Traduttore, traditore

Originalmente publicado em 29 de outubro de 2018

Duas Caras

Os tradutores sabem melhor que ninguém – palavras são como pessoas: mentem, enganam, têm duas caras. São lágrimas de palhaço, riso de serpente. São oráculos, cartomantes: dizem o que queremos ouvir, sem deixar de dizer também o seu oposto.

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O que é “cativar” alguém? Impressionar, seduzir. Cativar uma plateia é conseguir sua atenção. Um sorriso cativante é um sorriso encantador. Mas cativar quer dizer tornar cativo: prender, tiranizar, oprimir, aprisionar. Tem a mesma origem de captar, capturar. Cativo é o mesmo que escravo. Cativar é colocar em cativeiro. Tu te tornas eternamente responsável por tudo aquilo que escravizas, disse à raposa o principezinho.

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“Encantar” é provocar admiração, agradar profundamente. Mas é, antes de tudo, lançar feitiço, botar quebranto, emitir palavras mágicas. Encantar é enfeitiçar – ato de bruxaria. O tal sorriso encantador do parágrafo acima é um sorriso de bruxa.

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“Fascinar” é dominar pelo olhar; deslumbrar. Literalmente, usar o poder de Fascinus, deus romano representado por um falo, que protegia do mau olhado. És fascinação, amor – diz Elis; logo, o melhor é fazer figa (falos, hoje em dia, longe de espantar maus olhados, os atraem).

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“Conquistar” – um amor, um prêmio -não é apenas obter, alcançar. Conquistar é submeter, subjugar, ocupar, dominar, vencer. César conquistou boa parte da Europa, os caubóis conquistaram o Oeste, alguém um dia há de conquistar você. Antes que isso aconteça, pergunte aos índios, aos gauleses, como foi a experiência. Conquistar o Everest não é apenas chegar ao seu topo: é pisar nele, cravar nele uma bandeira, como o toureiro crava a bandarilha no flanco do touro.

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“Seduzir” é atrair, envolver – e também deflorar. Mas, em sua origem, quer dizer induzir ao erro, iludir com promessas, desencaminhar. Houve um tempo em que donzelas eram seduzidas (era o tempo em que havia donzelas), em que o demônio seduzia e negociava almas (havia almas, e o demônio tratava direto com o cliente, sem pastores evangélicos intermediando a negociação). Melhor seduzir as pedras, catedrais – como quer o Djavan – e deixar o coração de fora dessa.

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“Ilusão”, por outro lado, não é apenas um engano – é diversão. Da mesma origem (“ludo” = jogo), vêm “lúdico”, “eludir” (escapar jogando), “interlúdio” (intervalo em um jogo), “prelúdio” (o que antecede ao jogo, à representação). Iludir é brincar com o outro, dar-lhe esperanças vãs (pleonasmo: toda esperança é vã). A verdade – ensina Marisa Monte – é uma ilusão.

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“Paixão” não é amor: é o ato de suportar, de sofrer (daí a Paixão de Cristo). Estar apaixonado é estar doente, em sofrimento. Da mesma origem (“passio”), vem passional – fora de controle, inconsequente. A paixão não é puro afã (novamente, Djavan): é fanatismo.

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Por fim, “fidelidade” não tem a ver com monogamia ou dieta sexual restrita. Vem de “fides”, que significa “fé”. Ser fiel é acreditar – supor, aceitar como real.

Mais um bom motivo pra ser ateu.

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