O peixinho que não sabia nadar

fish

Vinte e tantos anos atrás, quando começaram a me nascer sobrinhos por todos os lados, resolvi que ia escrever livros infantis para eles.

É que sempre achei livros infantis um tanto… infantis demais.
Já achava isso quando era criança.
Não me identificava com aquela prosa tatibitate, com as ilustrações toscas, que me tratavam como se eu fosse uma… criança.

Queria que meus sobrinhos tivessem algo além do que eu tive.
Não tiveram, porque dei com os burros n’água: literatura infantil não é pra principiante.

Agora que os sobrinhos já estão me arrumando sobrinhos-netos, volta a vontade de escrever para eles, e retomar o projeto.

Quem sabe não aparece um ilustrador, não me vêm novas ideias, e a coisa, finalmente, deslancha?

Fui atrás do que escrevi lá no início dos anos 90- e talvez algo ainda se aproveite. Como, por exemplo…

O PEIXINHO QUE NÃO SABIA NADAR

Era uma vez um peixinho
que não sabia nadar

Vivia junto da praia
e tinha medo do mar.

Usava boia, o peixinho,
para poder flutuar

Comprou até pé-de-pato
mas não tinha como usar.

Seus colegas de cardume
iam pra lá e pra cá

Entretanto, o tal peixinho
não saía do lugar.

Tinha medo de baleia
e até de estrela do mar

Só de pensar em mergulho
sentia falta de ar.

E então a maré subiu
a ponto de transbordar

E lá se foi o peixinho
numa onda, para o mar.

As barbatanas tremiam
como se fossem voar

De susto, bateu o rabinho
e deslizou devagar.

Viu os cascos de navios
tesouros do fundo do mar

Sereias, conchas, golfinhos
– e nadava sem parar.

Fez logo um monte de amigos
além de se apaixonar

E com um cavalo marinho
saía pra cavalgar.

Nunca mais ficou sozinho.

Nem parecia o peixinho
que um dia, pequenininho,
tivera medo do mar.

 

(publicado originalmente em 28 de julho de 2016)

Anúncios

Gestalt

Gestalt

Era um curso de férias sobre Gestalt na UFRJ.

Depois de cada “vivência”, vinha a parte teórica (a sensação devia preceder o entendimento).

Um dos jogos consistia em relaxar, buscar as memórias mais antigas e escavá-las um pouco mais, numa espécie de arqueologia de si mesmo. Descalço, olhos fechados, deitado no chão, cada um ia rebobinando a própria fita (era um tempo em que se rebobinavam fitas) e resgatando cheiros, cenas, nomes.

Ao abrir os olhos, havia em volta dezenas de lápis de todas as cores, e folhas em branco. Era a hora de pegar qualquer lápis (que, obviamente, não era “qualquer” lápis) e desenhar qualquer coisa (que – logo se saberia – estaria longe de ser “qualquer coisa”).

Concluída a tarefa (melhor: esgotado o tempo para executá-la), sentavam-se todos formando um grande círculo e, um a um, os desenhos eram levados ao centro desse círculo. O autor devia então falar do desenho na primeira pessoa – não “isso é uma árvore”, mas “eu sou uma árvore”. E fazer o mesmo com relação às cores: “eu sou esse verde”, “eu sou esse azul”.

Eu era um peixe azul e verde. Um peixe dentro e fora da água. Um homem-peixe, me afogando onde os peixes respiram. Um peixe-homem, respirando onde os homens se afogam. Minha memória mais antiga era uma crise de asma, um estar afogado simultaneamente na falta e no excesso de ar.

Disputei silenciosamente com uma garota magrinha, quase transparente, a primazia de ser o último ir até o centro e falar. Perdi.

Ela fora a única a pegar um lápis branco, aquele que é sempre o último sobrevivente da caixa, o que permanece intocado quando os demais já se esbaldaram no apontador.

Seu outro lápis era vermelho – a cor que ela mais detestava. Não tinha sido exatamente uma escolha: foi o que sobrou, junto com os inúteis lápis brancos, dada a sua demora em retornar da expedição ao passado.

Seu desenho tinha sido feito em vermelho e recoberto de branco, até se tornar rosa pálido.

“Eu sou cor-de-rosa”, ela disse. “Eu não sou”.

Enquanto eu me debatia (homem submerso, peixe fora d’água) por ser ao mesmo tempo azul e verde, ela, sendo vermelho e branco, chegara a um meio termo, a uma solução de compromisso, e não era nem uma coisa nem outra. Seu cor-de-rosa não era uma decisão, mas uma diluição. Um ponto em que as forças se anulavam.

“Eu sou morna”.

Possivelmente a Gestalt não tenha hoje o mesmo apelo que tinha naquele final dos anos 70, início dos 80, nem garotos com asma e garotas diáfanas façam mais “vivências”, descalços e despidos de suas “couraças”, nos salões da velha Universidade do Brasil. Mas foi entre lápis verdes, azuis, vermelhos e brancos que a ânsia de ser tudo ao mesmo tempo e a tentação do neutro, do inerte, se defrontaram claramente pela primeira vez.

A garota cor-de-rosa não sabe o quanto este anfíbio lhe é grato.

 

(originalmente publicado em 27 de abril de 2018)