Baseado em fatos reais

rainha

– Alô.

– Oi, vó. Sou eu.

– William, já não te falei para não me ligar me chamando de vó no horário de expediente?  Das 7h às 22h é Your Majesty.

– Não, vó. Sou eu.

– Que foi desta vez? O George inventou de fazer mais um doutorado e você quer que eu ligue pra Oxford? Ele já tem 35 anos, 8 doutorados, acho que chega, né? Ele faz qualquer coisa para não casar, mas vai que um dia precisamos de um herdeiro ao trono…

– Não, vó. Eu.

– É a Charlotte, então? O que foi que as pestes das filhas dela aprontaram desta vez, William? Na semana passada rabiscaram um bigode no retrato da great-great-great-great-grandma Vitória e botaram fogo na sacristia de Westminster. Eu avisei que se fizessem isso mais uma vez eu deserdava as duas!

– Vó…

– Não vai me dizer que o Louis engravidou a namorada! William, é a terceira vez que o Louis engravida uma namorada este semestre. E nem é a mesma namorada! Desse jeito, a minha linha sucessória vai virar um novelo.

– Vó, sou eu, o Harry.

– Quem?

– Harry.

– Aquele ruivo? [Bota a mão no bocal do telefone e faz uma ligação pelo celular] Kate, é a Lilibeth. Como é que chamava aquele seu cunhado, irmão do Will, um ruivo, filho da Diana?

– Vó…

– Just a minute, please. [Cobre de novo o bocal com a mão] Um ruivo, Kate, de cabelo encaracolado, que não parecia com ninguém da família desde Henrique VIII.  Você e a mulher dele não se davam, lembra? Isso faz tempo, foi antes de você ter o Edward, o Philip, a Mary, o Richard, o James, a Alexandra, a Vic e os trigêmeos.

– Vó.

– Teiquirize, young man.   Já falo com você.  [Volta ao celular] O Charles ainda era vivo. Era Harry que se chamava, não era? Tem alguém aqui na linha com esse nome querendo falar comigo. Como é que será que ele conseguiu meu telefone?

– Vó…

– Olá, Harold. Desculpe, a ligação estava picotando. Há quanto tempo…

– Harry. Pois é, vó. Trinta anos, já.

– Time flies…

– Eu queria que a senhora soubesse que todos esses anos eu só pensei em voltar, mas a Meg…

–  Sei como é. O Philip e eu brigamos hoje cedo e desde então ele está tentando voltar, mas deve estar perdido em algum corredor, não acha o caminho…. rá rá rá.. E a Inglaterra quer voltar para a Europa desde 2020, e também não consegue. É a vida, né?

– Eu era jovem, ingênuo, vó. Mas agora eu dou valor. Eu levava uma vida de príncipe e…

– … abriu mão dela, right? Tio Dick também fez isso, e também por uma divorciada americana. Eu não sei o que os homens desta família veem em divorciadas americanas, mas, enfim.  Como é que está o…. o….  Flipper?

– Arquibaldo, vó.

– Eu sabia que era um nome de golfinho. O Arquibaldo, como vai?

– Vai bem. Trabalha como vendedor de seguros de dia, e de noite é barman num pub aqui de Toronto.  A Meg voltou pra casa da mãe dela, e o Archie preferiu ficar comigo, porque não queria ir pros Estados Unidos e correr o risco de ter que lutar na guerra de Dubai.

– Não era guerra do Qatar?

– Essa foi semana passada, depois da guerra da Arábia Saudita, e antes da guerra de Abu Dhabi.

– Mas assim que acabar o petróleo todo, não vai ter mais guerra lá, e ele pode voltar pros Estados Unidos sossegado.

– A gente estava pensando em voltar era para a Inglaterra, fazer as pazes com o Will, com a Kate, com as corridas de cavalos, com os bailes de gala, a pensão da família real…. Eu nem conheço todos os meus 11 sobrinhos…

– Estão lindos. E são 17, se não me engano. Pelo menos eram, até a última contagem que mandei fazer. O mais velho, o George, ainda não casou – mas mais vale um celibato que outra divorciada americana. Charlotte tem as duas meninas, Marge e Beth, umas encapetadas, que puxaram sua tia avó, a Margarete. Se o George não casar, quem talvez vá para o trono algum dia seja a Marge – e aí seja o que Santa Thatcher quiser. Louis puxou a família da avó, os Spencer, e é da pá virada. Mas enquanto eu aguentar apertar a mão dos primeiros ministros, e fingir que estou interessada no papo, vou levando.

– Então, vó, eu…

– Liga para o protocolo real, vê como está a agenda para 2050 e a gente marca um chá das 5 qualquer hora dessas. Se a Scotland Yard conseguir localizar o Philip até lá, ele participa também.

– Mas, vó, tem a passagem…

– Ah, sim, claro, a passagem. A passagem do Charles foi muito triste. A da Camilla nem tanto. Mas ele já estava com quase 90 anos, ela já tinha passado dos 100. Todos nós sentimos muito, principalmente os caricaturistas dos tabloides. Agora eles se divertem é com a careca do Will. E com a filharada dele e da Kate. A passagem da Anne, do Andrew, do Edward e do Winston também foi triste.

– Winston?

– O corgi. Sobreviveu à Maggie, ao John, ao Tony, ao Gordon, ao David, à Teresa, ao Bóris e aos outros 20 pets que vieram depois. Mas engasgou com um Yorkshire pudding. Quer dizer, ele achou que era um Yorkshire pudding, e era só um yorkshire. Poor Winston.

– Vó, se eu voltar, eu volto para a linha de sucessão, né?

– Quando você abriu mão de tudo, a fila andou e acho que sua posição agora deve ser logo depois do Keith Richards.

– O Keith Richards está vivo?

– Vivíssimo de Windsor! Vem inclusive tocar na minha festa de aniversário. Na dos 120 anos ele não pôde, porque estava numa rehab, mas agora na de 125 ai dele se faltar.

– Tá, vó. A Meg levou tudo, mas eu e o Archie damos um jeito e voltamos. Miss you!

– Só avise seis meses antes, que eu tenho que ir para a Austrália, a África do Sul, a Índia, o Quênia, as Malvinas, na comemoração dos 100 anos de reinado.

– Não vai passar pelo Canadá? Podia me dar uma carona…

– Vou, mas não dá. O iate vai estar lotado. Todos os filhos da Kate irão. Estamos até providenciando uns botes extras, para o caso de nascer mais algum durante a viagem. Beijo, Harold. Vovó adorou falar com você.

– É Harry, vó. E será que a senhora não podia passar um doc… Vó? Vó?