Morfeu

Deus se espreguiçou, esfregou os olhos e verificou a hora no rádio-relógio: caramba! Tinha tirado uma soneca ao sétimo dia, depois de uma maratona extenuante, e acordava agora, 7h57 da manhã, quase 14 bilhões de anos depois.

Lavou o rosto, preparou um café bem forte para acompanhar o maná, o leite e o mel, ajustou os óculos e foi dar uma espiada nos portais de notícia.

Flordelis. Não, não era do seu tempo, definitivamente. Cristã, 55 filhos (“Essa levou a sério o ‘crescei e multiplicai’!”), uma peruca suspeitíssima e… peralá: matou o marido porque a lei de Deus não permite a separação.

– Eu disse isso? Mata, mas não separa?

Tinha mais. O marido era um dos filhos. Ex-genro. Frequentavam casa de suingue. Amante de uma das suas filhas-irmãs. Sobreviveu a quatro tentativas de envenenamento pela própria esposa-mãe-sogra-sócia. Uma filha-irmã pesquisara no gúgol “Assassino onde achar”. Não achou (o Uber Kills ainda não está em funcionamento). Acabou abatido a tiros numa operação que envolveu 6 dos filhos-irmãos.e um neto-sobrinho.

Flordelis, mandante do assassinato do marido-filho-genro e cafetina de uma das filhas, não queria “escandalizar o nome de Deus”.

Claro que há outros deuses, milhares deles. Mas esse Deus com maiúscula, mencionado por uma evangélica, só podia ser Ele.

– Meu Eu mesmo, o que é que está acontecendo?

Rolou a tela. Padre Robson. Cara de subsíndico. Responsável pela Romaria do Pai Eterno (“Eu!”), com 3 milhões de participantes por ano. E também responsável por apropriação indébita, falsificação de documentos, sonegação fiscal, associação criminosa e lavagem de dinheiro.

Movimentou mais de R$ 2 bilhões, desviou pelo menos R$ 120 milhões, comprou uma fazenda, uma casa de praia e gastou quase R$ 3 milhões pagando o chantagista que tinha sido seu amante.

Deus coçou o triângulo que flutuava sobre seu cocuruto. Pensou em mandar um zap para Alá, mas o Misericordioso tinha desativado as notificações depois de saber da Al Qaeda, do Talibã e do Boko Haram. Passava os dias sentado, com o olhar perdido na direção de Meca, sem sequer olhar para o celular.

Quem sabe um call pelo Zoom com Tupã, Oxóssi e Elvis, mas já sabia o que ia ouvir. Brahma e Izanami com certeza reclamariam por causa do fuso horário. Talvez uma ida a um centro espírita celestial para se consultar com Zeus, Odin, Enki, Osíris e Quetzalcóatl, mas…

Ocorreu-lhe uma solução. Já tinha feito algo parecido antes, um rebute, um Format C: – mas desta vez não daria espóiler a nenhum humano, nem disponibilizaria tutorial de como construir arca nenhuma..

Olhou de novo para os lábios carnudos de Flordelis, para o olhar oblíquo e dissimulado do padre Robson. Onisciente, lembrou-se de João de Deus, do Malafaia, do arcebispo de Boston, do Apóstolo Valdemiro.

O café tinha esfriado na caneca e as formigas celestiais acabavam de descobrir o mel e o maná e batiam as antenas freneticamente, em êxtase quase místico.

Deus pensou nas calotas polares. Se acelerasse o derretimento… Pensou na imensa quantidade de vírus ainda isolados nos seus nichos. Nas queimadas. No politicamente correto. Nas novas safras de duplas sertanejas. Arrancou da tomada o computador, sem sequer fechar os programas abertos. Voltou para o quarto, pegou o vidrinho na mesa de cabeceira, pingou na língua 15 gotinhas de rivotril, murmurou “Comigo me deito, comigo me levanto…” e não chegou a terminar a oração.  Mais 14 bilhões de anos sem aborrecimentos estavam garantidos.

Tensão pré-voto

rosa

Hoje é dia de tensão. Tem voto da Rosa Weber.

“Da cabeça de juiz, da barriga de grávida e da bunda de neném, nunca se sabe o que vai sair”, dizia-se antigamente, antes da invenção do ultrassom. Permaneceram enigmas a cabeça de juiz e a bunda do neném. Mas depende do juiz – e do neném.

Sem citar nomes, alguém tem dúvida de qual será o voto do Gilmar? Ou do Ricardo (nome fictício, para preservar a identidade do Lewandowski)?

Já o voto da Rosa é um mistério. Talvez até para ela mesma. É um voto que não nasce voto: torna-se voto. Vai sendo construído à la Ricky Martin: un pasito pa d’lante, un pasito pa trás.

O voto dela é um imenso prolegômeno. Um prefácio mais comprido que o livro. Uma transa na qual as preliminares duram tanto que você já acendeu o cigarro, já perguntou se foi bom, já ligou no dia seguinte, já inventou uma desculpa para não encontrar de novo e a pessoa ainda está lá, tentando abrir o fecheclér.

É sempre um voto embasado, consistente, equilibrado. Tão equilibrado que, até chamarem o VAR, não dá pra saber se foi w.o., nocaute ou impedimento.

Deve ser culpa do sobrenome. Rosa pensa em alemão, com aquelas frases imensas em que já foram usados todos os substantivos, adjetivos, advérbios, pronomes, conjunções aditivas, adversativas, concessivas, conformativas – e nada de chegar no verbo.

Rosa tem plena consciência de que é o fiel da balança. Que é a bendita ignição que sempre engasga no filme de terror – se ligar, a mocinha se safa; se falhar mais uma vez, o psicopata de machadinha ensanguentada na mão faz a festa. E até as luzes se acenderem e começarem varrer a pipoca do chão, a gente nunca sabe de que lado ela estava.

Votação no Supremo tinha que ser como no Programa Sílvio Santos: o juiz fica numa cabine à prova de som e o apresentador pergunta:

– Vossa excelência troca este lindo conjunto de jantar de fórmica vermelha por uma bala 7 belo de framboesa?

– Siiiiiiiiiim!

– E põe na rua centenas de estelionatários, trapaceiros, escroques, gatunos, vigaristas e facínoras para poder tirar um certo ex-presidente da prisão?

– Nãããããão!

Pronto. Em 5 minutos cada um dos 11 ministros já estaria desembrulhando sua 7 belo e conversando amenidades, enquanto o país voltava à programação normal.

Mas não. A partir das 2 da tarde de hoje, lá vamos nós prender a respiração. E não por causa do que possa sair do bumbum do bebê, mas da cabeça da juíza.

Juízo, Rosa. Juízo. E que São Rivotril nos ajude a esperar pelo final do voto.