Veritas liberate vos

Veritas

“O problema das citações na internet é que é difícil verificar sua autenticidade” (William Shakespeare).

Não é preciso ter lido tudo do Fernando Pessoa para saber que ele nunca escreveu

“Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. (…) Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos, nem chatos.”

Tampouco cometeu

“Deus costuma usar a solidão
para nos ensinar sobre a convivência.
Às vezes, usa a raiva, para que possamos compreender
o infinito valor da paz.”

Pessoa jamais escreveria uma paulocoelhice dessas.

Aliás, o texto é mesmo do Paulo Coelho.

Pessoa escreveu, sim,

“Ninguém sabe que coisa quer. Ninguém conhece que alma tem”.

Quem já leu o Jabor sabe que ele tem inteligência suficiente para não perpetrar algo como

“Tenho horror a mulher perfeitinha. Odeio qualquer uma que fique maravilhosa num biquíni. Sabe aquele tipo que faz escova toda manhã, está sempre na moda e é tão sorridente que parece garota propaganda de processo de clareamento dentário? E, só pra piorar, tem a bunda dura feito pão francês com mais de uma semana? Pois então, mulheres assim são um porre. E digo mais: são broxantes.”

Jabor escreveu, sim, que

“amor é prosa, sexo é poesia”.

Niemeyer nunca escreveu

“Projetar Brasília para os políticos que vocês colocaram lá, foi como criar um lindo vaso de flores para vocês usarem como pinico. Hoje eu vejo, tristemente, que Brasília nunca deveria ter sido projetada em forma de avião e sim de camburão…”.

Você consegue mesmo imaginar o elegante Oscar falando em “lindo vaso de flores” e escrevendo “pinico”?

Niemeyer escreveu, sim,

“Não é o ângulo reto que me atrai. Nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual. A curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas nuvens do céu, no corpo da mulher amada. De curvas é feito todo o universo. O universo curvo de Einstein.”

Desconfie de todos os poemas da Clarice Lispector, pelo simples fato de que ela nunca escreveu poema algum. E desconfie, também, de todas as frases fáceis atribuídas à Clarice Lispector.

Não, Clarice nunca escreveu

“Abra e feche as gavetas
e portas com a mão esquerda.
Durma no outro lado da cama.
Viva outros romances!”.

Clarice escreveu, sim,

“Não se preocupe em entender. Viver ultrapassa qualquer entendimento.”

Sentiu a diferença?

Não, o Veríssimo jamais escreveu

“Fazer amor é lindo, é sublime, é encantador, é esplêndido, mas dar é bom pra cacete.”

O Veríssimo também não escreveu sobre o dia em que sua mulher filmou seu exame de próstata.

Para quem não conhece, o Veríssimo é mestre do humor e da sutileza.

Não, o Drummond nunca escreveu

“A dor é definitiva
O sofrimento é opcional”.

Drummond, nem em sonho, escreveu poesia de autoajuda.

Escreveu, sim,

“A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos”.

Herbert Vianna nunca escreveu

“Gordura é pecado mortal. Ruga é contravenção. Roubar pode, envelhecer, não. Estria é caso de polícia. Celulite é falta de educação. Filho da puta bem sucedido é exemplo de sucesso. A máxima moderna é uma só: pagando bem, que mal tem?”.

Herbert Vianna escreveu que

“se tudo tem que terminar assim
que pelo menos seja até o fim
pra gente não ter nunca mais que terminar”.

Como é que sei tudo isso?
Não sei.

É como uma voz de criança ao telefone dizer que quem está falando é síndico. Como ouvir um miado e ter certeza que não é de um cachorro. Ou intuir que o funk das popozudas (que não sei de quem é) não seja do Beethoven.

Para isso, não é preciso conhecer toda a obra de Beethoven, já ter falado com o síndico ou ser especialista em funk ou vozes animais.

Ao contrário do Shakespeare, não creio que o problema das citações na internet seja verificar a sua autenticidade – até porque esta frase (ainda mais por estar em português) tem tudo para ser do Camões, não dele.

O problema é que é mais fácil enganar as pessoas do que convencê-las de que elas foram enganadas.

(Esta é do Mark Twain. E o título deste texto – “A verdade vos libertará”, em latim – é de João 8:32. Se virem isso atribuído a Jojo Toddynho ou Marcia Tiburi, desconfiem).

 

(publicado originalmente em 2 de abril de 2019)

Trans

trans

Foi concebido como Conto, mas não se sentia pertencente a esse gênero.

Tinha a percepção de que os personagens que trazia dentro de si não estavam unidos por uma narrativa com início, meio e fim. Sentia-se na obrigação de ser prosa mas ansiava por poder ter, sei lá, umas ousadias poéticas.

Gostava de pensar em si mesmo como Crônica, uma reflexão sobre o cotidiano, um olhar subjetivo acerca dos acontecimentos. Mais intimista, mais coloquial, sabe? como se conversasse com o leitor. E, independentemente do que tivesse a dizer, gostava mesmo de falar é do tempo – não o da meteorologia ou o do relógio, mas o da alma. Tratava do momento, daquele instante banal que de banal nunca tem nada.

Buscava na poesia uma definição para si: queria atingir as grandezas do ínfimo. Não necessariamente ter que contar uma história, mas divagar. Usar uma lente macro, não uma grande angular. O microscópio, em vez da fita métrica.

E queria, mais que tudo, poder ser irônico, sem que olhassem para ele com ar de desaprovação ou de “sei não”.

Resolveu procurar ajuda.

Nos classificados, encontrou um anúncio de alguém que dizia resolver todos os problemas de gênero. Tentou agendar o horário, mas o atendimento era por ordem alfabética.

Foi atendido ali pelas 10 horas, logo depois do Auto e da Comédia. Mas sua primeira sensação foi de frustração.

– Seu gênero é o… deixe-me ver… masculino. Pronto. São R$ 250,00. Pode acertar com a minha secretária, na saída.

– Mas dr. Dicionário, minha questão de gênero não era bem essa.

– Filho – e neste ponto o Dicionário olhou-o por cima dos óculos, com os olhinhos miúdos imprensados entre o aro grosso de tartaruga e as espessas sobrancelhas – eu sou especialista em gênero, número, categoria gramatical, com mestrado em sinônimos e antônimos, doutorado em campo semântico, e pós doc em etimologia, feito em Harvard, além de ser, eventualmente, bilíngue. Como ousa questionar que sua questão de gênero não seja esta? Não vá me dizer que…

– Sim. Eu sou posso ter nascido um Conto, mas, no íntimo, me sinto uma Crônica.

– Um transgênero literário – murmurou, desconsolado, o velho glossário.

– Sou um Conto infeliz, amarrado às convenções sociais de ter um enredo único, uma construção psicológica de personagens, um final súbito. Queria ser Crônica, leve, fluida, apenas um recorte sutil do cotidiano…

– Já tive um caso assim. Há muitos anos. Um Romance enorme, enfadonho, um catatau deveras indigesto. Sua vocação era ser Novela. Mas seu pai, o Autor, sonhava ter um filho Romance, e o encheu de parágrafos obsoletos, digressões supérfluas. Um saco.

– E…

– Encaminhei-o a um Editor, que lhe fez uma bariátrica nos capítulos desnecessários e depois cortou os excessos estilísticos. Só de adjetivos inúteis deu para tirar quatro resmas. Converse com ele. Quer dizer, com ela.

– E onde posso encontrá-la?

– Você passou por ela na minha sala de espera. É a minha secretária, aquela jovem esbelta, de cintura de pilão, seios arfantes e pernas bem torneadas. Quem a vê jamais dirá que que um dia foi um Romance adiposo, lento e verborrágico. Ela poderá lhe indicar um Editor de confiança.

– Obrigado, dr. Léxico.

– Sem formalidades. Pode me chamar de Pai dos Burros.

Despediram-se com um amplexo e tão logo o Conto retornou à antessala e pôs os olhos na Novela, sentiu que, quem sabe com mais algumas páginas, um aprofundamento, podia se tornar uma… Não, não. Novelas usam decotes voluptuosos, e ele preferia ser uma Crônica que bota uma camiseta e sai por aí sem sutiã. Novelas usam saltos altos, e ele preferia caminhar descaço pela areia do Tempo (não, “pela areia do Tempo” é muito lugar comum, e crônicas devem fugir desses clichês).

A Novela passou-lhe, discretamente, o cartãozinho de um Editor lacaniano, muito hábil na interpretação – e no corte – das palavras, e desejou-lhe, romanticamente, sutileza e frescor na nova vida.

O Conto agradeceu, enrubescido (Contos enrubescem; em breve, ele seria uma Crônica, e Crônicas apenas sorriem sarcasticamente, revelando a covinha no rosto).

A Novela abriu a agenda, suspirou, e mandou entrar o próximo cliente. Eram duas Quadrinhas e dois Haicais que tinham se conhecido num aplicativo de relacionamentos e cismaram que, juntos, dariam um Soneto.

“Nem tudo neste mundo tem jeito”, pensou, fazendo uma rima péssima – enquanto imaginava que talvez, sem o implante de silicone nem os hormônios, com um pouco de malhação para queimar advérbios localizados, uma barba de 2 dias e nenhuma maquiagem, até que ela mesma daria um Conto muito bem apessoado.