O Código Niemeyer

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Em tempos difíceis, nada como um pouco de escapismo.

Emprestado por meu pai (que era maçom), andei lendo “O símbolo perdido”, do Dan Brown – uma patacoada hilária sobre segredos maçônicos.

Não é bem um livro, mas um filme escrito (a adaptação para o cinema pode ser feita usando apenas uma copiadora xerox). Quanto ao estilo…

Não há uma porta sequer no livro que não seja pesada. A expressão “porta pesada” aparece dezesseis vezes (ok, ok, é implicância minha: não tem só porta pesada, tem também pesada porta).

“Os dois passaram por uma porta pesada”.
“Por fim, chegaram diante de uma pesada porta”.
“A porta pesada se fechou atrás deles”.
“A pesada porta se abriu com um rangido”.
“A pesada porta de madeira estava escancarada”.
“A luz, no entanto, foi detida por uma pesada porta de madeira”.

Há “um ponto fraco na pesada porta de segurança”,
“uma pesada porta de aço”,
“uma porta pesada que conduzia a um pequeno patamar”,
“uma pesada porta de metal”,
“a pesada porta se abriu com um clique”,
“uma porta de ferro pesada se abrindo”,
“uma pesada porta automática”.

Paradoxalmente, não se faz qualquer menção às dobradiças, que devem sofrer quase tanto quanto o leitor.

O mestre maçom, cujo sequestro detona a trama, tem olhos cinzentos. Para evitar que o leitor se esqueça disso, o autor se encarrega de nos lembrar desse detalhe importantíssimo 19 vezes.

O vilão tem pernas musculosas. Tão musculosas que o autor não se cansa de falar delas.

“Galgava os degraus com as pernas musculosas”.
“As pernas musculosas desenhadas como pilastras esculpidas em relevo”.
“Pernas fortes, musculosas, que mantinha sempre bronzeadas”
“Forçou as pernas musculosas contra o tronco”.

Haja whey!

Talvez por causa dessas pernas musculosas (mas não só por elas, já que tinha também peitorais desenvolvidos e um genital enorme), o vilão adora um espelho.

“Parou, sentindo-se atraído pelo enorme espelho dourado”.
“Examinou-se no espelho. Satisfeito, alisou o couro cabeludo com a palma suave de uma das mãos”.
“Olhou-se no espelho para verificar se não havia borrado a maquiagem” (Sim, o vilão usa maquiagem. Pesada, como uma porta).
“Então foi até o espelho e estudou seu corpo nu”.
“Parou nu diante do espelho e admirou a própria forma”.
“Havia parado de fazer musculação e também de se admirar nu no espelho”.
“Admirou como se olhasse para um espelho. Eu sou uma obra prima”.
“Estava em pé diante de um espelho de corpo inteiro, filmando o próprio reflexo”.

Narciso perde.

A palavra “pirâmide” aparece 454 vezes (o livro tem 478 páginas).
“Símbolo” aparece 199.
“Segredo” e “secreto”, 196.

O time dos Redskins é mencionado apenas 15 vezes – e o livro nem é sobre futebol americano!

Os personagens são um anúncio da Benetton: o Arquiteto é negro, a agente da CIA é japonesa, o vilão é turco, o guarda é hispânico, o motorista de táxi é árabe. Estou na página 284, então ainda podem aparecer um filatelista búlgaro, um ventríloquo basco e um obstetra tibetano.

E isso vende igual água.

De pura inveja, deu vontade de escrever um romance danbráunico – com muita pesquisa, muita conspiração e muito clichê.

Pra não parecer plágio, saem os símbolos maçônicos de Washington, entram os símbolos rotarianos de Brasília. Pode ser mais ou menos assim:

1.

“Nas reuniões secretas do Rotary em Belo Horizonte, sexto município mais populoso do Brasil, com área aproximada de 331 km2, situado na Serra do Curral, Juscelino e Oscar tramavam a construção de uma capital rotariana para o país.

– Uma cidade cheia de rotatórias, e apartamentos funcionais de alta rotatividade, pediu JK, pousando suavemente sua mão macia sobre o braço musculoso do Arquiteto.

– Será nosso segredo, Jota: uma cidade repleta de símbolos rotarianos que jamais serão decifrados, redarguiu o Arquiteto, pousando os suaves olhos cor de mel na prancheta de madeira de Pinus elliottii, uma espécie de pinheiro, composta de duas variedades, o Pinus elliottii elliottii e Pinus elliottii densa, originária do Novo Mundo e que faz parte do grupo de espécies de pinheiros com área de distribuição no Canadá e Estados Unidos da América (com exceção das áreas adjacentes à fronteira com o México).

JK assentiu balançando suavemente a cabeça, parte do corpo humano enformada pelo crânio, que protege o encéfalo.

Lembrou-se naquele momento de quando era criança, em Diamantina, suave município brasileiro do estado de Minas Gerais, com população estimada em 2013 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística em 47.647 habitantes.

Sua mãe, D. Júlia, era uma suave professora de ascendência tcheca, sendo seu sobrenome uma germanização do original tcheco Kubíček. Ela pendurava suavemente a roupa no varal e ele a ajudava, entregando-lhe suavemente os pregadores enquanto buscava, com seus suaves olhos de mel, decifrar o que se passaria na mente daquela suave mulher, que cantarolava:

– “Roda, roda, roda e avisa; um minuto de comercial. Alô, alô, Terezinha…..”

– Uma cidade onde a gente roda, roda, e nunca chega, com um pombal em formato de pregador de roupa – pediu JK, suavemente. O Arquiteto pousou seus suaves olhos cor de mel na prancheta de pinus e desenhou o símbolo do Rotary: dali surgiria a planta da catedral.”

~

Se eu conseguir manter este suave ritmo por suaves 500 páginas, o besticéler tá garantido. E as pesadas portas do sucesso hão de se abrir – suavemente.

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Desabafo

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Os primeiros símbolos foram criados há cerca de 30.000 anos. A escrita, há quase 9.000.

É muito tempo para ainda não termos aperfeiçoado essa geringonça.

Tudo indica que o alfabeto foi inventado por um grupo de trabalho de burocratas, reunido numa caverna onde funcionava uma repartição pública mesolítica, coordenado por um brucutu do signo de Áries (logo, incapaz de aceitar sugestões e reconhecer quando está errado), sem objetivos específicos claros e sem prazo definido para conclusão do serviço.

Só isso explica termos que perder tempo, ainda hoje, com S, SS, X, SC e Ç para representar o mesmo som.

Por que não delegaram essa tarefa àquele taurino que sentava lá no fundo e se encarregou do T, o D, o P? Nem petista comete erro de ortografia com essas letras.

Imagino a polêmica entre a troglodita emo que achava o J muito fofo, e não queria abrir mão dele, e a primata empoderada que não abdicava do G nem a pau. O gestor (certamente isentão e não querendo contrariar ninguém) deu ganho de causa às duas, e até hoje a gente tem que escrever “giló” e “jiló” para ver qual parece menos estranho, e, aí, sim, saber o certo. (Técnica que, diga-se de passagem, não funciona com “beringela” e “berinjela” – a gente olha pra uma, olha pra outra e, na dúvida, muda a receita para abobrinha).

Hispânicos e lusitanos penam com o B e o V – que, para eles, são a mesma vosta. Nós escapamos dessa, mas não de confundir o L com o U (mau sabendo a péssima impressão que o mal uso dessas letras pode causar num texto).

Porém o maior problema da escrita não é estar dissociada da fonética. É ser, graficamente, confusa.

Terá sido por contenção de gastos que o zero tem a mesma forma da letra O? Que o número 1 seja igual ao L minúsculo? Que o 2 e o Z, e o 5 e o S sejam meio que cara de um, focinho do outro? Que o U e o V, dependendo da fonte (ou de ser uma edição portuguesa antiga) deem quase na mesma?

E – finalmente chegando à verdadeira razão desse desabafo – por que é que quem inventa os captchas (aqueles códigos que a gente tem que digitar pra provar que não é robô) não consegue criar unzinho que seja que não tenha um O, um 0, um l, um 1, um q, um g, tudo embolado?

Desafio qualquer um a acertar de primeira os captchas do site do CAU (Conselho de Arquitetura e Urbanismo). Eu acabo de desistir, na oitava tentativa.

Por que não nasci com uns neurônios a menos, pra ser reprovado no vestibular e acabar na segunda opção, que era Engenharia? No site do CREA, os captchas eram mais facinhos.

~

(Disclaimers)

1. Este texto contém ironia.

2. Na dúvida sobre que parte é séria, que parte não é, em vez de vociferar nos comentários, favor encaminhar mensagem imboques, que eu mando uma versão colorida – em verde o que é pra ler ao pé da letra, em amarelo a ironia, em laranja a chacota, em vermelho o sarcasmo e em roxo o escárnio.

3. Este texto se vale de estereótipos, clichês e astrologia, que são crimes hediondos e inafiançáveis, sem direito a foro privilegiado, colaboração premiada ou progressão da pena.

4. A locução “primata empoderada” não tem qualquer conotação racista, especista, sexista, homofóbica, islamofóbica, gordofóbica e/ou opressora.

5. Nenhum ariano, lusitano, burocrata, petista ou engenheiro foi ferido durante a digitação deste texto.