Ponto e vírgula

ponto e virgula

Hoje vamos falar de uma das espécies mais ameaçadas de extinção da língua portuguesa: o ponto e vírgula.

Antes, eu queria fazer uma pesquisa. Quem já usou o ponto e vírgula esta semana, por favor, levante a mão.

Ninguém.

Agora quem tenha usado pelo menos uma vez este mês.

Ninguém?

Este ano alguém usou?

Ok, o senhor de pincenê, fraque, cartola e longas suíças ali ao fundo.

Ninguém mais?
Ninguém mais.

Este é o problema do ponto e vírgula: ninguém mais se lembra dele. É paradoxal que, num momento de inclusão das minorias e exaltação das diferenças, o primeiro sinal de pontuação trans continue sendo vítima de preconceito e tenha tamanha invisibilidade gramatical.

Um dos motivos, talvez, seja o fato de não se saber ao certo quem é o ponto e vírgula, onde vive, para que serve, como se alimenta.

Uma corrente afirma que se trata de um ponto que nasceu no corpo de uma vírgula; outra, que é uma vírgula que se sente com alma de ponto. O que, se você prestar atenção (não estava prestando, pelo visto), dá exatamente na mesma. Até porque, se fosse o contrário, o nome seria vírgula e ponto.

Uma terceira corrente é no sentido de que o ponto e vírgula possa ser considerado tanto uma vírgula empoderada quanto um ponto vacilão, sem pegada.

Imaginemos que a vírgula seja o Id, aquela instância psíquica progressista, que vai em frente, liga o dane-se e não quer nem saber; que o ponto seja o Superego, conservador e meio reaça. O ponto e vírgula será o Ego, o mediador, o tiozinho isentão.

Conscientemente, você poderá usá-lo na luta contra o empobrecimento estilístico; inconscientemente, só quando fica sem saber como separar duas orações coordenadas não unidas por conjunção e que guardem relação entre si.

Pode-se sempre usar o ponto; fica mais classudo, porém, lançar mão do ponto e vírgula. Ainda mais se for para separar orações sindéticas ou coordenadas adversativas se a conjunção vier no meio de uma das orações.

Ou, ainda:
1. Para relacionar itens;
2. Pela enumerar itens;
3. Para arrolar itens;
4. Para elencar itens; e
5. Para listar itens.

O ponto e vírgula anda tão desprestigiado que até os hifens lhe tiraram, nesta última reforma ortográfica. Falta pouco para que tenha o mesmo destino do trema.

Não se recomenda, entretanto, usá-lo a torto e a direito, como se fosse vírgula; sua aplicação deve ser pontual.

 

(originalmente publicado em 3 de outubro de 2018)

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Homônimos & parônimos

paronimos

Meses atrás, recebi de uma das maiores empresas de engenharia consultiva do país um documento solicitando delação de prazo para atender uma exigência legal.

Há coisa de uma semana, outra empresa de engenharia, também grandinha, mandou um relatório no qual informava que parte do reboco da fachada de uma edificação apresentava risco eminente de queda.

Neste segundo caso, fiquei tranquilo. Riscos eminentes hão de ser riscos importantes, proeminentes, magníficos – mas nada urgente. Fossem riscos iminentes, aí, sim, alguma providência tinha que ser tomada – e já!

Quanto à delação do prazo, fiquei na dúvida se era para ser feita à Prefeitura (onde corria o processo de aprovação) ou à Polícia Federal, e imaginando se o crime de atraso seria tão grave assim para merecer ser delatado.

A culpa não é dos engenheiros que confundem eminente e iminente, delatar e dilatar, mas da língua portuguesa, que, tendo 26 letras com as quais produzir permutações, combinações e arranjos os mais variados, faz corpo mole e cria essas pequenas variações em torno do mesmo tema.

Na vida profissional, já me deparei com esquadrilhas de alumínio. Com casas germinadas. Com telhas quebradas durante uma chuva de granito. E vários terrenos com problema de uso campeão.

Esse “uso criativo do idioma” é obra dos neurônios estagiários, que não querem suar a camisa e pegam a primeira palavra que soar parecida à que procuram. É por causa deles que tem gente que adoça e assusta cheque, desliga o fuzil e paga carneiro do INSS.

Quem já ficou na dúvida entre a apóstrofe e o apóstrofo, a descrição e a discrição, a dispensa e a despensa não precisa se infligir nenhum castigo por (quase) infringir uma regra da semântica. Basta espiar o dicionário (ou o gúgol, que é pai dos burros conectados) para não ter que expiar a culpa depois.

Devia haver uma seção de reclamações sobre essas pegadinhas do idioma, onde se pudesse pedir a cessão do direito de criar palavras novas, inconfundíveis. Ou, em último caso, uma sessão de descarrego para nos absolver de todos os pecados cometidos contra o vernáculo e nos tornar capazes de absorver essas sutilezas.

Ou não.

O idioma fica mais fragrante com a distinção menos flagrante entre as palavras.

Um cliente me pediu, há muitos anos, que projetasse para sua casa um telhado de vidro, enchendo o espaço de luz natural. Desenhei uma claraboia bem bonita, oval. Soube depois que ele andou elogiando o resultado, e dizia que seu lugar favorito era aquele cantinho com luz genital.

 

(originalmente publicado em 8 de janeiro de 2019)

Contradizeções do idioma

Gramatica

Ontem uma moça se contradizeu, e jamais uma contradizeção fazeu com que tanta gente se disposse a discutir conjugação verbal.

Quem nunca falou “eu fazi” ou “eu dizo” quando tinha 5 anos de idade que atire a primeira gramática.

Falar bem um idioma não é dominar suas regras: é decorar as exceções. As anomalias. As idiossincrasias. As frescuras.

A primeira pessoa que disse “eu disse” é que devia ter sido corrigida por ser contradizetória. Pela lógica, a conjugação do verbo dizer era para ser

Eu dizo
Tu dizes
Ele dize
Nós dizemos
Vós dizeis
Eles dizem

Mas ai de quem maldizer a excepcionalidade desta conjugação.

Se deixássemos as crianças falarem de acordo com a sua inteligência, o português seria quase uma ciência exata.

Porque o cérebro adquire um conhecimento e passa a aplicá-lo, a fazer deduções lógicas. Isso funciona muito bem na matemática (uma regra de 3 funcionará da mesma maneira quaisquer que sejam os números envolvidos), na química, na física.

A língua é outro departamento.
Ela é de humanas.
E é aí que a porca torce o rabo.

Eu dizi
Tu dizeste
Ele dizeu

Eu me contradizi
Tu te contradizeste
Ele (ou ela) se contradizeu

Simples assim. Se o idioma sêsse cartesiano, claro.

Você dizerá que faltou revisão.
Eu dizo que faltou leitura.

É lendo que absorvemos essas particularidades, nos familiarizamos com elas.

Quem mal lê, mal ouve, mal fala, mal vê – já dizeu Monteiro Lobato.

A moça ainda se contradizerá muitas outras vezes.
Já quem escreveu a nota no jornal terá que fazer o dever de casa, e aprender com Monteiro Lobato: se eu mal leio, mal ouvo, mal falo, mal veio.

Eventualmente Resignado

translation

Leio agora numa reportagem do UOL sobre a série “The Crown” que o rei Eduardo VIII “resignou” ao trono.

Ele podia até estar resignado com o fato de não poder manter a coroa e se casar (por amor ou por conveniência) com uma divorciada americana – mas o que ele fez, em bom português, foi abdicar.

Mais abaixo, informa-se que outro personagem “eventualmente” se mudou para a Austrália.

O texto original devia conter o advérbio “eventually”, que significa “afinal”, “por fim”, “finalmente”, “depois de muita delonga”.

Eventualmente, jornalistas brasileiros que antes só pagavam esse mico com “actually”, atualmente deram de pagá-lo também com o “eventually”.

O que será que houve com os tradutores?

Foram substituídos pelo o Bing ou pelo Google Translator?

Senão, como explicar que os atores agora sejam “nomeados” para o Oscar (e não “indicados”, como sempre foi)?

Brasileiros ainda batizam os filhos, mas quando se trata de filhos de personalidades estrangeiras, eles são é “nomeados” – como se nomeia um primeiro-ministro, por exemplo.

Só “realizei” isso há alguns anos, quando o neto da rainha da Inglaterra foi “nomeado” George.

Porque “to realize”, que sempre quis dizer “compreender”, “dar-se conta de”, agora é “realizar” mesmo. As pessoas realizam que o sucesso não é tudo – ou realizam a força que tem uma paixão (como cantou, premonitoriamente, o Lulu Santos).

Hoje também ninguém mais fica arrasado, sentido ou desconsolado quando uma celebridade morre: fica “devastado”. E a devastação é maior que a da Amazônia, não só pela quantidade de celebridades que tem morrido como pela leviandade com que se traduz no piloto automático.

Não demora, vamos “datar” com alguém (em vez de ir a um encontro), fazer “apologia” quando quisermos pedir desculpas, ir a um “apontamento” quando tivermos um compromisso, nos “enrolar” quando formos nos inscrever, “aplicar” ao preencher um formulário, ficar “injuriados” quando sofrermos algum acidente, comprar “medicinas” na farmácia, ter “prejuízo” contra negros & gays, e achar “esquisito” algo que for muito bom.

Abaixo as traduções automáticas.

Eu “suporto” esta ideia.

Traduttore, traditore

Originalmente publicado em 29 de outubro de 2018

Duas Caras

Os tradutores sabem melhor que ninguém – palavras são como pessoas: mentem, enganam, têm duas caras. São lágrimas de palhaço, riso de serpente. São oráculos, cartomantes: dizem o que queremos ouvir, sem deixar de dizer também o seu oposto.

~

O que é “cativar” alguém? Impressionar, seduzir. Cativar uma plateia é conseguir sua atenção. Um sorriso cativante é um sorriso encantador. Mas cativar quer dizer tornar cativo: prender, tiranizar, oprimir, aprisionar. Tem a mesma origem de captar, capturar. Cativo é o mesmo que escravo. Cativar é colocar em cativeiro. Tu te tornas eternamente responsável por tudo aquilo que escravizas, disse à raposa o principezinho.

~

“Encantar” é provocar admiração, agradar profundamente. Mas é, antes de tudo, lançar feitiço, botar quebranto, emitir palavras mágicas. Encantar é enfeitiçar – ato de bruxaria. O tal sorriso encantador do parágrafo acima é um sorriso de bruxa.

~

“Fascinar” é dominar pelo olhar; deslumbrar. Literalmente, usar o poder de Fascinus, deus romano representado por um falo, que protegia do mau olhado. És fascinação, amor – diz Elis; logo, o melhor é fazer figa (falos, hoje em dia, longe de espantar maus olhados, os atraem).

~

“Conquistar” – um amor, um prêmio -não é apenas obter, alcançar. Conquistar é submeter, subjugar, ocupar, dominar, vencer. César conquistou boa parte da Europa, os caubóis conquistaram o Oeste, alguém um dia há de conquistar você. Antes que isso aconteça, pergunte aos índios, aos gauleses, como foi a experiência. Conquistar o Everest não é apenas chegar ao seu topo: é pisar nele, cravar nele uma bandeira, como o toureiro crava a bandarilha no flanco do touro.

~

“Seduzir” é atrair, envolver – e também deflorar. Mas, em sua origem, quer dizer induzir ao erro, iludir com promessas, desencaminhar. Houve um tempo em que donzelas eram seduzidas (era o tempo em que havia donzelas), em que o demônio seduzia e negociava almas (havia almas, e o demônio tratava direto com o cliente, sem pastores evangélicos intermediando a negociação). Melhor seduzir as pedras, catedrais – como quer o Djavan – e deixar o coração de fora dessa.

~

“Ilusão”, por outro lado, não é apenas um engano – é diversão. Da mesma origem (“ludo” = jogo), vêm “lúdico”, “eludir” (escapar jogando), “interlúdio” (intervalo em um jogo), “prelúdio” (o que antecede ao jogo, à representação). Iludir é brincar com o outro, dar-lhe esperanças vãs (pleonasmo: toda esperança é vã). A verdade – ensina Marisa Monte – é uma ilusão.

~

“Paixão” não é amor: é o ato de suportar, de sofrer (daí a Paixão de Cristo). Estar apaixonado é estar doente, em sofrimento. Da mesma origem (“passio”), vem passional – fora de controle, inconsequente. A paixão não é puro afã (novamente, Djavan): é fanatismo.

~

Por fim, “fidelidade” não tem a ver com monogamia ou dieta sexual restrita. Vem de “fides”, que significa “fé”. Ser fiel é acreditar – supor, aceitar como real.

Mais um bom motivo pra ser ateu.

Mormente

Sempre quis escrever um texto em que usasse palavras como
entrementes
outrossim
sobremaneira.

Nunca tive esse condão.

Sempre me faltou, sei lá, elã.

Elã é outra que jamais tive como usar.

Tampouco consegui usar
somenos
soez
desídia
menoscabo.

E olha que menoscabo sempre foi das minhas favoritas.

Se eu fosse, quiçá, juiz do Supremo, empregaria todas amiúde num único axioma, e com muita picardia.

Inclusive quiçá e amiúde, que são assaz pulcras e garbosas.

Pulcra também não rolou.

Nem assaz. Muito menos garbosa.

Queria escrever, aqui ou algures, que fiquei amofinado depois de uma carraspana, e destarte me retirarei para os meus aposentos, à sorrelfa.

Mas hei de fenecer sem que meus textos tenham tido esse apanágio.

De que servem essas palavras intáteis, alcantiladas, senão para nos obsedar, nos fazer anelar em vão?

Em vão, não.
Debalde.

Sempre quis usar debalde num texto.

Um dia consigo.