Tensão pré-voto

rosa

Hoje é dia de tensão. Tem voto da Rosa Weber.

“Da cabeça de juiz, da barriga de grávida e da bunda de neném, nunca se sabe o que vai sair”, dizia-se antigamente, antes da invenção do ultrassom. Permaneceram enigmas a cabeça de juiz e a bunda do neném. Mas depende do juiz – e do neném.

Sem citar nomes, alguém tem dúvida de qual será o voto do Gilmar? Ou do Ricardo (nome fictício, para preservar a identidade do Lewandowski)?

Já o voto da Rosa é um mistério. Talvez até para ela mesma. É um voto que não nasce voto: torna-se voto. Vai sendo construído à la Ricky Martin: un pasito pa d’lante, un pasito pa trás.

O voto dela é um imenso prolegômeno. Um prefácio mais comprido que o livro. Uma transa na qual as preliminares duram tanto que você já acendeu o cigarro, já perguntou se foi bom, já ligou no dia seguinte, já inventou uma desculpa para não encontrar de novo e a pessoa ainda está lá, tentando abrir o fecheclér.

É sempre um voto embasado, consistente, equilibrado. Tão equilibrado que, até chamarem o VAR, não dá pra saber se foi w.o., nocaute ou impedimento.

Deve ser culpa do sobrenome. Rosa pensa em alemão, com aquelas frases imensas em que já foram usados todos os substantivos, adjetivos, advérbios, pronomes, conjunções aditivas, adversativas, concessivas, conformativas – e nada de chegar no verbo.

Rosa tem plena consciência de que é o fiel da balança. Que é a bendita ignição que sempre engasga no filme de terror – se ligar, a mocinha se safa; se falhar mais uma vez, o psicopata de machadinha ensanguentada na mão faz a festa. E até as luzes se acenderem e começarem varrer a pipoca do chão, a gente nunca sabe de que lado ela estava.

Votação no Supremo tinha que ser como no Programa Sílvio Santos: o juiz fica numa cabine à prova de som e o apresentador pergunta:

– Vossa excelência troca este lindo conjunto de jantar de fórmica vermelha por uma bala 7 belo de framboesa?

– Siiiiiiiiiim!

– E põe na rua centenas de estelionatários, trapaceiros, escroques, gatunos, vigaristas e facínoras para poder tirar um certo ex-presidente da prisão?

– Nãããããão!

Pronto. Em 5 minutos cada um dos 11 ministros já estaria desembrulhando sua 7 belo e conversando amenidades, enquanto o país voltava à programação normal.

Mas não. A partir das 2 da tarde de hoje, lá vamos nós prender a respiração. E não por causa do que possa sair do bumbum do bebê, mas da cabeça da juíza.

Juízo, Rosa. Juízo. E que São Rivotril nos ajude a esperar pelo final do voto.

 

Anúncios

Figuras mitológicas e onde bebem

bromance

São Paulo tem um bar g0y.
Não sei como se pronuncia esse zero aí entre o G e o Y
Leio como se fosse gói, que é modo de os judeus se referirem aos não-judeus (ou gentios, que é o mais gentil dos pejorativos).

G0y é o sujeito que gosta de homem mas não é gay.
G0ys gostam de se pegar, mas na base da broderagem.

Rola muito em academia: o cara não aperta a mão do outro: vai logo no peitoral. E pega como se estivesse sovando pão, sabe como? Pega com pegada. Mas sem desejo.
Não é por se aproximar do Nirvana quando o suor da testa de um pinga na nuca do outro que vão trocar postagens fofas no dia 12 de junho. Não vão dormir de conchinha, ajustar reciprocamente os nós das respectivas gravatas, pedir para esfregar as costas na hora do banho, roçar joelhos no cinema.
Eca.

O g0y gosta de cachorro quente, mas sem a salsicha, se é que vocês entendem a sutileza da metáfora. É só pão e ketchup. A batata palha é opcional.

Existe também o h0mem (como nos captchas e nas malditas placas padrão Mercosul, isso aí é um zero perdido no meio das letras).

O h0mem, descobri esta semana, não pega na cintura da mulher ao lado na hora da foto. Pega no ombro. Porque abraçar pela cintura é uma espécie de abuso, quase estupro.

Isso não fui eu que inventei: está num blogue de uma feminista, cujo nome não vem ao caso porque não endossar tudo que uma feminista diga é coisa de macho nojento (o antípoda do h0mem).

O h0mem é a versão 2.0, revista e melhorada, do antigo macho opressor, só que agora sem macheza ou opressão.
É o macho escroto desconstruído, repaginado, desossado, descarnado, pasteurizado, lavado a seco e enxaguado com Comfort.

Ele ama as mulheres da mesma forma que um g0y ama outro: de igual pra igual e, se possível, sem sexo tal como o conhecemos.
Não me pergunte como é esse tal sexo sem papéis sexuais, porque eu sou modelo 1959 e não vim com esses opcionais de fábrica.

Esse novo h0mem também é chamado de homão da porra.
Ele lava, passa, cozinha, caseia, chuleia e prega botão.
Carrega o bebê amarrado ao corpo naquela tipoia (o nome técnico é sling) e usa vocabulárie neutre para combater e machisme estrutural de idiome.

Ele não precisa ser aquele macho estereotipado que conhecemos em casa, no trabalho. Nada a ver com seu pai, seu marido, seu irmão, você.
Ele pode passar hidratante no cotovelo, usar máscara facial de camomila, chorar em filme com a Jennifer Aniston e tomar sol de bruços sem que isso abale sua masculinidade.

Ele não acha mulher feia, porque é machismo, nem bonita, porque é objetificação.
Nem gorda, porque é gordofobia, nem magra, porque é submissão à ditadura da beleza.
Ele simplesmente não acha mulher, eu acho.

Breve abrirá (certamente em São Paulo) um bar para esse tipo de h0mem tomar cerveja sem álcool ou uísque artesanal (tem de maracujá com hortelã, de groselha e de gengibre) com os amigos depois do expediente – todos com os respectivos bebês envelopados junto ao corpo com o sling de fibras naturais sem tingimento e produzido sem exploração animal.

Tem também o esquerdist@, que acredita que o futuro da humanidade dependa da solidariedade entre os povos e do fim do capitalismo, mas não aceita ser confundido com petista, bolchevique, bolivariano e algum genocida do bem. Ele não tem preconceito de sexo (até porque sexo não existe, é gênero que chama), de raça (somos todos iguais, respeitada a escala Pantone na escalação de elenco para interpretar personagens da vida real) ou de origem social (trata a empregada como se fosse da família e cumprimenta o porteiro – o… o… como é mesmo o nome dele?).

Ao contrário do esquerdista, que apoia Lula cegamente, o esquerdist@ faz ressalvas ao PT, por ter andado naquelas más companhias. Não fosse isso, não teria havido mensalão, petrolão, lavajato, serjomoro, nenhum desses infortúnios. O esquerdist@ não entra no mérito se Lula é inocente ou culpado (o problema foram as más companhias, lembra?), mas enfatiza que não houve um julgamento justo e imparcial (tipo assim, feito pelo Gilmar, o Toffoli e o Lewandowski).

O esquerdist@ é crítico em relação à situação da Venezuela (nada disso estaria acontecendo se não fosse o bloqueio estadunidense, e tem gente que se joga na frente dos tanques só para depois postar no insta). Acha que o golpe de 2016 poderia ter sido evitado (o machismo estrutural é que não foi devidamente problematizado na época) e que é claro que não dá para comparar Bolsonaro a Hitler e Mussolini, porque não tinha whatsapp naquela época, e o whatsapp tornou o fascismo alemão e o nazismo italiano um rascunho desta arte final que estamos vivendo agora.

Nem todo esquerdist@ não performador da heteronormatividade é g0y (ele, inclusive, acha que o g0y é o isentão, o inocente inútil do movimento LGBTQ+). Mas certamente é h0mem, se for do gênero anteriormente conhecido como masculino.

O esquerdist@ acha justo linchar quem discorde dele, porque o ódio do bem é um conceito que suas vítimas não têm lugar de fala para contestar. Ele não em problemas com ironia – apenas acha que trata-se de uma espécie de argumento de autoridade disfarçado, e se recusa a compactuar com o senso de humor, que é o último refúgio da elite.

Qualquer hora dessas, o UOL vai informar que foi aberto (adivinha onde?) um bar em que h0mens g0ys esquerdist@s possam se encontrar, se saudar com socos no peitoral (tomando cuidado para não acertar a pequena Maria Frida, encapsulada em seu sling de fibra de cânhamo), tomar café descafeinado e discutir o socialismo democrático e novas estratégias para tirar Lula da cadeia, depois que nem ONU nem o papa nem o ráquer russo deram jeito.

Haverá na parede ao fundo, entre a foto da girafa sem pescoço e do unicórnio sem chifre, um alvo com a cara do Celso de Mello, para o jogo de dardos.

Chuchu

chuchu_feira

Numa peça, o Miguel Falabella disse que a pera era o chuchu das frutas. Não me lembro de mais nada da peça – nem do título! – mas jamais esqueci a frase. Ou o conceito.

Ser chuchu é ser, sei lá, insípido, irrelevante, sem sal, sem graça. Algo entre o nada e o zero à esquerda, passando pelo conjunto vazio.

O chuchu não tem um perfume que nos lance vertiginosamente em busca do tempo perdido, um paladar que nos remeta a vidas passadas – ou, pelo menos à casa da avó.

Por ser uma hortaliça sem personalidade, pode se meter em qualquer receita que não altera o resultado.

Só tem gosto se o tomar emprestado a outro ingrediente. Pergunte ao camarão, que sente isso na carne.

O chuchu é o biscoito de polvilho do reino vegetal.
Parece ser composto de 90% de água e 10% de chuva, ou nem ser um legume, mas um quarto estado da água (até o seu tom de verde é aguado).

Não deve ser fácil ser chuchu, uma criatura que não fede e nem cheira, não diz a que veio, não faz nem desocupa a moita. De bacana, mesmo, só o nome (do franchês chouchou).

Toda família, toda categoria, tem seu chuchu.

A terça-feira é o chuchu dos dias da semana.
Urano é o chuchu dos planetas.
Março é o chuchu dos meses.
Ringo Starr era o chuchu dos Beatles.

Até os estados brasileiros têm seu chuchu – que é melhor não mencionar para não magoar os capixabas.

O chuchu é o antípoda da cereja, no sentido de algo ser “a cereja do bolo”. Ironicamente, boa parte das cerejas em calda que comemos é feita de chuchu.

Porque ele se presta a qualquer papel. Se mimetiza, é um Zelig, um camaleão – faz backing vocal, faz volume, enche linguiça, faz figuração.

Se fosse escritor, faria resenhas – ou crônicas no FB.
Compusesse, seriam músicas de elevador.

É um paradoxo que chamar alguém de chuchu não seja considerado uma ofensa. Chuchuzinho, então, tem um quê de ternura que beira o comovente.

Atordoado de amor, ninguém que tenha sido chamado de chuchu se sente comparado àquela coisa rombuda, rugosa, espinhenta, que brota em qualquer canto e dá em qualquer lugar.

Ser um chuchu se torna o exato oposto de ser um chuchu.
O chuchu é um oxímoro em si mesmo.

Toda dupla costuma ter pelo menos um chuchu.

O chuchu não é melhor nem pior – apenas é fundo, enquanto o parceiro é figura. Ele levanta pro outro cortar. Apoia mas não entra. Faz escada. Se apaga para que o outro brilhe. E como pensar um sem o outro?

O Roberto de Carvalho é o chuchu da Rita Lee.
O Júnior era o chuchu da Sandy.
O Dedé, o chuchu do Didi.
Frejat era o chuchu do Cazuza, mas mudou de categoria.

O Luciano é o chuchu do Zezé di Camargo.
O Garfunkel era o chuchu do Paul Simon.
O Watson, o chuchu do Sherlock.
O Toffoli, o chuchu do Lewandowski.

O Corsa – chuchu dos carros.
A Guiana – chuchu da América do Sul.
O bege – chuchu das cores.
O H – chuchu das letras.

Aquela fase dos 10 aos 14 anos, o chuchu das nossas vidas. Você não é mais criança, mas ainda não é adolescente. Já quer coisas que não pode, e só pode coisas que não quer.

O anular é o chuchu dos dedos.
O handebol é o chuchu dos esportes.
O romeno, o chuchu das línguas latinas.
E este, provavelmente, o chuchu dos meus textos.

 

(originalmente publicado em 19 de maio de 2018)