Quanto mais complicado melhor

tomara que caia

Tem coisa que eu não entendo.

Futebol americano, por exemplo. Por mais que já tenha assistido, não consigo vislumbrar regra alguma. É uma espécie de vale tudo com uma bola que não é bola (bola naquele formato, pra mim, é um oximoro) e um monte de marmanjos sem amor aos próprios ossos e cartilagens.

Eleição americana é outra coisa ininteligível. No mundo incivilizado, os partidos escolhem seus candidatos, os eleitores votam naquele que, a seu ver, mente com mais naturalidade e quem tiver mais voto está eleito. Já no país mais rico da Via Láctea, os partidos fazem disputas internas em que os postulantes gastam fortunas se estapeando entre si para no final – milhões de dólares mais pobres e todos um pote até aqui de mágoa – esquecerem as barbaridades que disseram uns dos outros e se unir contra o adversário de verdade.

E aí tem eleição? Não. Aí começa um processo hermético, enigmático e kafkiano em que pequenos eleitores elegem grande eleitores que votam num candidato que pode ser eleito mesmo tendo menos votos.

Não entendo a regra do impedimento. Ou até entendo, só não entendo por que ela exista.  E por que envolva tanta subjetividade por parte dos comentaristas esportivos.

Não entendo a regra do hífen. Ou, como na do impedimento, entendo, mas não me conformo. A regra, a bem da verdade, é clara: tem hífen onde a regra diz que tem que ter, mesmo que não precise, e não tem hífen onde a regra diz que não tem, mesmo que ali ele faça falta.

A regra do hífen deve ter sido criada pela mãe de alguém, com base na inquestionável sabedoria do “é porque sim” ou do “o dia em que você inventar sua língua você faz do jeito que quiser; mas enquanto você estiver na minha casa, usando a língua materna, é assim que vai ser”.

Há muito mais coisas que não entendo.

Não entendo por que as assessoras da Damares, da Regina e da Michelle não criaram um grupo no zap na véspera da posse para evitar que elas ficassem parecendo três galinhas d’angola na cerimônia. Ou por que uma alma caridosa não informou ao Jair que não era uma boa ideia (era uma péssima ideia, pra falar a verdade) bancar o ventríloquo com um humorista num encontro com a imprensa. E logo no dia de explicar o pibinho – que era o dobro do pibinho do FHC no primeiro ano do segundo mandato, o mesmo pibinho do Lula no primeiro ano do primeiro mandato, muito maior que o pibinho negativo do Lula no penúltimo ano do segundo mandato e muitíssimo melhor que os pibaços negativos dos dois anos do funesto segundo mandato da Dilma.

Qualquer outro teria aproveitado o momento para dizer que o país foi tão bem, mas tão bem, que nem com o presidente criando crise atrás de crise, treta em cima de treta, espalhando casca de banana para si mesmo o tempo todo (as bananas ele deu à imprensa) o pib conseguiu baixar a níveis dílmicos.

Tem mais coisa que não entendo. Como é que pode o valor de mercado do meu apartamento cair e o IPTU ficar mais caro. Por que o Ronaldinho Gaúcho usaria um passaporte paraguaio – e falso, ainda por cima. Se não saía mais em conta a Hering colocar uma alça reforçada em todos os tomara que caia do planeta em vez de bancar essa campanha milionária para a gente passar a chamar o tomara que caia de blusa sem alça.

Tomara que caia a regra do hífen. Tomara que o presidente caia em si para que o pib pare de cair. Tomara que a Regina não caia de novo nessa conversa de “pode ir sem medo , que ninguém mais vai estar usando bolinha”. Tomara que o Ronaldinho não caia no golpe do “la garantia del passaporte soy yo”. E tomara que o tomara que caia (com ou sem hífen?) sobreviva a essa malice sem alça, que há de querer acabar também com o assédio do pega rapaz, o tabagismo da calça cigarrette, a homofobia da camiseta mamãe sou gay, a pirataria da calça corsário, o falocentrismo da regata machão, a subversão dos valores familiares do maiô engana mamãe, a apologia ao crime do bolso faca e ao especismo da saia rabo de peixe e do macacão.

Porque eu não entendo essa vocação americana para complicar tudo, tanto quanto jamais entenderei essa nossa para a problematização e para a concretude.  O que, no fundo, dá na mesma.