Critérios

Limpando as gavetas (metaforicamente falando, claro: estava fazendo faxina no computador, descartando textos inservíveis), dei de cara com isto, escrito em 31 de janeiro de 2017 e deixado pra lá.

Na ocasião, o então presidente Temer definia os critérios que norteariam a escolha do substituto de Teori Zavascki no STF.

Imaginei a conversa do presidente com um senador hipotético:

– Quero tranquilizá-lo quanto ao novo ministro do Supremo, já que, evidentemente, indicá-lo-ei com base em critérios eminentemente técnicos. Eminentemente técnicos.

– Técnico, mas comprometido com o fim dessa aberração de prisão após condenação em segunda instância, já que nós podemos recorrer indefinidamente, e não é justo ir pra cadeia só porque dois juizecos nos condenaram.

– Evidentemente, senador, evidentemente. Com critérios técnicos e contra a prisão na condenação em segunda instância.

– E contra o aborto, Presidente. Basta termos que conviver com essa ignomínia que é o divórcio.

– Perfeitamente, senador, perfeitamente. Critérios técnicos, contra a prisão em segunda instância e contra, radicalmente contra o aborto.

– E alinhado com a reforma da Previdência…

– Indubitavelmente, indubitavelmente. Técnico, segunda instância, aborto e previdência. Acho que já temos um perfil.

– … e a reforma trabalhista.

– Indiscutivelmente, indiscutivelmente. Esse aspecto, não esquecê-lo-ia jamais. Estava na minha mente, alhures.

– E, já que estamos apenas entre nós, podemos ser claros: deve ser, da boca pra fora, defensor intransigente da Lava-Jato. Mas na prática…

– Na prática, exatamente o oposto. Isso já estava anotado aqui, logo embaixo de “maior de 35 anos” e “notório saber jurídico”.

– E deve respeitar os senadores e não se meter onde não é chamado.

– Perfeitamente, senador, perfeitamente. Deve ser contra a prisão em segunda instância, contra o aborto, a favor das reformas trabalhista e da previdência, defensor da Lava Jato da boca pra fora, detonador da Lava Jato na prática, respeitador dos senadores e… esqueci alguma coisa?

– Eminentemente técnico.

– Sim, claro, como podê-lo-ia ter esquecido? Eminentemente técnico.

~

Pensei em atualizar o texto, diante da perspectiva da indicação de um ministro para a vaga a ser aberta com a aposentadoria do ministro Celso de Mello. Começaria assim.

– Vou enfiar lá a porra de um ministro terrivelmente evangélico.

O resto eu deixo por conta de vocês.

Sem querer & querendo

sem querer

“Oje, intregamos 120 ônibus iscolares a municípios de São Paulo. No ano paçado, mais de 1300 foram entregues em todo o Brasil. O Governo @jairbolsonaro já disponibilizou atas a estados e municípios para aquisição de mais de 6200 ônbus. Espero que dessa forma a notícia chegue a todos.”

O que o ministro da Educação fez neste tuíte foi, claro, uma jogada de márquetchim.

Seu domínio da língua escrita não é lá essas coisas. Entre usar um corretor ortográfico, contratar um revisor ou aprender ortografia, ele optou por carnavalizar de vez.

Pode dar serto. Pode ser um tiro no pé.

O ministro conseguiu duas façanhas memoráveis na sua gestão: fez um Enem desastroso e botou toda a imprensa de canetinha vermelha na mão, procurando erro de português.  Se por um lado os estudantes sofreram, por outro acabou aquela história de preconceito linguístico, opressão linguística, de ‘nós pega os peixe’. Nunca antes na história deste país se viu gente tão zelosa em relação à pureza do idioma.

A gota d’água para o ministro chutar o balde foi virem corrigi-lo por escrever “aonde” onde era para ser “onde”. Onde já se viu preciosismo desses?

“Onde” tem sentido estático, de lugar fixo.
“Aonde” (a + onde) tem noção de destino, de movimento.

“Onde você mora?”
“O lugar onde eu trabalho é pertinho daqui”,
“Não sei onde deixei o livro”.
(Tudo parado, reparou?)

“Você não tem como me levar aonde eu quero ir”.
“Aonde você pensa que vai a esta hora, Paulo Otávio?”
(Tudo em movimento – menos o Paulo Otávio, que estancou no ato.)

Onde por aonde é coisa simples, errinho de nada. Camões não estava nem aí para isso. Em outras circunstâncias, apenas D. Eurídice, professora aposentada em Minduri MG, teria reparado e feito muxoxo.  Mas com o histórico “imprecionante” de erros cometidos pelo ministro, a cada tuíte as redações ordenam a “paralização” das máquinas e a “suspenção” de todas as atividades até que a Brigada de Ortografia passe um detector de barbaridades (não confundir com barbarismo, que é outra coisa).

Mas como podemos garantir que o ministro tenha errado de propósito ao escrever “oje”, “iscolares”, “paçado” e “ônbus”? Ou que não tenha sido ele a redigir o tuíte, mas alguém do seu Comitê de Gestão de Crises Gramaticais? Elementar, caros watsons:

1.  Reparem em “Oje, intregamos…” e “No ano paçado, mais de…”. Essas vírgula separando o adjunto adverbial de tempo deslocado é sofisticação demais para um tuíte ministerial:

2. “Municípios” e “notícias”, paroxítonos terminados em ditongo crescente, estão corretamente acentuados.

3. “Aquisição” está com S e Ç, não com Z e SS, como seria de se esperar.

Tudo bem que faltou o ponto separando o milhar (1.300, 1.600), que “Governo” estava desnecessariamente em maiúscula e que o adjunto adverbial de modo (“dessa forma”), por estar intercalado, deveria ter vindo entre vírgulas. E que, por fim, era para ter usado “desta” em vez de “dessa”.

O ministro foi esperto. De agora em diante, sempre que errar, poderá dizer que foi de propósito. Mas a gente sabe quando o erro é sem querer e quando é querendo.

Esses “sem querer querendo” não enganam ninguém. Até porque bastaria o “chegue a todos” sem crase para entregar a farsa: o ministro da Educação teria craseado, sem pestanejar.

Enquanto isso, num planeta retrógrado…

terrabolismo

– Ô, Marcos, tô precisando que você dá uma declaração aí pra mim.

– Pois não, presidente. Estamos no governo para ajudar.

– Você que foi lá em cima, quero que você desmente aí esse negócio que a Terra é redonda, talquei?

– Mas presidente…

– Tem gente que acredita aí nessas palhaçadas de terrabolismo, e tão zoando lá o presidente da Fuzarca.

– Da Funarte…

– Se tem arte, é Fuzarca. A parte do rock satânico eu vou pedir pro Feliciano confirmar – essa coisa de Satã é com ele mesmo. Mas você que é astrólogo…

– Astronauta…

– Você não é astrólogo? Foi fazer o quê na Lua, então?

– Presidente, o astrólogo é outro. Eu sou ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. E não fica bem um ministro de uma pasta como esta se envolver com certas teorias, digamos, heterodoxas.

– Como não? Se é hétero é porque é bom. Mas eu jurava que você era astrólogo, que nem o…

– Não, presidente.  Entendo um pouco de astronomia, que é outro departamento.

– Bom, eu nomeei uma roteirista de televisão pra um reálitixou chamado “A Casa da Rui Barbosa” e lá vai ter astrologia. Você devia se inscrever.

– Ahn, bem, é que… a Casa de Rui Barbosa não é bem um reálitixou. É uma fundação que cuida da obra do Rui Barbosa, e de outras personalidades da história do Brasil.

– Não é uma casa igual à do BBB, d’A Fazenda, do “De férias com o ex”, só que a dona é aquela ruivinha?

– É Casa “de” Rui Barbosa, não “da Ruy Barbosa.

– E o que é que uma apresentadora de televisão está fazendo lá com aula de astrologia?

– É o que eu também me pergunto, presidente. Aliás, é o que todo mundo se pergunta…

– Depois eu falo pra um dos meninos verificar isso daí.  O que eu preciso mesmo é da sua declaração de que esse negócio de Terra redonda rodando aí no céu em volta do Sol, sem domo de acrílico, só pode ser piada.

– Não é.

– Não é o quê?

– Piada. Eu vi. A Terra é redonda. Eu não consegui lugar na janelinha – fiquei sentado no corredor – mas deu pra ver que é redonda, sim.

– Vai ver aquilo não era janela, era um olho mágico. No olho mágico todo mundo fica redondo.

– Não era olho mágico, presidente.  Era uma escotilha.

– Quer que eu acredito que tá todo mundo errado – o meu astrólogo, o presidente da Fuzarca, esses vídeos do iutube – e só você é que tá certo?

– Pergunta pro Guedes, pro Moro, pro Mourão…

– Talkey, vou consultar os especialistas.

(Marcos sai da sala, preocupado com a gravidade da situação.)

– Ô Vaingarte, chama aí o Ernesto, a Damares e o Vaintraube, que eu quero tirar uma dúvida com eles.