Teste de mineiridade

mineiro

Nem farialimer nem lebloneur.
Quão minerim você é?

1) O que é um tendepá de cuia?
a) Prato típico do Jequitinhonha
b) Artesanato da Serra do Cipó
c) Confusão generalizada

2) Onde fica a cacunda?
a) No cafundó do Judas
b) Nas costa
c) No pirulito da Praça Sete

3) O que é o Pirulito da Praça Sete?
a) Uma guloseima
b) Um obelisco
c) Um palhaço

4) O que é xuxá?
a) Infiá
b) Pelejá
c) Tê um troço

5) O que é cubu?
a) Mulher feia
b) Doença
c) Um doce

6) O que é bobiça?
a) Bestagem
b) Uma hortaliça
c) Peça de carrinho de rolimã

7) O que é custoso?
a) Caro
b) Delicioso
c) Difícil pra dedéu

8) O que é disgrama?
a) Desgraceira
b) Exame laboratorial
c) Equipamento de jardinagem

9) O que é gastura?
a) Desperdício
b) Queimação
c) Nervoso

10) O que é manota?
a) Vexame
b) Alguém sem mão
c) Animal perissodáctilo da família Tapiridae

11) O que é levar manta?
a) Carregar um cobertor
b) Transportar carne de sol
c) Tomar prejuízo

12) ‘Tem base?” significa:
a) Você trabalha com cosmético?
b) Há fundamentos?
c) É sério?

13) ‘Mexer’ significa:
a) Mover
b) Provocar
c) Trabalhar com alguma coisa

14) Em qual das frases a palavra ‘joia” está corretamente empregada?
a) Comprei uma joia
b) Você é uma joia rara
c) Cê tá joia?

15) O que é ‘quimportamilá”?
a) Móvel de origem francesa, usado para guardar os trens
b) Um mucado de um tan de coisa
c) Faço pocaso diss

16) Para que servem as últimas sílabas das palavras?
a) Pra rendê um dediprosa, uai
b) Facideia. Cadiquê?
c) O que são “últimas sílabas das palavras”?

Gabarito:

(Se você precisa de um gabarito é porque não é minerim. Mas vamlá.)

– Dúvida em mais de 5 questões: Você é um minerim muito pros coco. Deve ser, no máximo, de Xistifora.
– Dúvida em menos de 5 questões: Aqui, fica de butuca que falta só um cadiquim pra panhá jeito.
– Dúvida nenhuma nas 15 questões: Ê lá em casa!

Quem sou eu

asma

Volta e meia tenho que escrever “uns dois parágrafos” a meu respeito, e embatuco.

Minha biografia não chega a tanto.

Mineiro, arquiteto e…. e é isso.

Há quem, nessas situações, coloque – meio à brinca, meio à vera – o signo, o ascendente e uma Lua em Escorpião para indicar que tem pegada.

Eu me contento com ser mineiro (é algo que me define, esses oitenta por cento de ferro na alma), arquiteto (é a profissão que escolhi, e com a qual me mantenho) e recuo antes de incluir “asmático”.

Asmático, não soasse como vitimização, deveria vir antes de arquiteto e junto com mineiro, porque nasci assim, e a todo o resto veio bem depois.

Ser mineiro moldou meu modo de falar, de pensar. Ser asmático, o jeito com que me afogo no ar que respiro, e que acaba por afetar como falo e penso.

Junto com a asma veio a ansiedade. E com a ansiedade, o pânico.

Esse aperto no peito pela manhã, à noite – é asma ou angústia?

Esse chiado, como se houvesse um gato asfixiado na garganta – é ar demais ou de menos?

E essa palpitação, essa vontade de fugir, de estar em qualquer outro lugar que não aqui, porque aqui o ar é irrespirável?

Asma e pânico são formas distintas de sufocamento. Uma é afogar-se no ar; a outra, no mundo.

Talvez nem todo asmático seja ansioso. Isso pode ter a ver com Touro, com a ascendência em Áries, com a Lua (sabe-se lá onde) prateando a solidão.

Aquela solidão de não poder correr na hora do recreio. Não poder sair no sereno. Ter que usar agasalho, frequentar curandeiros, tomar poções de mel e ervas, ser benzido junto à gameleira. Dormir quase sentado, com emplastro fumegante sobre o peito.

E, para aproveitar o fôlego, falar depressa demais. Por não poder correr, andar depressa demais. E respirar pela boca e pelo nariz em quantidade que nunca é demais para os pulmões.

Asma não tem cura. Ansiedade e pânico, talvez.

Na próxima vez que tiver que escrever “dois parágrafos” a meu respeito, talvez parafraseie Drummond:
“Quando nasci, um anjo aflito
desses de asas e retinas fatigadas
disse: Vai, Eduardo! ser ofegante na vida.”

Ter uma Lua em Escorpião ajudaria. Mesmo que fosse minguante. Mesmo que só para enfeitar a biografia.

Herança

Heranca
Minha mãe e meu irmão caçula.

Shakespeare se perguntava o que há num nome. E concluía não haver nada – mesmo o cheiro seria igual, fosse outro o nome da rosa. Mas e o sobrenome? O que é que faz um Orleans & Bragança e um Silva tão iguais, e tão distintos?

O nome é meu, o sobrenome é nosso. Vai além de mim, me vincula a uma linhagem, me inclui num clã. Me diz com quem me pareço, a que grupo pertenço, quem carrega meu sangue – e até com quem não devo me casar. O sobrenome é uma espécie de DNA, inventado antes de o DNA ser descoberto (ou descoberto antes de o DNA ser inventado, vá saber).

Gosto do meu Affonso. É denso, incomum, ainda mais com esse duplo F tão arcaico. É sonoro e masculino (as mulheres da família é que devem sofrer com esse acúmulo de testosterona pendurado no nome). Como uma espécie de “O gordo e o magro”, vem acoplado a um etéreo Alves, que dizem que vem de Álvares, e que tem mais de alvo que de avaro, e que combina tão bem com o Affonso que deviam vir algemados por um hífen, uma lua Alves gravitando a terra Affonso.

Não herdei, por machismo do meu pai e omissão de minha mãe, o belo Lopes de Faria que ela trouxe do berço. Lopes, sobrenome plural como Alves, deve vir de “lupus”, um lobo que teria tudo a ver com o Raposo que não herdei de minha avó paterna (também por machismo do meu avô, para quem o Alves Affonso bastaria aos filhos e netos). Perdi a chance de ter uma alcateia de lobos e raposos correndo junto do meu nome.

Com minha outra avó, a materna, morreu o Viana Leal, sobrenome que invejo nos primos de Pedra do Anta, que ainda o ostentam. Leal iria bem com o lupino Lopes, com o felpudo Raposo, e o Viana vindo dos confins de Minas teria sido o parceiro fonético perfeito para o Alves (Viana Alves, não soa bem? não lembra um vale entre montanhas, um som de violino?).

De outra bisavó, ficaram perdidos no caminho o Medeiros, o Magalhães. O Medeiros vindo (acho) da Madeira, uma ilha no meio do Atlântico, entre Cabo Verde e os Açores. Se não veio de lá, não importa – é de lá que o imagino vindo. Não o Magalhães, que não caberia – sobrenome gigante – numa mera ilhota. Magalhães vem de um estreito de gelo e fogo, de uma galáxia.

Na geografia que criei, ainda criança, para os sobrenomes que não chegaram até mim, mas que são meus, estão os vales dos Vianas, as florestas dos Lopes e os bosques dos Raposos, os fortes dos Leais, as ilhas dos Medeiros, as praias dos Farias, as nuvens de Magalhães. É lá que vivem os Alves e os Affonso, vizinhos de porta dos Ragone, dos Finamore, dos Andrade, dos Figueiredo, dos Gonçalves, dos Mendes, dos Carvalho e, indo à raiz da árvore genealógica, vizinhos de todos os sobrenomes do mundo – descendentes que somos do mesmo primata (ou do mesmo Adão). O que dá na mesma, porque, voltando a Shakespeare, quer o chamemos de Adão ou Elo Perdido, nosso ancestral teria o mesmo cheiro e o mesmo polegar opositor, desceria da mesma árvore, descobriria a fogo, inventaria a roda (ou seria o contrário?) e um dia acharia que o nome não basta (porque nos individualiza), e inventaria o sobrenome (que nos une).

 

(originalmente publicado em 9 de junho de 2013)

Mineirês

Originalmente publicado em 14 de novembro de 2018

Trem

Não falo português nem brasileiro – falo mineirês, espichando os sss, comendo as palavras pelas beiradas, roendo-as até deixar só a raiz, só o tutano.

– Cuméquitá o trans?
– Confuz quiçó ceveno.

(Pra que “trânsito”, se “trans” já diz? Por que várias palavras, se pó juntar tudo num trem só?)

O mineirês – não fosse ele invenção de mineiro – é econômico.
Com uma coisa e um trem (que são o mesmo trem, a mesma coisa), a gen dá conta de tudo.

– Já coisou o trem?
– Vô coisá.

E lá vai o mineiro coisando o que tem pra coisar, até o trem ficar do jeitim que tem que ser.

Porque mineirês não é só esse trem de usar trem pra tudo quanto é trem.
Mesmo um tã de trem que não tem como melhorar, o mineiro pega e melhora.

Um bocadinho, que já é menor que um bocado, a gente incói pra um muncadiquim, que ainda é o dobro de um cadiquim de nada.

Mineirês não é só o que se diz, mas como é dito.
A fala vai em ritmo de carro de boi, modulando a voz nas curvas da estradinha de chão que é o jeito mineiro de falar – vogais se fechando como quem poupa fôlego morro acima, os rrr raspando a garganta como quem segura o cabresto morro abaixo.

Mineirês se fala de soslaio, mesmo olhando de frente.
Na maciota, mesmo se o assunto é pedregoso.

Linguistas dirão que tudo se reduz às sílabas tônicas serem mais longas que as átonas, à apócope das vogais curtas, à palatização do D e do T, à aférese do E, ao escambo do E pelo I e do O pelo U, ao esfumaçar do U na última sílaba.

Dito assim, parece fácil, teorema demonstrado.
Só que não bastam os trilhos, a estação, a mala na mão e o adeus para haver uma viagem.

É preciso um trem.

Um trem que não se sabe bem o que seja – a não ser que se fale mineirês.