Ardósia

ardosia

Que me perdoem o rubi, o diamante e o lápis-lazúli, mas pedra preciosa que se preze tinha que se chamar ardósia.

– Vendido para o cavalheiro da primeira fila o colar de pérolas por 20 mil dólares. E agora, a peça mais valiosa da coleção do marajá: este portentoso anel de ardósia verde, com lance inicial de 30 milhões de euros. Dou-lhe uma…

Berilo podia ser material de construção (“Tião, me vê aí dois sacos de cimento, um caminhão de brita e outro de berilo. Mas peneira bem antes, que o da semana passada tava todo empedrado.”).

Topázio, um osso da canela ou do dedinho do pé (“A radiografia mostra uma fratura no topázio. A senhora vai ter que ficar imobilizada por 15 dias. E prestar mais atenção nas turmalinas dos móveis daqui por diante.”).

Âmbar devia ser sabão.

Obsidiana, um tipo de passe em centro espírita.

Quartzo, divindade asteca do segundo escalão.

Ardósia, não. Quem inventou este nome tinha outros planos para ela. Ardósia nasceu para ofuscar na festa do Oscar, não para piso de churrasqueira em Irajá.

– Tia Ágata, o que o Ônix está fazendo aí?

– Fala mais alto, minha filha, que tem um gato grudado na minha orelha! A unha dele agarrou no meu brinco!

O brinco – herança mais cobiçada na família – era de ardósia, claro.

Ametista poderia ser uma especialidade médica. (“Esmeralda e eu preferíamos que a Jade tivesse feito pediatria, mas ela quis ser ametista, paciência. Sabe como são os jovens de hoje em dia, né? Fazem o que dá na malaquita.”). Ardósia jamais seria segunda opção.

Tudo poderia ser outra coisa. Porém menor.

Na padaria:

– Moço, esse pão contém sílica?

– Não, madame. É feito com mica orgânica, farinha de jaspe e água marinha.

– Me vê quatro. E uma opala de chocolate, essa grande aqui do canto, que eu estou turquesa de fome.

Entre quatro paredes:

– Vem cá, sua safira, que hoje eu vou te lapidar todinha…

– Sai pra lá, seu feldspato!

Só ardósia, se não fosse a pedra que é, seria maior. Poderia ser uma espécie de amor ardente (“Sinto uma ardósia a me queimar por dentro!”). Ou um animal mitológico (“E Zircônia surgiu, montada em sua ardósia alada”). Mas não deu, e ardósia veio ao mundo para batizar argila prensada.

Para isso, bauxita estava de bom tamanho.

 

(originalmente publicado em 14 de março de 2019)

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