você prefere Cortázar? Seu independentão de m… !

(Não, também não ia funcionar.)

– Sou contra as duas coisas: explodir mesquita e metralhar sinagoga. Acho que…
– Acha nada. De imparcialzão como você, o inferno tá cheio!

– E aí, vão querer a folha de rúcula com chia ou porção tripla de linguicinha com torresmo?
– Vê pra gente um salmão e um espaguete ao pesto, por favor.
– Olhaqui, meu ponderadão, o prato do dia é rúcula com chia ou linguicinha com torresmo. É o que tá pronto e sai na hora. Issaí que tu pediu vai demorá. Pode inclusive nem saí.

Há um círculo do inferno reservado aos moderadões.

No juízo final, os comedidões vão pagar por ter se omitido nas questões vitais, como biscoito ou bolacha (eles preferem bráune ou rosquinha de nata), feijão por cima ou por baixo do arroz (melhor mexidinho, com couve e ovo frito), Coca ou Pepsi (Mineirinho!), Heath Ledger ou Joaquin Phoenix (Cesar Romero), Feicebuque ou Instagram (vida real).

A Suíça é aquela droga de país porque é uma isentona. Bom mesmo é a Síria. Lá, sim, as pessoas têm posição definida.

O desapaixonadão entende que o que separa a anorexia da obesidade mórbida não seja um muro onde ficam encarapitados os irresolutões, vacilantões, ambiguões e titubeantões de índice de massa corporal entre 19 e 25, mais ou menos – mas que há, entre esses extremos, um vasto campo chamado vida saudável.

O isentão é um botafoguense que não tem por que se meter na porradaria de uma final de Fla x Flu.

Pode, no máximo, ligar pro 190 e acionar o SAMU.

Anúncios

O barulho mora ao lado

vizinho

Ninguém se casa sem namorar.
Ninguém compra carro sem um testidraive.
Os mais esnobes até encenam aquela patacoada de chacoalhar a taça, cheirar e provar fazendo biquinho e fingindo entender de taninos e retrogosto, antes de autorizar que o vinho seja servido.

Para comprar um apartamento, não. A gente acha que basta visitar o imóvel, ver se o taco está firme, se os azulejos não estão estufados, se a maquiagem dos vazamentos está bem feita, a papelada em ordem, pedir um desconto de 10% e já se considera o proprietário de um novo lar, onde será feliz e livre do aluguel para sempre.

Esses compradores, pobres compradores, ah, se soubessem o que eu sei…

Antes de fechar negócio imobiliário, namore, chacoalhe, cheire e faça o testilive.

Não se deixe enganar pela vista, pela ampla varanda, pelo quarto bem arejado, a cozinha funcional, a sanca de gesso, a potência da água do chuveiro. Como diziam os filósofos Ortega e Gasset, o apartamento é o apartamento e sua vizinhança.

Ninguém se casa sem conhecer antes a sogra e o cunhado.
Conheça os vizinhos.

Procure se informar dos hábitos sexuais, etílicos e toxicológicos do vizinho de baixo.
Do gosto musical da vizinha do lado.
Do senso de humor do vizinho de frente.
E se a vizinha de cima tem hábitos noturnos e usa tamancos.

Peça as chaves emprestadas, pegue um colchonete, o pijama, a escova de dentes, e passe uma noite (de preferência a de sexta-feira) no local.
Se conseguir dormir, aí, sim, feche negócio.

Corretores adoram mostrar as maravilhas do condomínio.
A piscina.
A churrasqueira.
A quadra de tênis.
A quadra poliesportiva.

Veja tudo com atenção, repare na manutenção, pergunte sobre as regras de uso – e garanta que seu apartamento fique mais distante possível disso tudo.

Uma churrasqueira não significa que você vá dispor um local onde reunir os amigos para sua festa de aniversário – mas que terá que aguentar o baile fanque da festa de aniversário de todos os outros condôminos, todo sábado e domingo. Cinco ou seis horas contínuas de uma setiliste preparada pelo M.C. Satã em pessoa, tocada numa altura que, se o imóvel fosse na Suíça, a Inglaterra já teria pedido para sair da União Europeia faz tempo.

A quadra poliesportiva não é tudo que você precisava para, finalmente, abandonar o sedentarismo, e bater uma pelada de vez em quando, com uma cervejinha depois, socializando com os novos amigos. É apenas o lugar onde os adeptos da terapia do grito primal se reúnem no fim de tarde para vocalizar todos os sinônimos imagináveis do órgão genital masculino, propagar que a genitora do adversário exerce a profissão mais antiga do mundo, sugerir insistentemente que alguém deva copular consigo mesmo por via anal e outras amenidades de cunho escatológico. Para quem tem filhos pequenos, um apartamento de frente para a quadra poliesportiva é enriquecimento vocabular garantido.

Não deixe de verificar se o apartamento pega o sol da manhã (se for no Rio) ou o sol da tarde (se for em Curitiba).
Que a vaga da garagem não exija dons de contorcionista.
E vá a pelo menos uma reunião de condomínio.

Preste atenção no coronel reformado da PM que quer derrubar a síndica, e nas justificativas que a síndica dá para ter gasto todo o fundo de reserva na manutenção preventiva da decoração de Natal.

Procure saber até onde a água subiu na última enchente.
Leia o livro de reclamações: mais de 5 queixas diárias sobre o elevador, 3 sobre absorventes higiênicos jogados nas áreas comuns e 1 sobre alguém que mantenha 39 gatos em casa devem acender o sinal de alerta.

Pode ser que uma noite de sexta-feira só não baste.
Leve um sabonete, uma toalha, uma lanterna, um galão de água mineral, um pacote de Trakinas (ou Club Social) e acampe no apartamento por uns dias. Uma semana, quem sabe.

Se você tiver a impressão de que:

1. o tranca-rua da síndica não cruzou com o seu espírito de luz;

2. a Lei Maria da Penha precisa ser aplicada a alguns dos casais do prédio em frente;

3. o porteiro não dá a mínima quando você chega – mas te olha de cima a baixo só porque o encanador que você chamou para verificar as instalações desceu assobiando e de cabelo molhado;

repense a transação.

Se a pessoa beijou com boca dura ou de olho aberto, não case.
Se o carro seminovo tem um barulhinho estranho e o vendedor faz questão de falar o tempo todo e ligar o rádio, não compre.
Se a garrafa estava com a rolha ressecada e você sentiu notas de vinagre e retrogosto de dipirona, peça outra.

Não importa se o preço é de ocasião.
Se aceita financiamento da Caixa.
Se fica a duas quadras do metrô e tem farmácia na esquina.

Se no testlive você ficou convicto de que a vizinha de cima tem um rinoceronte de estimação e que ele faz cúper de madrugada, procure outro cafofo.