Féchion quae sera tamen

Eu sabia que um dia estaria na moda. Nem que demorasse meio século, mas estaria.

É que minha mãe era costureira e avessa a desperdício. Costurava no capricho, mas aproveitando cada centímetro quadrado de tecido.  Seus bolsos eram invisíveis – melhor dizendo, camuflados, seguindo o mesmo alinhamento da estampa do resto da camisa.  E olha que os anos 60 e 70 foram pródigos em estamparias lisérgicas. Pois minha mãe ia lá e fazia os bolsos, as palas, os punhos em perfeita sincronia com o resto.

Claro que sobrava pano. Se fosse pouquíssimo, servia para forrar botões (tínhamos uma máquina de forrar botão que também servia para esmagar dedo de irmão mais novo). Se fosse pouco pano, virava colcha de retalho. Uma sobra maior virava camisa pros filhos, vestido pra filha.

Nem sempre o que sobrava era suficiente para uma camisa inteira. Mas – e aí é que entra o primeiro parágrafo – nada que não pudesse ser resolvido com duas ou três sobras diferentes.

Felizmente minha mãe tinha bom gosto, e me fazia camisas com as costas lisas e a frente estampada. Toda lisa, com bolsos, mangas e colarinho em composê. Inventava modelos, cortes, recortes e firulas que, quem visse, jamais diria (pelo menos não na frente dela) que aquilo era a própria sustentabilidade aplicada à costura, muito antes de a sustentabilidade vir ao mundo.

A partir de certa idade passei a ter vergonha das minhas camisas-colagens. Queria camisas sem liberdades poéticas, camisas puro sangue, monocromáticas, homogêneas. Não adiantava virem me dizer que a gola combinava com o bolso: eu queria tudo chapado, azul de fio a pavio, verde de cabo a rabo, sem o risco de, na missa, minha manga reconhecer sua família biológica no vestido da senhora do banco à frente.

Nas fotos da minha infância, vejo hoje uma pobreza que então eu não percebia: uma parede descascada, uma cerca de bambu meio descaída, um móvel velho, uma telha vã. Não éramos pobres – ou melhor, até éramos, mas não a ponto de não poder comprar um corte de fazenda. Mas por que desperdiçar retalhos?

Quando nasci, meu pai não trabalhava:  era estudante secundarista. Meu avô bancava filho, nora e neto. Melhor dizer netos, no plural, porque logo em seguida veio o segundo, quando meu pai ainda não trabalhava: estudava para o vestibular. E veio o terceiro– uma menina – e meu pai continuava não trabalhando: era universitário. Veio o quarto, com meu pai finalmente indo botar a mão na massa, ao se formar em Direito. Durante todo esse tempo, meu avô proveu casa e comida. Mas minha mãe pagava, com a costura, todas as outras contas. Não eram tempos de se jogar nada fora.

(Parênteses para uma madeleine: nossa melhor comida de domingo era uma travessa de macarronada decorada com ovos em rodelas e sardinhas. Minha mãe distribuía simetricamente as rodelas maiores e menores, e mesmo as das pontas, só claras, entremeando-as com metades de sardinha. Mas estas não iam diretamente da lata para a mesa: minha mãe as descamava com o dorso da faca, abria, retirava as vísceras, a espinha, a barbatana, e a sardinha seguia limpinha e faceira para a mesa.  Meu avô resmungava: “Pobre e limpando sardinha!” e eu não entendia. Hoje entendo: éramos pobres, e nem por isso deixávamos de ter o refinamento possível do bolso na diagonal, caso não houvesse tecido para o bolso alinhado; não íamos além do macarrão aos domingos, mas nem por isso comeríamos escamas e vértebras de sardinhas. Fecham-se os parênteses).

Enquanto minha irmã crescia, seu vestido ganhava novas barras, quem sabe um babado, um artifício qualquer que o fizesse crescer junto.  Nossas calças, quando passamos a ter calças compridas, ganhavam novas bainhas.  O irmão nascido logo depois de mim herdou todas as minhas roupas – usava não só retalhos, mas retalhos de segunda mão.

Hoje vi o anúncio com essas camisas meio mussarela meio calabresa. Minha mãe jamais faria isso, porque tudo tem limite. Mas era mais ou menos isso o que ela fazia: inventava moda. Uma moda que levaria décadas para ser reconhecida: a do listrado combinando com bolinha, do xadrez dialogando com o grafismo, do floral de florzona harmonizando com o floral de florzinha.

Deu vergonha de ter tido vergonha das minhas camisas Frankenstein. Se eu as tivesse guardado – e não tivesse crescido nem engordado nos últimos 50 anos – estaria na última moda.

Inventando moda

Não entendo nada de moda. Até certa idade usei a roupa que minha mãe comprava e a usava até até minha mãe não aguentar mais me ver usando aquilo e jogar fora.

Depois que minha mãe parou de comprar e de jogar fora minhas roupas, minha grife preferida sempre foi a Promoção (às vezes, pra ostentar, compro na Sale) e uso até acabar. Depois que acabam, uso para dormir (se forem camisetas) ou para ficar em casa, ir para o sítio. Está pra ser inventada roupa mais gostosa que aquela que já deu o que tinha que dar.

Como o Drummond, faz tempo que deixei de ser moderno para tentar ser eterno. Ou, pelo menos, atemporal. Por isso, tirando umas calças de nesga nos anos 70, não tenho muito do que me envergonhar do meu figurino nas fotografias.

Ok, tive uma camisa de anarruga. Se você não sabe o que é anarruga, sorte sua. Se sabe, não é preciso dizer o que uma camisa de anarruga representa no currículo de uma pessoa.

Tive também sapato cavalo de aço, bicolor. E camisa estampada, com colarinho em bico vindo até quase o bico do peito. Tive macacão Staroup. Tive calça Fiorucci paraguaia, com aquele corte perfeito – a gente só sabe que lado é pra frente porque tem um fecheclér e o de trás porque tem o bolso, mas não faz a menor diferença.

Mas tirando isso e um jaquetão de 3 botões com ombreira que usei muito nos anos 90, em Curitiba, não há nada que deslustre minha biografia.
Sim, claro, teve a fase da pochete e da meia branca com sapato preto, também em Curitiba, também nos anos 90 (tive o azar de morar em Curitiba em plenos anos 90, quando além do jaquetão de ombreira e das meias coloridas – daquelas de causar inveja ao Justin Trudeau – eu ainda por cima usava gel).

Mas descontando isso e o cinto de lona com fivela militar e a ponta caída para a frente, não há nada do que me penitenciar. A não ser, talvez, a gravata com estampa do coelhinho Pernalonga – que não uso há décadas, mas deve estar em alguma gaveta.

Esse mea culpa todo – que não inclui a calça branca com All Star vermelho que eu usava muito quando trabalhava no Banco do Brasil, e uma camisa abóbora que caí na asneira de usar, inconscientemente, num evento ligado ao Partido Novo – bem, tudo isso é para falar que não ligo para moda. Até parei de combinar calça cáqui com camisa azul quando descobri que era coisa de paulista, e uma única vez usei terno com tênis (quando? anos 90; em Curitiba, onde mais?).

Em estatística, moda é o valor mais frequente num conjunto de dados (sei disso porque já fui professor de estatística). Na rua, moda não é necessariamente o mais frequente, mas o que chama mais a atenção.

Quando é só um maluco que usa, é extravagância; quando vários malucos usam, é moda.

Foi assim com a blusa transparente e o sutiã aparecendo. Foi assim com a calça no meio da bunda, e a cueca de fora (ou a calça no meio da cueca e a bunda de fora). Foi assim com o meião branco por cima do colã nas academias de ginástica.

A última moda é a máscara no queixo. Voltei agora da padaria e, no caminho, passei por umas dez pessoas usando máscara assim, cobrindo o gogó, escondendo a papada. Deve ser uma releitura do boné com a aba para trás.

Pra essa gente, talvez a moda da máscara no queixo seja a última mesmo.

O sol nasceu pra todos

perineo 2

Eu podia estar escrevendo sobre rânquim do Pisa, que colocou o Brasil abaixo da Moldávia, da Jordânia, da Romênia e da Bielorrússia – mas, ainda assim, acima do Cazaquistão, da Albânia e – certamente – do Haiti, do Sudão do Sul e da Guiné Equatorial.

Podia falar que só resta ao Cruzeiro, depois da derrota para o Vasco (e para o CSA!), cortar três zeros e mudar o nome para Cruzado.

Podia conjecturar sobre que cargo irão ocupar no governo a Inês Brasil, o Inri Cristo, o ET Bilu e o Menino do Acre.

Mas o assunto que não quer calar é o bronzeamento do períneo.

Se o sol nasceu para todos, por que não para o períneo?

O períneo é uma daquelas regiões que pareciam fadadas a viver nas sombras. Uma espécie de eminência parda da anatomia. Um Uruguai, com inúmeros atrativos, mas espremido entre dois vizinhos muito mais poderosos.

A etimologia dá uma pista: o prefixo de περίνεος (períneos, para quem, como eu, não entende lhufas de grego), é o mesmo de periferia, peripécia, período, perímetro, periscópio. “Peri” = O que está à volta, ao redor, em torno de.

O períneo nasceu para vice. Para papagaio de pirata. Nem chega a coadjuvante: é só figuração.

Sabe aquela moça que passa lá atrás, em segundo plano, de sombrinha, nas novelas de época? Pois é, ela é o períneo da cena. Sem ela, a coisa ficaria meio falsa. Não é preciso haver uma rua de verdade, com gente de verdade passando, cada um protagonista da sua própria existência. Daria muito trabalho. Basta, para conferir certa credibilidade, uma moça anônima andando sem rumo, de sombrinha, indo do nada a lugar nenhum para fazer coisa nenhuma. A diferença é que, no corpo humano, essa moça de sombrinha tem nome: chama-se períneo.

E por que tomar sol no períneo?

Porque já esgotamos todas as outras possibilidades. Já inventamos o creme para cotovelo. A barba desenhada. A cirurgia para fazer covinha no rosto. A prótese de silicone para panturrilha. A depilação em forma de bigodinho nazista. O papel higiênico com sabor pêssego. E o períneo lá, feito um dois de paus, fazendo cara de paisagem.

Já houve uma peça chamada “Monólogos da vagina” e uma entrevista da Marcia Tiburi sobre o cu ser laico. E o períneo ali, calado, esperando a deixa que não vinha. Na boca do gol esperando o passe. Quase um Príncipe Charles, há 70 anos com o pé na embreagem esperando o sinal abrir para engatar a primeira. E nada.

Imagino que tenha havido uma reunião de pauta numa dessas empresas que detectam tendências e turbinam a internet, e depois de um chequiliste completo viram que não faltava problematizar mais nada no corpo humano.

– Baço já foi tendência?
– Já. No outono de 1987.
– O mesentério?
– Verão de 1941.
– As amídalas?
– Da década de 70, quando ainda nem se chamavam tonsilas.
– As trompas de falópio?
– Essas passaram por um branding e agora são tubas uterinas.
– Então acabou. Até o complexo de golgi já foi pauta. Vamos ter que dispensar todo mundo e mudar de ramo.
– Não péra! Como é que chama aquela parte ali entre o… o… e a… a..
– Onde, Aparecida?
– Lá.
– Desembucha, Aparecida.
– Lá, gente. Naquele São Conrado genital, entre o Leblon e a Barra…
– Aquilo tem nome?
– Acho que tem. É alguma coisa tipo pericarpo, peritônio, periodontista, perinatal…
– Períneo!
– Isso! Vamos jogar alguma luz ali?

E foi assim.

~

Disclêimer:
1. Esta é uma obra de ficção;
2. Contém ironia;
3. Não há qualquer intenção de ofender os súditos de Sua Majestade ou, mais especificamente, seu herdeiro ao trono;
4. Jamais me ocorreu magoar nenhum país vizinho com referências depreciativas à sua localização geográfica;
5. Os estudantes cazaques, albaneses, haitianos, sudaneses do sul ou guineenses equatoriais merecem todo o nosso respeito;
6. Esperamos que nenhum torcedor do valoroso CSA se sinta ultrajado;
7. O Cruzado foi uma moeda legítima como qualquer outra, em nada inferior ao Cruzeiro ou ao Conto de Réis (que será o nome do time quando cairmos para a terceira divisão);
8. Inês Brasil é uma artista talentosa, não compactuamos com nenhum tipo de intolerância religiosa ao inricristianismo, extraterrestrial lives matter, e eu tenho o maior xodó pelo Acre;
9. A categoria profissional dos figurantes tem papel fundamental na dramaturgia, e jamais poderá ser considerada mera coadjuvante;
10. Desenhar a barba é uma opção estética lícita e a diagramação do púbis é uma decisão de foro íntimo;
11. Papagaios são animais silvestres e não devem ser retirados no seu habitat para viver em gaiolas ou no ombro de bucaneiros;
12. Empresas de trêndim e brêndim, assim como as de côutchim, fazem parte da economia criativa, geram empregos, pagam impostos e não devem ser alvo de pilhérias;
13. São Conrado é um bairro nobre e paga um dos mais altos IPTUs do Rio, sendo injusta qualquer ilação sobre ser apenas um lugar de passagem;
14. Em nenhum momento me ocorreu insinuar que a Barra da Tijuca – que, inclusive, é meu lar – seja o orifício anal do Rio de Janeiro.
15. Nenhuma Aparecida sofreu maus tratos na redação deste texto.

(Ufa, acho que já me defendi de todas as possíveis acusações. A menos que algum barista grego com complexo de golgi apareça – mas acho que as chances de isso acontecer são remotas).

Direito e avesso

molde

O universo não se dividia, então, em luzes e sombras ou entre o Bem e o Mal, mas nos domínios do masculino e do feminino, representados pela máquina de escrever e a máquina de costura.

A primeira comandava o escritório do meu pai; a segunda, o quarto da minha mãe. Uma cercada de livros e silêncio; outra, de retalhos coloridos, música e risos.

Escrever, com os indicadores catando milho nas teclas da Remington, exigia concentração – ali, no âmbito das leis, não éramos bem-vindos. Nosso lugar era no chão, de tesoura da mão, recortando figuras das revistas de moda, aos pés da Singer.

Cada um desses mundos tinha seu vocabulário próprio, seu dialeto. Cerzir e sursis, corpetes e habeas corpus, evasês e evasões – palavras que se aproximavam, sem jamais se tocar.

Junto ao pedal da máquina de costura, imperava aquilo que mais tarde soube chamar-se francês: godê, plissê, cotelê, croqui. Nos raros momentos sob a escrivaninha, prevalecia o que desde sempre se chamou latim: animus, caput, data vênia, de cujus, pari passu, causa mortis, sine die.

Havia uma palpável hierarquia entre a matéria – o pano, a pence, o pesponto – e o espírito. Entre o braçal da carretilha, da agulha e do dedal, e o reino da autoridade intelectual, da retórica, da persuasão.

Essa divisão era ancestral: minha avó regia a roupa no varal, a labuta na cozinha, e meu avô, as conversas no salão, a posse do dicionário, as palavras cruzadas no jornal.

Um desses espaços era mais sentimental e mais lúdico: o do soutache, do ilhós, da passamanaria. Do cós, do viés, da sianinha, da lapela, do vivo, do gavião. Das revistas coloridas (o outro mundo não tinha figuras). Da tesoura que fazia ziguezague – da própria palavra ziguezague.

O outro mundo não oferecia grandes diversões além do perfurador, com o qual se podia fazer confete: não era permitido tocar a caneta-tinteiro, a carimbeira, o mata-borrão.

O mundo do papel manilha era melhor que o do papel almaço. A Burda, mais agradável de folhear que qualquer processo.

O quarto de costura era nosso quintal; o escritório, a sala de visita. Este, o território do não; aquele, o do sim. Um, o dos livros fora do alcance, na estante – o outro, o de sentar no chão, entre cortes de cambraia, retalhos de feltro, amostras de cetim.

Apesar de estar lá a cultura, de lá ficarem as letras, foi no lado de cá que se deu a descoberta de que cada palavra tem sua textura, seu caimento.

Assim o morim, a chita e o riscado, tão distantes da organza, do tafetá, do organdi – não só ao tato, mas também ao ouvido. Assim o linho e a flanela (ele, ríspido; ela, suave), o impecável poliéster e o suscetível algodão.

O mundo do Direito e o do avesso, o das Cortes e o da costura, o das Leis e o das linhas acabaram por se coser num só, este em que se pode chulear as frases, rematar sentenças e nelas ir alinhavando ideias e pregando as palavras como quem prega botão.

 

(publicado originalmente em 11 de abril de 2018)