Alice Gonzaga e o país da memória

Alice

Confira a coluna de hoje n’O Globo:

Alice Gonzaga e o país da memória

 


 

Conheci Alice Gonzaga através da Patricia Queiroz. Já era amigo virtual da sua filha, Maria Alice.

Com a internet, caiu por terra a teoria dos “seis graus de separação”. Conhecer Alice é estar a um passo, no máximo dois, de Tyrone Power, Douglas Fairbanks, Carmen Miranda, Humberto Mauro, Rossana Ghessa, Ana Maria Magalhães, Charles Chaplin, Oliver Hardy & Stan Laurel, Dulcina de Moraes, Mário Peixoto, Oscarito, Grande Otelo, Orson Welles.

O que para nós, cinéfilos, é a história do cinema, para Alice é o cotidiano. Não são nomes: são pessoas com quem conviveu diretamente, ou das quais soube através de seu pai, Adhemar Gonzaga, fundador da Cinédia.

Alice é uma enciclopédia, uma cornucópia. Há um documentário sobre ela (“Desarquivando Alice Gonzaga” (de Betse de Paula). Deveria haver um longa metragem, contando a trajetória da menina que pintava cenários, esteve diante das câmeras, conheceu os bastidores e hoje é guardiã da memória de um tempo em que São Cristóvão foi uma espécie de Hollywood.

O texto de hoje, n’O Globo, é uma homenagem a quem, com zelo e memória prodigiosos, cuida para que parte da nossa cultura não caia (ou queime, ou seja soterrada) no esquecimento.

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Vênus e Marte

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É muita falta de sensibilidade dizer que homem é insensível.
Que não consegue distinguir o pink do fúcsia, guardar uma data de aniversário de noivado, reparar num corte de cabelo.

O cérebro masculino aloca tanto espaço para processar a sutileza dos barulhinhos no motor do carro que não sobra quase nada para os supérfluos.

Nas cores, por exemplo, fica só naquelas quatro básicas (ou serão cinco?) e olhe lá. E quem em sã consciência precisa entender a diferença entre carmim e carmesim, púrpura e magenta, lilás e violeta?

Sabe quanto de memória RAM é demandado para saber se foi impedimento ou não? E isso sem riplêi, sem acesso às câmeras instaladas nas laterais do campo, e com meia dúzia de bramas nas ideias.

Não há chip que armazene tanta informação; é preciso descartar datas – pelo menos as que não sejam as do Brasileirão, da Eurocopa, dos campeonatos inglês, italiano e espanhol, da Champions League e da segunda divisão (se for vascaíno).

Dizem, também, que homem não sabe ouvir. Quem já viu um homem assistindo a uma mesa redonda sobre futebol sabe que ele não só é capaz de ouvir, como é capaz de ouvir e entender oito homens falando ao mesmo tempo! E discordar de todos.

Homens raciocinam em quilômetros – mulheres, em milímetros.
Daí aquela certeza granítica de que não precisa abastecer, que o que tem na reserva dá pra chegar ao próximo posto (que não se faz ideia de quão longe esteja) – e o olhar de perplexidade diante da informação de que uma franja exatamente igual esteja 3 milímetros mais curta (ou mais comprida, tanto faz).

No cérebro masculino há uma luneta – no feminino, um microscópio.
Mulheres distinguem o invisível, quase que o subatômico – enquanto os homens têm que se virar com o óbvio, o gritante.
Daí no sexo as mulheres perceberem e valorizarem o velado, o sensual, o erótico – e os homens se contentarem com o explícito.

Um excelente lugar para se estudar a diferença entre os cérebros masculino e o feminino é o restaurante de comida a quilo.

Suponha que haja duas filas: uma com dez homens, outra com três mulheres. Qual você deve pegar, se estiver com pressa?

A resposta é óbvia.

Um homem, diante daqueles rechôs, pega duas colheres de arroz, uma de feijão, uma garfada de batata frita, o maior bife, e uma lasca de tomate, para disfarçar.
Tudo, cronometrado, dá mais ou menos o tempo que você levou para ler este parágrafo.

Uma mulher pega meia colher de arroz.
Mais um quarto de colher de arroz.
Mais um oitavo de colher de arroz.
Mais quatro grãos de arroz.

Se não houvesse uma fila indócil às suas costas, e ela não tivesse mais nada para fazer na vida além de almoçar, iria colocando porções cada vez menores até chegar à fissão nuclear.

Depois vem o feijão.
Enche meia concha, mas desiste antes de despejar no prato.
Volta com a colher, pega só o caldo.
Um pouco menos de caldo.
Isso.
Mas com dez por cento de grãos.
Ok, nove por cento, apenas.
Com um pouco mais de caldo.

Investiga a salada de alface como um agente da imigração americana diante de uma família muçulmana de El Salvador com passagem por Cuba, São Bernardo do Campo e Síria.

Revira a salada atrás daquele miolinho da alface.
Não encontra.
Descarta as folhas mais escuras (um tom entre o verde bandeira e o floresta, próximo do alga mas mais claro que o espinafre).
Acaba ficando com um punhado dentro daquela gama de verde que vai do samambaia ao mar de Cancún.

E aí encara os bifes.
Vai direto no menor.
Analisa.
Empurra para o lado.
Pega um intermediário, mas tem muita gordura.
Levanta com cara de nojo, um a um, oitenta e seis por cento dos bifes – evita, impavidamente, os maiores.
Retorna ao menor.
Avalia.
Pondera.
Olha dos dois lados.
Verifica as bordas.
A textura.
Pega uma faca, vai no bife maior e corta um pedaço, equivalente a exatos 99% do bife menor.
E então passa à sobremesa.

(Comecei a escrever isto, parei para tomar café e agora que retomo percebo um equívoco: falei em homens e mulheres, quando deveria estar falando apenas de cérebros do tipo masculino e do tipo feminino. Que podem ocorrer, indistintamente, em homens e mulheres. Ou seja, esqueça a dica da fila com menos mulheres no restaurante a quilo. Se houver um homem com cérebro do tipo feminino à sua frente, você tá lascado do mesmo jeito.)

 

(publicado originalmente em 16 de junho de 2017)