Derrubando mitos

Picles

“Camisinha é um método contraceptivo.”

Não é.

O contraceptivo não é a camisinha, mas a embalagem da camisinha.

Ela foi desenhada para impedir – ou, pelo menos, retardar ao máximo – a consumação do ato sexual.

Quem já tentou abrir uma embalagem de camisinha com a mão toda melada sabe do que estou falando. Ela não abre nem a pau. Para-se tudo o que se estava fazendo – ou pretendendo fazer – para se dedicar exclusivamente a uma função que se revela inglória e frustrante. Perde-se o foco e o fogo. Quando finalmente se obtém êxito, muitos e muitos minutos depois, a sensação de fracasso já se instalou e é preciso recomeçar do zero. Ou do -1.

Quem tenta abrir com os dentes (98% dos consumidores, segundo especialistas) corre o risco de rasgar não só a embalagem como a própria camisinha.

E quem tentou abrir com a mão seca, definitivamente, está pondo o carro adiante dos bois e abrindo a embalagem cedo demais.

A embalagem tem as laterais lisas e os trechos superior e inferior levemente serrilhados.

Muito levemente serrilhados, justamente para que não se saiba (sem ter que acender a luz e colocar os óculos) que lado é o de cima, que lado é o de baixo e que lado é o do lado. Se abrir do lado levemente serrilhado já é difícil, imagine do lado do lado.

Se quisessem que fosse facilmente aberta, viria com um picote decente, um “Abra por aqui”, como nos pacotes de biscoito, e uma visível diferença entre as laterais e as partes superior e inferior.

Mas não. Tudo ali foi desenhado para que o usuário perca tempo, paciência e, principalmente, o ânimo. Quem inventou a embalagem da camisinha foi a mesma pessoa que criou a embalagem de plástico do CD e a tampa do pote de palmito, cuja abertura é sempre um pepino.

Embalagem de camisinha tinha que ser de velcro. Ou ter um fecheclér. Ou, sei lá, as camisinhas podiam vir num pote de vidro, já desembaladas, nadando em lubrificante.

Esta seria a solução ecológica (vidro é retornável e reciclável) e ainda ter o plus extra adicional a mais do lubrificante – efetivamente necessário depois de certa idade.

Uma vez que se consiga abrir a embalagem e tirar a camisinha, vem a segunda armadilha: desenrolar pelo lado certo.

Sim, como nos cabos USB, a camisinha tem o lado certo e o lado errado.

Provando que a lei das probabilidades é de Humanas, não de Exatas, em 100% dos casos, ela desenrola pelo lado errado.

Custava vir cada lado de uma cor? Um fosforescente e outro opaco? Ou um lado liso e outro corrugado, para o caso de deficientes visuais e para quando se está no escuro – e aí todos tornamo-nos deficientes visuais?

Não escolha a camisinha pelo tamanho (existem o normal, de 52 mm, que atende 98% da humanidade, e, só para matar de raiva de não pertencer aos 2% restantes, o extra large). Nem pelo comprimento (varia de 10 a 18 cm, e é melhor ser sincero nessa hora, para não ficar com aquele aspecto de quem está usando calça da Zara, ou, ao contrário, que o defunto era maior). Muito menos escolha pela sensibilidade (a “sensitive”, como o próprio nome indica, estoura por qualquer besteira; e a ultra resistente equivale a namorar de escafandro). Escolha pela embalagem.

Embalagem com picotes grandes é o ideal. Se não for uma emergência (emergências existem menos do que a gente gostaria, mas existem), faça você mesmo, previamente, um picote grande com uma tesoura.

Um, não: faça logo 4, um de cada lado. Aquela meia hora de luta com unhas e dentes (literalmente) para abrir o diabo da embalagem pode ser revertida para outras finalidades. Descobrir o lado certo pra desenrolar, por exemplo.

Porque é mais fácil o dentifrício voltar para o tubo do que rebobinar uma camisinha desenrolada pelo avesso.

E se lembrar, nessa hora, de quem falou essa história do dentifrício é que é o contraceptivo mais eficaz do planeta.

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Sologamia

sologamia

 

Uma conterrânea minha, bela loura de 38 anos, casou-se esta semana consigo mesma.

Beagá tem esse “problema”: mais mulheres (quase 200 mil a mais) que homens. Arrumar marido lá deve ser quase tão difícil quanto conseguir um “bom dia” em Curitiba.

A sologamia feminina poderia ser uma forma de equilibrar as contas e minimizar a solteirice congênita que afeta tantas meninas de Minas. Mas ninguém garante que algum homem belo-horizontino também não venha a contrair matrimônio com si próprio, e o déficit permanece igual ao da Previdência – crônico, inexorável, vitalício.

Sem contar que a sologamia – em que pese a economia de uma aliança e um bonequinho em cima do bolo – tem seus senões.

Pode-se pensar que ela signifique solidão, mas é o contrário. Aí é que você não vai ficar sozinho/a de jeito nenhum. Seu/sua parceiro/a vai grudar em você, sempre estará onde você estiver – e não adianta nem se trancar no banheiro para ter um minuto de paz.

Aliás, o banheiro é outro problema. Não há relacionamento que sobreviva à visão do/a parceiro/a absorto/a em questões escatológicas aboletado/a no vaso sanitário. E isso não só de vez em quando, ou por acaso, mas todo dia.
Dia após dia.
Até o fim dos dias.

Nas DRs não dará pra fazer de conta que você está prestando atenção, ou fingir que concorda só encerrar logo o assunto. A coisa só vai acabar quando você se cansar de falar, não quando se cansar de ouvir.

Se você brigar consigo mesmo/a (quem nunca?), fizer as malas e voltar pra a casa da sua mãe, vai parar é na casa da sua sogra.

E não vai poder dormir de conchinha.
Não vai ter quem tire cravos das suas costas.
Não vai ter quem passe protetor solar nas suas costas.
Quem te ajude a fechar o fecheclér (se você for mulher).
Quem te lembre a data do aniversário do casamento (se você for homem).

Nunca vai chegar em casa e encontrar um jantarzinho surpresa.
Nunca vai ter com quem dividir a quantidade de louça suja decorrente do jantarzinho surpresa.

E vai ter que ser fiel na marra.

Tem que ser muito esperto/a para pular a cerca sem que nem você perceba, e muito sonso/a para não perceber que você mesmo/a pulou a cerca – o que é um paradoxo.

No sexo conjugal, então, vai ser uma tristeza. Porque o auto-engano é uma arte, mas tem seus limites.

Não vai dar para fingir orgasmo, nem inventar que está com dor de cabeça ou vir com aquele papinho de que “isso nunca me aconteceu antes”.

Nunca vai poder transar pensando em outra pessoa sem ser flagrado/a cometendo adultério em pensamento. E se pensar em si mesmo/a, é narcisismo. E quem aguenta ir pra cama pelo resto da vida com um/a parceiro/a que ou é narcísico/a ou traíra?

Suas fantasias sexuais sempre serão previsíveis – e você saberá de antemão aonde quer chegar com aquela conversa mole de “não vai doer, eu faço com jeitinho”.

Prepare-se para se sentir culpado/a em 100% das vezes. Você não poderá colocar a culpa na outra pessoa por não conseguir localizar o bendito Ponto G. Nem se a outra pessoa gozar rápido demais, e te deixar na mão.

Não adiantará mentir quando perguntar a si mesmo/a “foi bom pra você?” Nem fazer de conta que está dormindo para não ter que passar por aquilo tudo de novo. Ou por saber que uma segunda, logo em seguida, não rola nem a pau.

Mas tem um lado bom.

A cama é toda sua.
O controle remoto é todo seu.

A tampa do vaso estará sempre abaixada.
Ou sempre levantada.

Não haverá calcinhas penduradas no box.
Ou não haverá alguém reclamando das calcinhas penduradas no box.

Não haverá drama se esquecer de tomar a pílula ou de comprar camisinha.

E na divisão dos bens, em caso de divórcio, por mais litigioso que seja, tudo vai acabar ficando pra você.

Complicada mesmo é a pensão por viuvez – que você não vai receber nem morto/a.

(originalmente publicado em 30 de maio de 2019)