Entre aspas

aspas

– Laércio, não leve a mal, mas você anda tendo uns comportamentos meio “estranhos” ultimamente.
– Como assim?
– Isso que você fez agora, por exemplo.
– Isso o quê?
– Fez de novo. Esses gestos.
– Ah, eram interrogações.
– Não precisa disso. Pelo tom dá pra saber que é uma pergunta.
– Se você faz aspas com os dedos, que também não precisa, eu posso fazer com outros sinais, ora!
– Suponho que esse traço vertical como quem passa o dedo por uma lista e depois aperta um botão imaginário seja uma exclamação.
– Exato. Nem sempre a exclamação fica clara, e vai que…
– E agora esses três pontinhos…
– Reticências. Às vezes eu fico reticente e não quero que pensem que fui inconclusivo.
– E esse dedo apontando a 45 graus?
– Crase. Me soa mal espichar o aaaaa, então…
– Já sei, já sei. Essa “cobrinha” que você fez deve ter sido o til.
– Isso. Você fez aspas com os dedos de novo, reparou?
– Laércio, todo mundo faz aspas com os dedos. Ninguém faz interrogação, exclamação, reticências ou… o que é isso que você está fazendo agora?
– Vírgulas. Coloco nas minhas frases e nas dos outros. Ponto e vírgula é mais complicado; ultimamente, coloco só nas minhas, porque quase ninguém usa ponto e vírgula, ainda mais quando fala.
– As pessoas estão ficando com medo de você, Laércio.
– Vocês começaram com essa história das aspas. Agora aguentem.
– Isso que você fez foi um circunflexo e depois um trema?
– Foi.
– Trema não existe mais, Laércio. E você fez uma vírgula que eu não disse.
– Era cedilha. Com a mão direita eu faço pontuação (exclamação, interrogação, vírgula, ponto final, dois pontos) e com a esquerda, sinais diacríticos (acento agudo, acento grave, til, cedilha, caron, braquia). Tem que prestar atenção.
– O que foi isso agora, com as duas mãos?
– Parêntesis. Ainda estou treinando as chaves e os colchetes.
– Desisto, Laércio. E pelamordideus para com esse dedinho mexendo igual a um ponteiro que isso está me tirando do sério!
– É o travessão. E quem desiste sou eu, porque sem bons modos e sem travessão, não pode haver diálogo.

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Manhole

manhole

O que mais gosto no politicamente correto é o labirinto no qual ele mesmo se perde.

Devemos deixar de usar a palavra “homossexualismo”, que teria conotação de doença (reumatismo, raquitismo, sonambulismo) e passar a utilizar a neutra “homossexualidade” (como em privacidade, capacidade, honestidade).

“Homossexualite” talvez fosse injustificável, já que o sufixo “ite” indica doença, inflamação (bursite, labirintite, faringite, conjuntivite). Ou “homossexualose” (“ose” é sufixo indicador de doença não inflamatória: neurose, cirrose, mononucleose, lordose, tuberculose). Ou homossexopatia (“patia” se refere a processo mórbido: cardiopatia, encefalopatia, psicopatia ou até mesmo antipatia).

Ocorre que “ismo” não indica apenas condição patológica. Ou será que são doenças o feminismo, o lirismo, o iluminismo, o romantismo? E qual a parte boa e neutra da crueldade, da infidelidade, da infelicidade e de todas as calamidades?

Mudemos, então, o feminismo para feminidade – e o machismo para machite, machose ou machopatia (dependendo de considerar se a coisa é inflamatória, não inflamatória ou apenas doentia).

Palavras derivadas de “pênis” deveriam ser evitadas. Nada de ir de penetra numa festa, ou “penetrar surdamente no reino das palavras” (como sugeriu o Drummond), ou mesmo passear na península ibérica (ainda que “península”, por mais que seja um trecho de terra penetrando o mar não tenha nada a ver com pênis, mas com “pæne” (quase) e “insula” (“ilha”). Mas as feministas que querem abolir a palavra “península” não sabem disso.

“Vagina” seria outro termo a substituir. Sua origem é a mesma de bainha (não a da calça ou da saia, mas o recipiente onde se guardava a espada). Existiria não por si mesma, mas como receptora do órgão masculino. O politicamente correto é “vulva” (ainda que vulva e vagina sejam coisas distintas: a vagina é o tubo que liga a vulva ao cérvice e ao útero). Mal sabem que “vulva” vem de “volva” (aquele ou aquilo que envolve). Trocaram seis por meia dúzia.

Deveriam ser abolidas todas palavras carregadas de machismo estrutural. Alguns grupos feministas (ops, grupos femininadistas) já chamam seus encontros de “ovulários”, porque “seminário” deriva de sêmen (palavra seminalmente machista).

Mas “sêmen” vem do latim “semen”, que significava semente, o grão que se semeava; “óvulo” vem do mesmo idioma: “ovulum”, diminutivo de “ovum”, que significa “ovo”. O seminário é onde se semeiam ideias; um ovulário me soa ao lugar onde nascem ideias de chocadeira.

Já nos livramos (ainda bem) de expressões como “belo sexo” ou “sexo frágil”. Já ninguém se sente nas nuvens ao ser chamada de “rainha do lar” e ganhar um liquidificador ou um jogo de panelas no aniversário. Mas “abrir as pernas” ainda é sinônimo de se submeter, de não ter o controle de uma situação.

Falta muito para caírem em desuso as expressões sexistas (homem não chora, coisa de mulherzinha, falar grosso, mulher direita, seja homem, bom pra caralho). Essas, sim, são expressões que ajudam a perpetuar estereótipos.

Mas até que temos sorte, porque nos Estados Unidos se discute se não seria machismo haver a palavra “man” dentro da palavra “woman”; se “mankind” (humanidade) não deveria ser trocada para “peoplekind” (para não ser exclusividade dos “man”) e se quando uma mulher for gerente deva ser chamada de “womanager“ em vez de “manager”. Que mania (ou womania…) de ver machismo em tudo!

Em Berkeley (ver linque abaixo), tiraram o “man” de “craftsmen” (artesãos), para virar “craftspeople”. E “repairmen” (reparadores) virou “repairers”. Mas será que não teriam que tirar a palavra “pair” (par) para deixar de conter discriminação contra os solteiros?

A essa brava gente que, armada de sufixos e falsos cognatos, luta para criar um mundo mais justo, fica aqui minha sincera homenagem (e mulheragem).


Cidade dos EUA vai mudar palavras para que fiquem com neutralidade de gênero

Mulher, substantivo plural

marido

Não quero ser chato, mas o feminino de “marido” é “mulher”, não “esposa”.

Por isso o padre vos declara “marido e mulher”, não “marido e esposa”.

“Marido” vem do latim “maritus”, que significa “homem casado”. “Mulher” vem do latim “mulier”, que significa um monte de coisas: pessoa do sexo feminino, pessoa adulta do sexo feminino, pessoa casada do sexo feminino ou amante do sexo feminino. Marido só serve para uma coisa; mulher é polivalente.

Já “esposo” e “esposa” vêm de “sponsus” e “sponsa”, homem e mulher prometidos em casamento. Ou seja, noivos.

Com o tempo, “esposo e esposa” tornaram-se sinônimos de “marido e mulher” (como se fossem eternamente namorados, olha que romântico), permitindo que quem ache vulgar a palavra “mulher” a substitua por “esposa”.

Mas misturar os dois (marido e esposa) me soa a troca de casais. Nada contra. Só que quem chama, por pudor, a própria mulher de “minha esposa” deve ser a última pessoa na Terra a topar um suingue.

Porque mulher é mulher, esposa é esposa.

Pense num mulherão.
Agora pense num esposão.
Sentiu a diferença?

Quando um homem diz “esta é minha mulher”, está claro que eles transam. Não dá pra saber com que frequência ou em que posições, mas rola. Agora, quando ele diz “esta é minha esposa”, pode ter certeza que, no máximo, têm relações. De meia, com a luz apagada e sem fazer barulho para não acordar o Jonathan Gabriel e a Stefhany Karolyne no quarto ao lado.

Marido que tem problema em falar “minha mulher” certamente tem problema. Pode ser medo de que ela o chame de “meu homem”. E mulher quando chama o marido de “meu homem” é porque o couro come.

Mas “homem” não tem necessariamente a ver com “macho” (do latim “mascŭlus”, ser do sexo masculino). Vem de “homo”, “hominem”, “humus” (o solo, o que vem da terra), em oposição aos deuses, que vêm do céu. Por isso, somos todos – homens e mulheres – humanos: feitos do barro. Para o macho, o homão, havia a palavra “vir” (de onde vem virilidade).

Em latim, havia outro nome para a mulher: “domina” (proprietária, mulher, senhora, esposa), que em português virou “dona”, com os mesmos significados.

No interior, ainda é comum ouvir “Essa é a minha dona” – e é melhor não procurar saber a qual dos sentidos da palavra o marido dessa dona está se referindo. Mas com certeza ela tem uma pegada boa.

Há ainda quatro alternativas para o marido que fica sem jeito de chamar a mulher de mulher.

A primeira é chamar de “minha senhora” (do latim “senior”, mais velho, mais antigo). Se chamou de “minha senhora”, pode esquecer, Inês é morta. Aquilo é bananeira que deu cacho, a jiripoca já não pia, daquele mato não sai coelho. “Esta é minha senhora” é praticamente um atestado de óbito sexual.

A segunda, usar “cônjuge” (ou, mais modernamente, conje), que vem de “conjugare” (com = junto + jugum = jugo, canga). Ou seja, a quem você está unido e subjugado, tipo junta de bois na mesma canga, juntos e xelounáu. Além de ser muito sexy, traz um plus adicional a mais: o substantivo é sobrecomum masculino. Ou seja, não tem o conje a a conja. Tem que respirar fundo, dizer “esta é o meu cônjuge” (no masculino mesmo) e encarar as os olhares enviesados e as consequências.

A terceira alternativa é “esta é a minha consorte”. Não tenha dúvidas de que vá aparecer na hora um tiozão para fazer trocadilho (“Com sorte ou com azar? Rá rá rá!”). E não estará muito errado: “consorte” vem de “consors“ (companheiro, sócio, camarada, parente próximo; aquele que tem a mesma sorte, o mesmo destino; e de onde vem também a palavra “consórcio”). Só deve ser usado no caso de você pertencer a alguma família real – e aí a criatura que casar com você é sortuda mesmo.

Finalmente, a opção derradeira é chamar de patroa (do latim “patrona”: protetora, defensora). Quer um conselho? Não chame. Fique calado, chame de varoa, mas não chame de patroa. Chame de colega, de amiga, de “essa aí”, de “dona encrenca”, mas não chame de “patroa”.

Por mais que ela fume, insista na calcinha bege (que é um equivalente feminino à cueca laranja em termos de aniquilação de libido), adore uma DR, tenha aquele humor de quem vive em dieta, seja controladora, grudenta, faça chantagem emocional e tsunami em pires d’água, tenha ciúme da sua vida sexual pregressa, te compare com o ex e use franja, mulher, esposa, consorte, senhora, dona ou conje nenhuma merece ser chamada de “patroa”.

Por isso é muito mais fácil ter apenas a amante (do latim “amans”, aquela que ama). Não só é mais bonito, como dificilmente vão rolar apresentações nesses termos.