Herança

Heranca
Minha mãe e meu irmão caçula.

Shakespeare se perguntava o que há num nome. E concluía não haver nada – mesmo o cheiro seria igual, fosse outro o nome da rosa. Mas e o sobrenome? O que é que faz um Orleans & Bragança e um Silva tão iguais, e tão distintos?

O nome é meu, o sobrenome é nosso. Vai além de mim, me vincula a uma linhagem, me inclui num clã. Me diz com quem me pareço, a que grupo pertenço, quem carrega meu sangue – e até com quem não devo me casar. O sobrenome é uma espécie de DNA, inventado antes de o DNA ser descoberto (ou descoberto antes de o DNA ser inventado, vá saber).

Gosto do meu Affonso. É denso, incomum, ainda mais com esse duplo F tão arcaico. É sonoro e masculino (as mulheres da família é que devem sofrer com esse acúmulo de testosterona pendurado no nome). Como uma espécie de “O gordo e o magro”, vem acoplado a um etéreo Alves, que dizem que vem de Álvares, e que tem mais de alvo que de avaro, e que combina tão bem com o Affonso que deviam vir algemados por um hífen, uma lua Alves gravitando a terra Affonso.

Não herdei, por machismo do meu pai e omissão de minha mãe, o belo Lopes de Faria que ela trouxe do berço. Lopes, sobrenome plural como Alves, deve vir de “lupus”, um lobo que teria tudo a ver com o Raposo que não herdei de minha avó paterna (também por machismo do meu avô, para quem o Alves Affonso bastaria aos filhos e netos). Perdi a chance de ter uma alcateia de lobos e raposos correndo junto do meu nome.

Com minha outra avó, a materna, morreu o Viana Leal, sobrenome que invejo nos primos de Pedra do Anta, que ainda o ostentam. Leal iria bem com o lupino Lopes, com o felpudo Raposo, e o Viana vindo dos confins de Minas teria sido o parceiro fonético perfeito para o Alves (Viana Alves, não soa bem? não lembra um vale entre montanhas, um som de violino?).

De outra bisavó, ficaram perdidos no caminho o Medeiros, o Magalhães. O Medeiros vindo (acho) da Madeira, uma ilha no meio do Atlântico, entre Cabo Verde e os Açores. Se não veio de lá, não importa – é de lá que o imagino vindo. Não o Magalhães, que não caberia – sobrenome gigante – numa mera ilhota. Magalhães vem de um estreito de gelo e fogo, de uma galáxia.

Na geografia que criei, ainda criança, para os sobrenomes que não chegaram até mim, mas que são meus, estão os vales dos Vianas, as florestas dos Lopes e os bosques dos Raposos, os fortes dos Leais, as ilhas dos Medeiros, as praias dos Farias, as nuvens de Magalhães. É lá que vivem os Alves e os Affonso, vizinhos de porta dos Ragone, dos Finamore, dos Andrade, dos Figueiredo, dos Gonçalves, dos Mendes, dos Carvalho e, indo à raiz da árvore genealógica, vizinhos de todos os sobrenomes do mundo – descendentes que somos do mesmo primata (ou do mesmo Adão). O que dá na mesma, porque, voltando a Shakespeare, quer o chamemos de Adão ou Elo Perdido, nosso ancestral teria o mesmo cheiro e o mesmo polegar opositor, desceria da mesma árvore, descobriria a fogo, inventaria a roda (ou seria o contrário?) e um dia acharia que o nome não basta (porque nos individualiza), e inventaria o sobrenome (que nos une).

 

(originalmente publicado em 9 de junho de 2013)

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Mineirês

Originalmente publicado em 14 de novembro de 2018

Trem

Não falo português nem brasileiro – falo mineirês, espichando os sss, comendo as palavras pelas beiradas, roendo-as até deixar só a raiz, só o tutano.

– Cuméquitá o trans?
– Confuz quiçó ceveno.

(Pra que “trânsito”, se “trans” já diz? Por que várias palavras, se pó juntar tudo num trem só?)

O mineirês – não fosse ele invenção de mineiro – é econômico.
Com uma coisa e um trem (que são o mesmo trem, a mesma coisa), a gen dá conta de tudo.

– Já coisou o trem?
– Vô coisá.

E lá vai o mineiro coisando o que tem pra coisar, até o trem ficar do jeitim que tem que ser.

Porque mineirês não é só esse trem de usar trem pra tudo quanto é trem.
Mesmo um tã de trem que não tem como melhorar, o mineiro pega e melhora.

Um bocadinho, que já é menor que um bocado, a gente incói pra um muncadiquim, que ainda é o dobro de um cadiquim de nada.

Mineirês não é só o que se diz, mas como é dito.
A fala vai em ritmo de carro de boi, modulando a voz nas curvas da estradinha de chão que é o jeito mineiro de falar – vogais se fechando como quem poupa fôlego morro acima, os rrr raspando a garganta como quem segura o cabresto morro abaixo.

Mineirês se fala de soslaio, mesmo olhando de frente.
Na maciota, mesmo se o assunto é pedregoso.

Linguistas dirão que tudo se reduz às sílabas tônicas serem mais longas que as átonas, à apócope das vogais curtas, à palatização do D e do T, à aférese do E, ao escambo do E pelo I e do O pelo U, ao esfumaçar do U na última sílaba.

Dito assim, parece fácil, teorema demonstrado.
Só que não bastam os trilhos, a estação, a mala na mão e o adeus para haver uma viagem.

É preciso um trem.

Um trem que não se sabe bem o que seja – a não ser que se fale mineirês.