Tudo passa, tudo sempre passará

trudeau

Fidel Castro disse que a História o absolverá.

Tolinho.

A História nos condenará a todos, sem exceção. É questão de tempo.

Condenou Monteiro Lobato por descrever o beiço da Tia Nastácia, serviçal da branca Dona Benta.

Condenou o príncipe dos contos de fadas por despertar a princesa com um beijo não consentido.

Condena o ultramegagigablasterhipster primeiro ministro do Canadá, Justin Trudeau, por ter feito blequifeice na década de 90 e em 2001.

Como é que Monteiro Lobato ia adivinhar que a caracterização de uma empregada preta seria uma abominação menos de um século depois?

Como é que os príncipes encantados iam saber que seu fetiche por donzelas narcotizadas, moçoilas de madeixas quilométricas e senhoritas de pezinhos atrofiados (espremidos em desconfortabilíssimos sapatinhos de cristal) seria símbolo de opressão? E que seriam psicanalisados por causa de sua fálica espada em riste, e demonizados por levar os dragões à extinção?

Quando é que passaria pela cabeça do corretíssimo e virtuosíssimo Trudeau que uma fantasia carnavalesca aos 20 anos de idade poderia vir a ser sua ruína eleitoral 27 anos depois?

Não se enganem os certinhos de hoje: o amanhã lhes fará cobranças inimagináveis.

A atriz que exibe exuberantes tatuagens multicores e orgulhosas axilas felpudas como sinais de empoderamento será execrada quando, no futuro, decidirem que uma fênix no cóccix, uma flor no cangote ou uma frida na virilha não passam de iscas para atrair olhares e objetificar o próprio corpo. E que o buço espesso e as canelas cabeludas não são mais que estratégias veladas para valorizar a testosterona.

O jornalista que faz questão de citar todos, todas e todes os brasileiros, brasileiras e brasileires terá seus textos, textas e textes revistos, revistas e revistes porque se limitou a variar apenas, apenos e apenes alguns pronomes, pronomos e pronomas, mantendo os verbos, as verbas e es verbes sem conjugar, conjuguer, conjuguir, conjugor e conjugur, de forma, formo e forme a não tornar, torner, tornir, tornor e tornur o idioma, a idiomo e e idiome completamente, completamento e completamenta inclusivo, inclusiva e inclusive.

Os pósteros (e as pósteras e os pôsteres) olharão para ginecologistas e obstetras que atendiam apenas mulheres (e especialistas em próstata que atendiam apenas homens) do mesmo modo que hoje lançamos nosso olhar de incredulidade sobre os cirurgiões-barbeiros que curavam tudo com sangrias e sanguessugas, enquanto aparavam bigode, cavanhaque e costeleta.

Festa de revelação do sexo do bebê um dia será contravenção prevista no Código Penal, com pena de 5 a 8 anos de reclusão – aumentada em até 1/3 caso sejam usadas cores rosa e azul.  Mas, décadas depois, pintar o quarto de verde e escolher nomes neutros é que se tornará crime inafiançável.

Garfo, colher e faca mostrarão que éramos incivilizados e anti-higiênicos à mesa – mais ou menos como no tempo em que nossos pais palitavam os dentes após as refeições e nossos avós mantinham escarradeiras a postos na sala de visitas. As pessoas do futuro comerão com hologramas, e terão nojo da nossa prataria – tanto quanto dos nossos faqueiros de inox com cabo de plástico colorido.

Blequifeice será visto como reverência. Sororidade será palavrão. Ceder o assento no metrô aos idosos, sinal de desrespeito. Sistema de cotas, um modo vil de discriminação. Monogamia será catalogada como tara. Usar pírcim, um tipo de mutilação.

(Abre parênteses: Monteiro Lobato empoderava Emília e relegava seu marido, o Marquês de Rabicó – literalmente, um porco – a ser pouco mais que figurante.  Numa das reviravoltas da História, Lobato será reabilitado e, nas edições do século 22, o Marquês de Rabicó será o protagonista absoluto. A boneca de pano, com sua torneirinha de asneiras, não será mais que um símbolo do matriarcado têxtil opressor. Quem viver verá. Fecha parênteses)

(Abre parênteses de novo: Quem viver mais ainda verá Monteiro Lobato ser re-re-re-reescrito, e Emília ter sua importância reavaliada. Rabicó vai cair em desgraça e virar pururuca, sendo comido com angu de fubá feito a partir da espiga de milho falante outrora conhecida como Visconde de Sabugosa. Tudo preparado pela mucama Dona Benta e seu souschef Pedrinho, ambos a serviço de Tia Nastácia, a virgem dos lábios de mel. Fecha parênteses outra vez).

Pois é, Fidel, você errou rude. Aliás, o uso da expressão “errar rude” será tomado como referência do momento em que a língua portuguesa colapsou no Brasil, ali pelo início do século 21 (alguns estudiosos discordarão, dizendo que isso ocorreu quando se começou a usar o verbo “colapsar”).

Bem mais sábio que Fidel é o Nelson Motta, que escreveu que tudo que se vê não é igual ao que a gente viu há um segundo. Não adianta fugir nem mentir pra si mesmo: o futuro existirá só para nos condenar.

 

 

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Sequestrando a narrativa

sequestro

O governador Marcelo Freixo chegou por volta das 9h à Ponte Rio-Niterói, a bordo de um veleiro movido a energia solar – que demorou mais que o previsto porque o dia estava nublado e sem vento. Sua assessoria divulgou que o deslocamento gerou crédito de carbono.

Mais cedo, a Light (agora incorporada à Secretaria de Segurança Pública) havia espalhado postes por toda a Ponte, para evitar novos sequestros.

Agentes se posicionaram em pontos estratégicos com livros de filosofia e história. Como os atiradores de elite foram dispensados no início do governo, seus substitutos, os atiradores das classes marginalizadas, acabaram acionados para a eventualidade de uma ação mais delicada, sendo municiados com teses da UFF sobre ideologia de gênero e surubas em banheiros públicos de supermercados.

Uma ciranda foi organizada em torno do ônibus, com todas, todos e todes de mãos dadas e pés descalços, cantando “Imagine”, abraçando o coletivo e pedindo Lula Livre e soltando pombas brancas.

Uma deputada do PSOL sugeriu que o sequestrador não usasse gasolina, mas etanol, que é mais sustentável, e que os reféns não tivessem as mãos atadas com lacres sintéticos, levam séculos para se degradar e podem poluir os oceanos com microplásticos. Em troca, ofereceu cordas de fibra de cânhamo produzidas artesanalmente numa comunidade da Praça São Salvador.

Numa plenária, realizada na praça do pedágio, os comitês de Cidadania, Historicidade, Horizontalidade de Gestão, Inclusão Trans e Anticanabisfobia deliberou que as ações de resgate, se necessárias, deveriam ser pautadas pelas diretrizes de gênero, etnicidade, empoderamento lésbico (com ênfase na não performação da feminilidade) e participação em ovulários de sororidade e encontros de detox da masculinidade.

Um comitê elaborou uma pesquisa (patrocinada pela Capes) para definição da escala pantone dos cidadãos em situação de ônibus e do marginalizado em situação de máscara e garrafas pet supostamente inflamáveis. Esse estudo permitiria fornecer subsídios à equipe de negociadores para determinação da prioridade daquilo que a extrema imprensa burguesa insistia em chamar de “libertação de reféns”.

Foram feitas propostas de que os veganos deveriam deixar a condição de ônbus para a condição de ponte antes dos demais, gerando intenso debate com os que lembravam que o pagamento da dívida histórica com os afrodescendentes deveria ter precedência. Trabalhadores em situação de informalidade, mulheres oprimidas pelos padrões estéticos da sociedade e pela balança, e minorias sexuais também foram pontuadas, até que o próprio governador lembrou que a verdadeira vítima era o afrodescendente portador de máscara, que se levantara às 5 da manhã, possivelmente sem um desjejum como aquele do Copacabana Palace que ele mesmo havia acabado de tomar.

Foi organizado no vão central um show de solidariedade à vítima da sociedade branca opressora que mantinha o controle do ônibus, com participação de Zélia Duncan, Maria Gadú, Anavitória, Tico Santa Cruz, apresentação de Tatá Werneck e Bruno Gagliasso, e performances das axilas de Bruna Linzmayer, com fundos revertidos para a ONG SVS (Sequestradores Vítimas da Sociedade) e transmissão ao vivo pela GloboNews.

Após 14 horas de negociação, com fornecimento de quentinhas veganas ao sequestrador, entrevistas exclusivas à Mônica Bérgamo e à Carta Capital, os cidadãos reclusos no coletivo se amotinaram, tomaram a chave, deram um cavalo de pau e retornaram a São Gonçalo, sob saraivadas de livros da Márcia Tiburi, Foucault, Boff, Gramsci, Nina Lemos, Althusser, Judith Butler, Bagno, Habermas, Chauí, Sartre e Kéfera.

Um dos líderes do motim a bordo declarou pelo zap que ninguém aguentava mais ouvir o Programa da Fátima Bernardes (no ar das 7 da manhã às 7 da noite na tevê de bordo) e que, por unanimidade, preferiam se jogar no mar. Antes de despencar pela mureta, libertaram o sequestrador – que foi recebido com soquinhos no ar pelo Governador Freixo e convidado a jantar no Fasano.

A direita problematizou a comemoração do governador e achou falta de decoro os soquinhos no ar. Em Nota Oficial, o Palácio Guanabara declarou que a missão foi um sucesso, com o salvamento do sequestrador e que manda condolências à empresa que perdeu um ônibus.