Por uma linguagem inclusiva

Há movimentos para tirar de circulação termos e expressões ofensivos a minorias.

É uma questão de civilidade.

“Fazer baianada”, “serviço de preto”, “coisa de mulherzinha”, “programa de índio” não vão fazer falta nem deixar saudades.

Por outro lado, há os exageros. Coisa de gente que perdeu a mão (e não vai aí nenhuma hostilidade aos amputados), o foco (não, não vejo com maus olhos os portadores de presbiopia, astigmatismo, catarata), o rumo (longe de mim querer alcançar as vítimas de desorientação amnéstica), o eixo (sem inclinação desfavorável aos que sofrem de labirintite).

“Caixa preta”, “sorriso amarelo” e “entrar no vermelho” não têm conotação racial. Mas, no ritmo em que as coisas vão (sem ofensa ao portadores de arritmia cardíaca!), não será surpresa se a lista de expressões que devemos banir do idioma para torná-lo mais inclusivo incluir:

– Terça-feira gorda.
> Ofende os dias da semana não adiposamente privilegiados;

– Apressado come cru.
> Busca ridicularizar os adeptos da dieta crudívora;

– A carne é fraca.
> Favorece, sub-repticiamente, a dieta vegetariana ou lactovegana;

– Gordura trans.
> Associa os pluçaize e as pessoas cuja identidade de gênero difere daquela designada no nascimento a algo prejudicial à saúde;

– Quem vê cara não vê coração.
> Privilegia os cirurgiões cardiovasculares em detrimento dos cirurgiões plásticos;

– Tempos de vacas magras.
> Ofende as anoréxicas, correlacionando magreza e miséria;

– O trem tá feio.
> Insulta o já combalido sistema de transporte ferroviário e, simultaneamente, os mineiros e mineiras em desconformidade com os padrões estéticos da sociedade;

– Alto lá!
> Estigmatiza e afasta os esbeltamente avantajados;

– O que vem de baixo não me atinge.
> Ultraja os de estatura comprimida;

– Pimenta nos olhos dos outros é refresco
> Perpetua estereótipos contra as pimentas, ignorando o grupo minoritário das pimentas biquinho, que não ardem;

– Deus escreve certo por linhas tortas.
> Fomenta a opressão gramaticoteísta em relação às pessoas diferentemente dotadas de destreza manual;

– Um dia é da caça, outro é do caçador.
> Ignora a pesca, fonte de subsistência das populações ribeirinhas;

– Uma andorinha só não faz verão.
> Discrimina os celibatários (voluntários e involuntários), os nerdes e os sologâmicos;

– Não julgue o livro pela capa.
> Institucionaliza o menosprezo aos dizáiners gráficos, cuja profissão sequer é reconhecida;

– É dando que se recebe.
> Estimula a prática não ortodoxa do troca-troca;

– Cada cabeça, uma sentença
> Deprecia as decisões colegiadas do STF;

– Roupa suja se lava em casa.
> Propaga subliminarmente o boicote ao empreendedorismo na área das lavanderias;

– Quem com ferro fere, com ferro será ferido.
> Nega a teoria de que racismo reverso não seja racismo;

– Quem tem boca vai a Roma.
> Faz apologia do tráfico de drogas, insinuando que traficantes sejam bem sucedidos, o que lhes permite viajar ao exterior;

– Preto emagrece.
> Não precisa nem comentar, precisa?