Os prazeres e as dores da carne

carne

Confira a coluna de hoje n’O Globo:

Os prazeres e as dores da carne


 

“As pessoas sensíveis não são capazes/ De matar galinhas./ Porém são capazes/ De comer galinhas”, escreveu Sophia de Mello Breyner Andresen, poeta portuguesa.

Li esses versos aos 15 anos, e foi quando descobri que, em certos casos, a sensibilidade nos concede a graça de disfarçar um pouco a nossa hipocrisia. O que os olhos não veem o estômago não sente.

Já foi legal e moralmente aceitável que seres humanos (de qualquer etnia) fossem capturados e escravizados. Que prisioneiros fossem torturados e, eventualmente, executados. Que mulheres não tivessem direito a voz e voto, sujeitas à tutela do pai, do marido, do irmão, do filho. Vitória, Elizabeth I, Elizabeth II, Catarina,a Grande, seriam apenas notas de rodapé se tivessem irmãos do sexo masculino (a profissão “irmão de rainha” só foi inventada no século 20).

Outro dia, o Ricardo Rangel escreveu que o respeito aos direitos humanos, a igualdade entre os sexos, a preservação do meio-ambiente e a luta contra o racismo são bandeiras suprapartidárias, civilizacionais. Eu incluiria aí os direitos dos animais – de todos os animais, não apenas os da espécie Homo sapiens.

Tudo começa pelo entendimento de que veganismo e vegetarianismo não são uma questão de dieta, mas de ética. Que tem menos a ver com consumo de carne e mais com a crueldade com que carne, leite, ovos e outros produtos de origem animal são obtidos.

Será uma longa batalha – mas quem disse que as outras foram breves?

B.A. – Bloqueados Anônimos

bloqueados

Salão da casa paroquial.
Segunda-feira,
Sete da noite.

As cadeiras estão em círculo, num canto há uma mesa com água, chá e biscoitos.

Alex toma a palavra.

– Boa noite, meu nome é Alex…

– Boa noite, Alex! (todos, em uníssono)

– … e eu sou um bloqueado em recuperação. Estava já há dezessete dias limpo, mas tive uma recaída na quarta passada, comentei no mural do Paulo Henrique Amorim e…

– Paulo Henrique Amorim? Você pegou pesado, Alex!

– Pois é, não sei o que me deu. Depois que levei o block do José de Abreu…

– … você se comprometeu a só comentar em postagem de gente civilizada, lembra?

– Pois é, vacilei. Mas o cara tinha escrito uma coisa tão, mas tão, mas tão sem noção, que eu não resisti.

– Lembra da primeira regra do grupo, Alex?

– Sim, só argumentar em postagem de quem tenha argumento.

– Exato. Leia a postagem da pessoa. Se for argumentativa, argumente. Se for dogmática…

– Respiro fundo, ergo os olhos aos céus, peço que tenham piedade dessa alma desgarrada no Dia do Perfeito Juízo Final e sigo adiante.

– Muito bem, Alex.

– O problema é que isso me impede de comentar em qualquer postagem petista ou bolsonariana. E que graça tem argumentar com quem pense igual a mim?

– Boa questão, Alex. Alguém saberia responder?

– Oi, pessoal, eu sou a Regina…

– Boa noite, Regina (todos, em uníssono).

– Sabe, Alex, eu sou vegetariana. O que você passa com os bolsomínions e os petistas, eu passo com os churrasqueiros e os veganos.

– Um aparte, Regina. Meu nome é Geraldo e…

– (Em uníssono) Boa noite, Geraldo!

– … eu sou carnívoro e passo o mesmo nas páginas dos veganos e dos vegetarianos. Esta semana fui bloqueado por oito vegetarianos porque perguntei por que chamavam proteína vegetal de “carne” e por dezenove veganos por falar que o abate ético é melhor que nada.

– Gente, desculpe interromper, meu nome é Dora…

– (Em uníssono) Boa noite, Dora!

– … eu sou ateia, e aprendi a me controlar diante de correntes milagrosas, mensagens de gente morta, simpatias para segurar marido e aparições de chupacabra. Nenhum block nos últimos quarenta e cinco dias!

– Parabéns, Dora! (todos em uníssono).

Alguém se levanta e tenta sair de fininho.

O coordenador do grupo intervém.

– O companheiro já vai? Não quer fazer uma partilha?

– Oi, meu nome é Arnaldo.

– (Em uníssono) Boa noite, Arnaldo!

– Eu sou irrecuperável. Levo centenas de blocks diários. Sete dias por semana. Estou aqui há quinze minutos sem levar um block e já começo a sofrer de síndrome de abstinência.

– O que você faz? Compartilha maus tratos de animais? Posta foto em HDR? Repercute Monica Iozzi? Apoia golpe militar? Marca 40 pessoas nas suas postagens?

– Não. Eu defendo o Gilmar Mendes.

(Silêncio total. Em uníssono.)

 

(originalmente publicado em 13 de junho de 2017)