Vade retro

diabo

Circulam por aí fotos da bicicleta do pregador Manoel, que ele customizou com cartazes onde lista tudo que considera “do demônio”.

Estão lá, lado a lado, sexo oral, sexo anal, luta de MMA, mal hálito [sic] e chulé dos pés [sic]. Uma pegada mais forte não deve ser seu fraco.

(Daqui pra frente não vou mais usar [sic] para dizer que foi exatamente assim que o Manoel escreveu, ou vai parecer que estou com crise de soluço.)

Manoel não esconde sua misoginia. Considera diabólicos mulher frentista do posto de gasolina, manekin das lojas, boneca namoradeira de Minas Gerais, batom boca loka (isso ainda existe?), salão de beleza, pincel da makiagem, os dois salto alto (só um pode?), grampo do cabelo, esmalte sintilante.

É crente raiz. Abomina mulher crente grávida com a barriga de fora, bermudão dos crente mentiroso, celular androids dos crentes, short das crentes, crente covarde, crente nervoso, desfile de moda cristã, moto táxi dos crentes, cantina das igrejas, pastora do diabo, puteiro do kero kero do dízimo, 1 de abril do dízimo, ti ti ti das igrejas, língua estranha da cobra jararaca, as igrejas da ladainha do dízimo. Pelo visto, passa longe de todas as neopentecostais.

Leva a sério a intolerância religiosa: islâmico do Maomé? É do cão. Rosário do terço dos padres? É do tinhoso. Igreja Messiânica é de belzebu, Buda do Japão é do canhoto. Checho Noie é do capiroto. Congregação Cristã, do sete-peles; Testemunha de Jeová, do anhangá. Oxalá, macumbeiro, vela de 7 dias e exu risadinha, então… esses são do Gilmar em pessoa.

Manoel tem apurado gosto musical. Vade retro os louvor das banda gospel do diabo, a música da garagem da visinha, os Mamonas Assassinas, Lulu Santos, rapper, as músicas do Raul Seixas, do Olodum, as música do Jessé, fundo musical das igrejas, as músicas do Wando.

É conservador. São obra do coisa-ruim, do seu ponto de vista, aborto, adultério, roupa unissex, tv acabo, as tatuagens do diabo, as praia do nudismo, movimento 100 terra, o cigarro e a maconha, cachimbo da pedra de crak, casamento da bicharada gay, 13 de maio, aposentadoria do Getúlio Varga.

Como qualquer ser humano, tem suas idiossincrasias. Coloca no mesmo balaio do satanismo pain ball (dizem que dói mesmo), bola do vôlei, bala dum dum, diabete crônico, BR 153, PX do rádio, ferradura no pé do cavalo, Fórmula 1, camisa do Flamengo, pet chop, lavagem celebral, ciúme, obesidade, dança da capoeira, kung fu, parabéns pra você, lan house, Whatsapp, Face Book e flor de sambanbaia.

Consumidor implacável, Manoel desdenha da moto Yamaha, do fumo Trevo, dos cigarros Derby, do pneu City Demom (isso existe?), do plano de saúde, da Samsung, dos cartões Visa, Elo e Mastercard, do latão da Skol, da pinga do Corote (que ele chama, com intimidade, de pinga do Corotinho), do relógio Cassio e do Fiat Marea. Além disso, não gosta, sabe-se lá por que motivo, de loja do mercado e do Center Chop Santa Catarina (ou talvez seja de qualquer center chop, e de Santa Catarina, seja ela a própria santa ou o estado).

Não consegui entender o que sejam o brechó do cão e os acidentes do cafuringa, mas concordo com o Manoel que são mesmo do rabo-de-seta o rodeio (maus tratos aos animais não são coisa do bem) e o humicidio (o respeito à vida humana – extensivo a todas as espécies animais – é mais importante até que o respeito à ortografia).

Se eu ainda tivesse a Efigênia, minha bicicleta, talvez me animasse a paramentá-la com um rol de abominações, e saísse pela ciclovia informando os transeuntes sobre meu ranço com pimentão, gergelim, atendimento da Net, máquina de recarga do Riocard, música da Ana Carolina, vizinhos de cima, captcha, sinal de trânsito em topo de ladeira, comemoração em churrasqueira com música, comemoração em churrasqueira mesmo sem música, celular no cinema, pimentão (já falei, mas é porque odeio mesmo), travesseiro alto, sujeito duplo, lavadora Enxuta (não tenho há mais de 20 anos, e o ranço permanece), mesa redonda de futebol, anúncio da Trivago e da Open English, rap (principalmente se for no metrô, tornando ainda mais interminável o trecho entre São Conrado e Jardim Oceânico), reality show (de capiqueique, de tatuagem, de coveiros, do que for), ter que provar que não sou robô, cravo em doce, fila do Detran, voz do Sérgio Moro (só a voz, o conteúdo tá ok), gente parada do lado esquerdo da escada rolante bloqueando a passagem, sistema de abertura da caixa de Omo, alinhamento de cartucho de impressora, endoscopia, textos em capisloques ou com maiúsculas aleatórias, benzetacil, lombada mal sinalizada, desodorante íntimo, ter que esperar o pudim de leite moça esfriar para poder comer.

Tudo isso também é coisa do capeta.

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Traduttore, traditore

Originalmente publicado em 29 de outubro de 2018

Duas Caras

Os tradutores sabem melhor que ninguém – palavras são como pessoas: mentem, enganam, têm duas caras. São lágrimas de palhaço, riso de serpente. São oráculos, cartomantes: dizem o que queremos ouvir, sem deixar de dizer também o seu oposto.

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O que é “cativar” alguém? Impressionar, seduzir. Cativar uma plateia é conseguir sua atenção. Um sorriso cativante é um sorriso encantador. Mas cativar quer dizer tornar cativo: prender, tiranizar, oprimir, aprisionar. Tem a mesma origem de captar, capturar. Cativo é o mesmo que escravo. Cativar é colocar em cativeiro. Tu te tornas eternamente responsável por tudo aquilo que escravizas, disse à raposa o principezinho.

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“Encantar” é provocar admiração, agradar profundamente. Mas é, antes de tudo, lançar feitiço, botar quebranto, emitir palavras mágicas. Encantar é enfeitiçar – ato de bruxaria. O tal sorriso encantador do parágrafo acima é um sorriso de bruxa.

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“Fascinar” é dominar pelo olhar; deslumbrar. Literalmente, usar o poder de Fascinus, deus romano representado por um falo, que protegia do mau olhado. És fascinação, amor – diz Elis; logo, o melhor é fazer figa (falos, hoje em dia, longe de espantar maus olhados, os atraem).

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“Conquistar” – um amor, um prêmio -não é apenas obter, alcançar. Conquistar é submeter, subjugar, ocupar, dominar, vencer. César conquistou boa parte da Europa, os caubóis conquistaram o Oeste, alguém um dia há de conquistar você. Antes que isso aconteça, pergunte aos índios, aos gauleses, como foi a experiência. Conquistar o Everest não é apenas chegar ao seu topo: é pisar nele, cravar nele uma bandeira, como o toureiro crava a bandarilha no flanco do touro.

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“Seduzir” é atrair, envolver – e também deflorar. Mas, em sua origem, quer dizer induzir ao erro, iludir com promessas, desencaminhar. Houve um tempo em que donzelas eram seduzidas (era o tempo em que havia donzelas), em que o demônio seduzia e negociava almas (havia almas, e o demônio tratava direto com o cliente, sem pastores evangélicos intermediando a negociação). Melhor seduzir as pedras, catedrais – como quer o Djavan – e deixar o coração de fora dessa.

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“Ilusão”, por outro lado, não é apenas um engano – é diversão. Da mesma origem (“ludo” = jogo), vêm “lúdico”, “eludir” (escapar jogando), “interlúdio” (intervalo em um jogo), “prelúdio” (o que antecede ao jogo, à representação). Iludir é brincar com o outro, dar-lhe esperanças vãs (pleonasmo: toda esperança é vã). A verdade – ensina Marisa Monte – é uma ilusão.

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“Paixão” não é amor: é o ato de suportar, de sofrer (daí a Paixão de Cristo). Estar apaixonado é estar doente, em sofrimento. Da mesma origem (“passio”), vem passional – fora de controle, inconsequente. A paixão não é puro afã (novamente, Djavan): é fanatismo.

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Por fim, “fidelidade” não tem a ver com monogamia ou dieta sexual restrita. Vem de “fides”, que significa “fé”. Ser fiel é acreditar – supor, aceitar como real.

Mais um bom motivo pra ser ateu.