Transportadores e transportadoras

J.K.Rowling, a autora de Harry Potter, não sai por aí procurando encrenca. Em geral as encrencas é que vão ao encontro dela.

Ela está sendo acusada de transfobia por achar que um artigo intitulado “Criando um mundo mais igualitário pós-Covid-19 para pessoas que menstruam”, poderia ter sido chamado simplesmente de “Criando um mundo mais igualitário pós-Covid-19 para as mulheres”.

Rowling pode entender muito de animais fantásticos – e até saber onde habitam – mas ainda é do tempo em que menstruação era coisa de mulher.

Hoje há homens que menstruam, mulheres que ejaculam. Mulheres com disfunção erétil, homens com cisto no ovário. Homens que engravidam e amamentam; mulheres que fazem espermograma. E Rowling não se atualizou. Logo, é uma transfóbica, um daqueles seres abomináveis que ainda acreditam em sexo biológico. Praticamente um Voldemort de saias. Ops, a expressão “Voldemort de saias” pode ser transfóbica, porque associa o gênero feminino a saias, e tanto mulheres quanto homens quanto pessoas que menstruam quanto pessoas que ejaculam podem usar saias, calças, bermudas, o que bem entenderem, sem que isso defina seu sexo, seu gênero, sua orientação ou, no caso dos genderfluid, sua vaibe no momento.

Talvez os formulários retrógrados e transfóbicos em que a gente bota um X em F ou M devam ser modificados. Teremos PQM (Pessoa Que Menstrua) e PQE (Pessoa Que Ejacula).

Mas mulheres também ejaculam (dizem; eu mesmo nunca vi). E depois da menopausa não menstruam mais, assim como não menstruavam antes da menarca. Sem contar as pessoas que não menstruam porque fizeram um implante subcutâneo para não menstruar. PQM é um termo muito impreciso.

Que tal PPV (Pessoa Portadora de Vagina) e PPT (Pessoa Portadora de Testículo)? Não é mais inclusivo?

Claro que vamos precisar de um tempo para nos acostumar a ouvir a Renata Vasconcelos anunciar no Jornal Nacional que José Dirceu, pessoa portadora de testículo forte do governo Lula, declarou que uma chapa Rui Costa e Flávio Dino seria imbatível na disputa pelo governo federal em 2022.

Ou, na cerimônia à beira-mar, noivos e convidados de bermudas brancas e pés no chão, o padre Fábio de Mello perguntar:

– Brunnynho, aceita esta pessoa portadora de vagina, Camylla, como sua legítima esposa?

(Na fila dos padrinhos, Fellype, murmurará, de si para si: “E que vagina!”).

– Camylla, aceita esta pessoa portadora de testículos, Brunnynho, como seu legítimo esposo?

(De mãos dadas com Fellype, na fila das madrinhas, Victhorya suspirará: “E que testículos!”).

Para não sermos transfóbicos como Mrs. Rowling, que insiste na velha dicotomia “homem e mulher”, temos que fazer nossa parte e contribuir para o fim da invisibilidade trans. Porque não basta dizer homem trans e mulher trans. A palavra “mulher” é extremamente ofensiva; a palavra “homem”, nem se fala.

Resta a dúvida se devemos dizer “Pessoa Portadora de Testículo, Epidídimo, Ducto Deferente e Ejaculatório, Uretra e Glândulas Seminais Trans” (PPTTEDDEUGST) ou “Pessoa Trans Portadora de Testículo, Epidídimo, Ducto Deferente e Ejaculatório, Uretra e Glândulas Seminais” (PTPTEDDEUGS).  E “Pessoa Portadora De Lábios Menores, Lábios Maiores, Clitóris, Ovários, Tuba Uterina, Útero e Vagina Trans” (PPLMLMCOTUUVT) ou “Pessoa Trans Portadora de Lábios Menores, Lábios Maiores, Clitóris, Ovários, Tuba Uterina, Útero e Vagina” (PTPLMLMCOTUUV).


No próximo Harry Potter, em que finalmente Harry e Hermione assumem o relacionamento, havemos de ter diálogos assim:

– Harry, você é a PPTEDDEUGST da minha vida…
– Você disse PPT ou PTP, Hermione?
– PPT, Harry. T de testículo, não de trans. Não vá me dizer que…
– Não, Hermmy, é que no GST eu já não me lembrava mais do começo da sigla. E você é a PPLMLMCOTUUV mais mágica que já conheci.
– Own, Harry… Vamos colocar logo essa varinha de condão para funcionar!
– “Varinha”, Hermione? Você tem sempre que lembrar disso?
– Harry, não começa essa problematização de novo, por favor.
– Tá bom. Vamos apostar corrida de vassoura até aquela nuvem, e fazer amor ao luar?
– Own, Harry… vamos! E o último que chegar é PPLMLMCOTUUV do padre!

[Disclêimer 1: Nenhum transportador ou transportadora de qualquer sistema genital foi ferido na redação deste texto.]

[Disclêimer 2: Aos que forem compartilhar este texto em páginas de grupos democráticos (i.e, sem senso de humor e adeptos do pensamento único), com o fito de descer o pau no autor pelas costas, recomenda-se discrição, porque ainda não consegui sair de todos esses grupos e posso ter acesso aos comentários e, como sempre acontece nesses casos, ter também um acesso de riso em locais onde rir do risível é crime inafiançável).

Obrigratidão

rotulos

– Obrigratidão.

– Como é que é?  Você disse…

– Obrigratidão. Obrigado pra quem é de obrigado, gratidão pra quem é de gratidão.

– E isso funciona?

– Não. Os que são de gratidão acham que estou sendo sarcástico e os de obrigado acham ainda mais ridículo que gratidão.

– E por que você usa?

– Para irritar quem acha que o outro tem que ser grato do jeito dele. Eu sou grato do jeito que eu quiser. Dependendo do caso, posso até usar obrigratiluz.

– Deve ser difícil…

– Não tanto quanto ser transcis.

– Quem?

– Transcis. Me identifico com meu gênero biológico e com o gênero biológico oposto.

– Genderfluid, então.

– Não. Eu não fico oscilando. Não tenho que deixar de ser uma coisa para ser outra.  Não entro nessa dicotomia reducionista de ter que escolher entre ser cis ou trans.

– E a reação é…

–  Sofro bullying dos cis por ser trans e sou visto com desconfiança pelos trans por ser cis. Sem falar nos genderfluid, que me acham um farsante.

– Tenso.

– Tiro de letra, porque sou mulato. Os brancos não me acham branco, e os pretos que me acham preto não me acham preto o suficiente. Vivo num limbo identitário, porque meu mulatismo militante é visto como pelos brancos como oportunismo afrodescendentista só para pegar cota, e pelos pretos como embranquecedor e negacionista da negritude.

– Uau! Olha, foi muito bom conversar com você.  É interessante ver alguém que busca se manter longe dos rótulos e…

– Mas eu não fujo dos rótulos. Eu acho os rótulos uma coisa muito pequena. Eu já estou na fase dos letreiros, dos autidórs. Eu sou fofoda.

– Fofoda?

– Fofo e foda.

– Nossa, é raro encontrar pessoas assim, tão dialéticas. Não é todo mundo que consegue elaborar os paradoxos.

– Se quiser, podemos tomar um chopperol, que é um chopp com aperol…

– Não, agora não dá. Outro dia, quem sabe? É que sou atriz, feminista e tenho que ir posar pelada contra a objetificação da mulher. Acho que temos muito em comum…

Trans

trans

Foi concebido como Conto, mas não se sentia pertencente a esse gênero.

Tinha a percepção de que os personagens que trazia dentro de si não estavam unidos por uma narrativa com início, meio e fim. Sentia-se na obrigação de ser prosa mas ansiava por poder ter, sei lá, umas ousadias poéticas.

Gostava de pensar em si mesmo como Crônica, uma reflexão sobre o cotidiano, um olhar subjetivo acerca dos acontecimentos. Mais intimista, mais coloquial, sabe? como se conversasse com o leitor. E, independentemente do que tivesse a dizer, gostava mesmo de falar é do tempo – não o da meteorologia ou o do relógio, mas o da alma. Tratava do momento, daquele instante banal que de banal nunca tem nada.

Buscava na poesia uma definição para si: queria atingir as grandezas do ínfimo. Não necessariamente ter que contar uma história, mas divagar. Usar uma lente macro, não uma grande angular. O microscópio, em vez da fita métrica.

E queria, mais que tudo, poder ser irônico, sem que olhassem para ele com ar de desaprovação ou de “sei não”.

Resolveu procurar ajuda.

Nos classificados, encontrou um anúncio de alguém que dizia resolver todos os problemas de gênero. Tentou agendar o horário, mas o atendimento era por ordem alfabética.

Foi atendido ali pelas 10 horas, logo depois do Auto e da Comédia. Mas sua primeira sensação foi de frustração.

– Seu gênero é o… deixe-me ver… masculino. Pronto. São R$ 250,00. Pode acertar com a minha secretária, na saída.

– Mas dr. Dicionário, minha questão de gênero não era bem essa.

– Filho – e neste ponto o Dicionário olhou-o por cima dos óculos, com os olhinhos miúdos imprensados entre o aro grosso de tartaruga e as espessas sobrancelhas – eu sou especialista em gênero, número, categoria gramatical, com mestrado em sinônimos e antônimos, doutorado em campo semântico, e pós doc em etimologia, feito em Harvard, além de ser, eventualmente, bilíngue. Como ousa questionar que sua questão de gênero não seja esta? Não vá me dizer que…

– Sim. Eu sou posso ter nascido um Conto, mas, no íntimo, me sinto uma Crônica.

– Um transgênero literário – murmurou, desconsolado, o velho glossário.

– Sou um Conto infeliz, amarrado às convenções sociais de ter um enredo único, uma construção psicológica de personagens, um final súbito. Queria ser Crônica, leve, fluida, apenas um recorte sutil do cotidiano…

– Já tive um caso assim. Há muitos anos. Um Romance enorme, enfadonho, um catatau deveras indigesto. Sua vocação era ser Novela. Mas seu pai, o Autor, sonhava ter um filho Romance, e o encheu de parágrafos obsoletos, digressões supérfluas. Um saco.

– E…

– Encaminhei-o a um Editor, que lhe fez uma bariátrica nos capítulos desnecessários e depois cortou os excessos estilísticos. Só de adjetivos inúteis deu para tirar quatro resmas. Converse com ele. Quer dizer, com ela.

– E onde posso encontrá-la?

– Você passou por ela na minha sala de espera. É a minha secretária, aquela jovem esbelta, de cintura de pilão, seios arfantes e pernas bem torneadas. Quem a vê jamais dirá que que um dia foi um Romance adiposo, lento e verborrágico. Ela poderá lhe indicar um Editor de confiança.

– Obrigado, dr. Léxico.

– Sem formalidades. Pode me chamar de Pai dos Burros.

Despediram-se com um amplexo e tão logo o Conto retornou à antessala e pôs os olhos na Novela, sentiu que, quem sabe com mais algumas páginas, um aprofundamento, podia se tornar uma… Não, não. Novelas usam decotes voluptuosos, e ele preferia ser uma Crônica que bota uma camiseta e sai por aí sem sutiã. Novelas usam saltos altos, e ele preferia caminhar descaço pela areia do Tempo (não, “pela areia do Tempo” é muito lugar comum, e crônicas devem fugir desses clichês).

A Novela passou-lhe, discretamente, o cartãozinho de um Editor lacaniano, muito hábil na interpretação – e no corte – das palavras, e desejou-lhe, romanticamente, sutileza e frescor na nova vida.

O Conto agradeceu, enrubescido (Contos enrubescem; em breve, ele seria uma Crônica, e Crônicas apenas sorriem sarcasticamente, revelando a covinha no rosto).

A Novela abriu a agenda, suspirou, e mandou entrar o próximo cliente. Eram duas Quadrinhas e dois Haicais que tinham se conhecido num aplicativo de relacionamentos e cismaram que, juntos, dariam um Soneto.

“Nem tudo neste mundo tem jeito”, pensou, fazendo uma rima péssima – enquanto imaginava que talvez, sem o implante de silicone nem os hormônios, com um pouco de malhação para queimar advérbios localizados, uma barba de 2 dias e nenhuma maquiagem, até que ela mesma daria um Conto muito bem apessoado.