A invenção da linguagem

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Quando o primeiro ser humano descobriu que podia falar, antes de sair contando a novidade para todo mundo deve ter se dado conta da necessidade de dar nome às coisas – ou não teria nem como dizer que tinha adquirido o dom da fala.

Depois de milênios brincando de “imagem e ação” diante de qualquer evento – seja para dizer “eu te amo” ou “tem uma baratossaura pousada no seu ombro” – era um alívio poder simplesmente chegar e dizer “tem uma baratossaura pousada no seu ombro”, sem precisar levar os indicadores à testa imitando antenas, sacudir os cotovelos como se fosse levantar voo, e fazer cara de nojo.

Mas como dizer “tem uma baratossaura pousada no seu ombro” se nem o “ombro” nem a “baratossaura” tinham nomes, muito menos os verbos “pousar” ou “ter” (ainda mais no sentido de existir)?

O primeiro ser humano que descobriu que podia falar sentiu um peso maior sobre seus ombros ainda sem nome: nomear não só as coisas, mas também as ações, porque sem os verbos as palavras soltas não fariam muito sentido.

Vencida a etapa dos verbos e substantivos, o pobre ser humano deve ter entendido que havia a necessidade também dos adjetivos (era uma baratossaura pequenininha, de apenas dois palmos, ou uma daquelas que voam, e contra a qual não há tacape nem testosterona que deem jeito? Era um amor eterno e avassalador ou só um amorzinho legal agora à tarde enquanto os mamutes pastavam e os tigres dente de sabre faziam a sesta?). Vieram então os advérbios, as conjunções, os artigos definidos e indefinidos, o “que” relativo e todas aquelas malvadezas com as quais os professores de português nos torturaram.

Há de ter sido um desafio e tanto a nomeação do mundo. Olhar a baratossaura e pensar que nome sem muito valor para dar àquele bicho asqueroso. Olhar o ombro e imaginar um som que se ombreasse à beleza daquele patamar nascido da curva no final do pescoço e que iria morrer dali a pouco, em curva ainda mais bela, antes de virar braço. E criar palavras que se harmonizassem nessa sequência, fluindo sinuosamente – pescoço ombro braço.

Esse primeiro falante deve ter percebido que havia coisas demais no mundo, e que não daria conta sozinho. Aí chamou a família para ajudar (nascia a palavra “nepotismo”), e isso explica porque haja nomes tão esquisitos (dados pelo cunhado, talvez) e nomes esculpidos a cinzel (obra da cunhada); nomes tão límpidos (atribuídos pelo filho caçula), e outros tão obviamente equivocados (quem mandou chamar a sogra?).

Quem batizou a arara de “arara” deve ter sido uma criança. A mesma que nomeou o tatu, a cacatua, o jacaré, o pica-pau, o tico-tico e todos os bichos de nomes oxítonos ou onomatopaicos.

À filha teen coube dar nome ao beija-flor, ao bem-te-vi, à borboleta, ao arco-íris, à rosa dos ventos, ao bicho da seda, e às cores fúcsia, rosa-chá e off-white.

O cunhado denominou a fronha, a gonorreia, o ornitorrinco, o fluxo piroclástico e as placas tectônicas (placas tectônicas e fluxos piroclásticos eram bastante populares naquela época).

Ele mesmo, o hipotético homem das cavernas, nomeou as coisas práticas (dia, noite, vida, morte, sexo, cerveja, chave de fenda, moto de quinhentas cilindradas, pênalti, impedimento, juiz ladrão).

A mulher criou palavras como ciclo, lua, cólica, leite, castigo, chantagem emocional, refogado, dor de cabeça, tédio, evasê, dupla jornada, empoderamento.

São indubitavelmente obra da sogra os nomes dados à bertalha, à seriguela, à alcachofra, à rebimboca e a todas as geringonças (sendo sua, inclusive, a invenção da palavra “geringonça”).

Por não terem inventado uma palavra que sintetize essa ideia, “eu te amo” continua, até hoje, difícil de dizer.

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O dia em que Carlos salvou o planeta

Planeta

– Krog, nossos computadores finalmente conseguiram decifrar parte da linguagem dos habitantes daquele planeta que vamos invadir.

– Aleluia! Já estamos há quase 5000 anos nisso, e o governo estava a ponto de cortar a verba.

– O problema é que… não dá para entender nada.

– Como assim, nós deciframos ou não deciframos?

– Decifrar é uma coisa. Entender é outro departamento.

– Mas você cruzou todos os dados, Grok?

– Sim. Veja essa mensagem: “O que se vê desde a época da transição é um “interesse” “crocodilal” em situações desnecessárias.”

– Hã?

– Sabemos o que é cada uma das palavras isoladamente (exceto crocodilal). Mas elas não fazem nenhum sentido. E ainda tem essas coisas voando em torno de algumas palavras, que eles chamam de aspas. Devem estar aqui por engano.

– Tem certeza que não é um código secreto?

– É nossa suspeita. Veja este outro: “Quando a única coisa que lhe resta é o último suspiro de vida, surgem estas pérolas que mostram muito mais do que palavras ao vento, mas algo que já acontece há muito. O quanto querer ser livre e independente parece ser a maior crueldade para alguns.”

– Não será um poema? Terráqueos fazem poemas.

– Analisamos dois milhões de poemas, e isso não pode ser classificado como tal.

– Música do Carinhos Brown? Papo de bêbado? Voto da Rosa Weber?

– Também não. O estilo não confere.

– A chave poderia ser esta, ó: “Jamais podemos deixar de lembrar deste fato, mesmo que a lacrosfera e a isentosfera digam que este assunto é passado e todo aquele mimimi proposital de prostituta perdedora!”

– Hein?

– Pois é. Tentamos o código da Vinci. Análise combinatória. Numerologia. Sexo tântrico. Nada. E há duas palavras que, de tão repetidas em outros textos podem ser uma pista: grobo e jean willians. Só que não constam de nenhum dicionário.

– E você tem certeza que esse é o Líder?

– Total. Esta semana ele cortou o tuíter do pai dele, e olha que isso, nessa civilização, é a suprema forma de poder..

– E se a gente ignorar as letras e prestar atenção só às aspas e exclamações, que parecem ser o mais importante?

– Aí vamos ter que reprogramar os computadores. Mais 5000 anos, no mínimo.

– Qual é o cargo dele mesmo?

– Vereador. Parece ser o topo da cadeia alimentar na política local. Abaixo dele vêm o presidente, os irmãos, o vice, os ministros, senadores, deputados, prefeito, youtubers e astrólogo. Não, acho que astrólogo fica noutro organograma.

– Já tentou decifrar o astrólogo?

– Quase. Falta decodificar cu, caraio, kant da vaquinha e carta capetal.

– Está pensando o mesmo que eu, Krog?

– Sim, Gork. Voltar a investir no Dilmês em portunhol. Era mais fácil.

– Tem também a linguagem telepática dos microorganismos do mar congelado de metano nas profundezas de Netuno. De repente…

– Afivela o cinto e retorna a poltrona à posição vertical, Gork. Netuno, aqui vamos nós!

 

(publicado originalmente em 25 de abril de 2019)