Abuse com moderação

abuso

– Bom dia, cidadão! Eu sou o Super-PL7596/17-Projeto-de-lei-que-dispõe-sobre-os-crimes-de-abuso-de-autoridade, e estou aqui para salvá-lo das autoridades abusivas!

– Obrigado, Super-PL7596/17, você é o meu herói. Seria desabusado da minha parte chamá-lo de Super-Abuso?

– Imagina! Vim para protegê-lo de juízes, promotores, procuradores, agentes policiais e profissionais de segurança pública. Use e abuse!

– Bom saber que alguém pensa em nós, pacatos cidadãos, que já estamos cansados das arbitrariedades dos corruptos e outros criminosos.

– Olha, cidadão, isto está fora do meu escopo. Meus superpoderes são para livrá-lo de eventuais abusos no combate ao crime, não do crime em si.

– Ah, sim. Isso é muito bom. Ninguém quer autoridades abusivas. É que pensei que você viesse me socorrer dos abusos de parlamentares corruptos, de políticos criminosos, que também são autoridades.

– Isso é com os juízes, promotores, procuradores, agentes policiais e profissionais de segurança pública – de quem eu estou te protegendo.

– Eles podem combater o crime; só não podem abusar, certo?

– Certo.

– E quem define o que é abusivo e o que é legal?

– A lei. Eles têm que fazer exatamente o que está na lei. Nem uma vírgula a mais.

– Podem interpretar a lei, pelo menos?

– A lei é lei e ponto. Pão pão, queijo queijo.

– Mas se é assim, não era melhor usar um aplicativo? Não precisava haver juízes, promotores, procuradores…

– Sim, mas sabe como é, né? A lei não é uma ciência exata; tem nuances, agravantes, atenuantes, zonas cinzentas…

– E…

– E se a lei for interpretada contra os corruptos e corruptores, é só me chamar que eu vou lá e cráu.

– E se for interpretada a favor dos corruptos?

– Bem, aí eu não posso fazer nada, porque está dentro da lei.

– Então você não está aqui para me proteger, Super-Abuso. Você, em última instância, está acobertando os…

– Desculpe, cidadão, mas tenho que salvar um investigado por falcatruas que está sendo vítima de uma atroz e vexatória condução coercitiva, com movimentação ostensiva e desproporcional de veículos e armamentos. Queira Deus que não haja algemas!

– Espere um pouco! Tirando os óculos, você me lembra uma velha conhecida minha, a Lei de Controle Social da Mídia, cuja louvável intenção era me defender dos abusos da liberdade de imprensa, e no entanto…

– Impressão sua, cidadão. Impressão sua. Fui!

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Escrito nas estrelas

Novela

Quando encontrar de novo a Gloria Perez, vou tomar coragem e propor parceria numa novela.

Já houve tramas na Turquia, no Marrocos, na Índia, mas eu queria ir mais longe.

Será, aparentemente, a velha história de amor impossível entre pessoas que se amam apesar de pertencer a mundos diferentes: a mocinha na Terra e o mocinho em Marte.

Quer dizer, mocinho, não: ETzinho.

Vera Fischer será a protagonista, a terráquea Klaxya, que se apaixona pelo marciano Juca.

Mas não será uma paixão qualquer, porque Klaxya ficará literalmente sem ar ao se encontrar com Juca (a atmosfera marciana é composta de 95% de dióxido de carbono, 3% nitrogênio e 1.6% argônio, o que desestabiliza até um mulherão como a Vera Fischer).

E Juca se sentirá esmagado na presença de Klaxya (não somente porque a Vera Fischer seja um mulherão, mas porque a massa da Terra é maior, e quanto maior a massa etc etc etc).

As famílias dos pombinhos (tem pombinho em Marte?), o Código Civil, a bancada evangélica e o Olavo de Carvalho não aprovam o casamento entre seres de espécies diferentes (a alienigenofobia ainda não foi criminalizada pelo STF), e tudo farão para separá-los e impedir sua união.

A vilã (Cristiane Torloni ou Susana Vieira, ainda não decidi), não aceita Vera Fischer como nora, porque acha que Vera é muito madura para o seu filho Juca (o marciano) que, claro, ainda é verde.

O merchã social abordará a contaminação de plutônio em Mercúrio (ou de mercúrio em Plutão, a decidir) e o búlim que sofrem os lunáticos apenas por viverem no mundo da Lua.

A trama teria como pano de fundo o fato de que, como o socialismo nunca deu certo em lugar nenhum da Terra, toda a esquerda resolveu ver se, quem sabe, na Lua a coisa funciona (afinal, tudo lá tem menos gravidade). E a Lava-Jato não chega lá (só a Lava-Foguete, cuja força-tarefa fica em Alfa Centauro, a 4 anos luz de distância, para tentar escapar do ráquer da Intercept).

E aí é que os lunáticos-raiz (São Jorge, o dragão e demais nativos) passam não só a conviver com a escassez de tudo (e olha que lá já não tinha nada!) como também se tornam vítimas de preconceito – ao ser confundidos com os lunáticos-nutella do Partido do Sol (P-Sol) e de outro partido que, a essa altura, já terá assumido suas reais intenções e trocado a estrelinha por um meteoro.

Juca (Eri Johnson em seu primeiro papel de protagonista), inicialmente lidera o MSL (Movimento dos Sem Lua) – apesar de sua família ser proprietária de um resort às margens no Mar da Tranquilidade e ele mesmo possuir um enorme luneno de frente para a carcaça da Apolo 11 (a Vieira Souto da Lua).

Mesmo sendo marciano (nascido um planeta naturalmente vermelho), Juca é um liberal e denuncia as fraudes do programa Minha Cratera Minha Vida e as condições desumanas (e desextraterrestres) dos ETs enviados pelo governo vermelho de Marte para trabalhar em regime de semiescravidão no programa Mais Alienígenas.

Para alívio cômico, haverá um núcleo suburbano que mora na comunidade de Nova Varginha, em Urano, e vive do contrabando de anéis de Saturno e camisas de Vênus.

Miguel Falabella e André Gabeh (estreando em novelas) estarão nesse núcleo (o mais incandescente da trama), e vão popularizar o bordão “Pelas barbas de Netuno!”

Todo final de capítulo Klaxya ligará para Juca e ficaremos ansiosos para saber se ela está fazendo uma declaração de amor (“Irei amar-te!”) ou avisando que está pegando o próximo ônibus espacial (“Irei a Marte!”).

O destino do casal está escrito nas estrelas (a música tema será esta mesma, na voz da Tetê Espíndola), mas até o último momento nenhuma astróloga conseguirá prever se há compatibilidade entre os dois, já que Klaxya é de Touro (signo de elemento Terra, com Lua em Marte) e Juca é de Spock (signo de elemento Marte, com Fobos em Terra).

A Globo vai precisar construir uma galáxia cenográfica no Projac, mas não tenho dúvida de que haverá uma fila de astros e estrelas querendo participar da trama e que o ibope será estratosférico.

Eu já fiz a a minha parte, a mais difícil, que é dar a ideia. Sinopse, escaletas, minutagem, 30 laudas diárias – que é mamão com açúcar – isso aí já é com a Glória.

Loop, segundo tempo

Loop 2

Com o empate no tempo regulamentar e na prorrogação, o jogo entre Lula F.C. e o Clube de Regatas L.J. vai para a disputa nos pênaltis.

O goleiro Sérgio Fernando, titular absoluto da L.J. se posiciona. Quem vai bater é Cristiano.

Lá vem Cristiano e… Fora! Cristiano chuta para fora, senhores!

Cristiano reclama com o juiz, diz que o apito tirou sua concentração e pede para bater de novo.

O juiz concede, e lá vai Cristiano – agora sem o apito.

Sérgio Fernando esfrega as mãos, Cristiano corre, dá uma paradinha e… bola na trave!

A torcida da L.J. comemora, mas a comissão técnica do L.F.C. exige que a cobrança seja feita novamente, porque a paradinha de Cristiano atrapalhou sua performance.

O árbitro acata, e lá vai Cristiano em sua terceira tentativa. Toma distância, dá uma bicuda e… Sérgio Fernando espalma com categoria.

Parece que… não, Cristiano exige bater outra vez porque Sérgio Fernando teria adivinhado o ângulo e defendido por pura sorte. Exige uma melhor de três.

O juiz informa que essa já foi a terceira cobrança perdida, mas Cristiano e a torcida da L.F.C. não se dão por vencidos. Apesar de ser uma partida do campeonato local, ameaçam recorrer à à Conmebol e à Fifa.

Nova cobrança é autorizada. Cristiano toma distância, enche o pé, mas Sérgio Fernando é um muro no gol e agarra.

Fim de jogo, amigos do esporte! L.J. é a camp… Não, ainda não. A L.F.C. exige que o árbitro consulte o VAR, porque Sérgio Fernando teria dado um passo para trás e a bola teria ultrapassado a linha.

O árbitro consulta o vídeo. Vamos aguardar seu veredito.

Volta o árbitro, e informa que apenas o calcanhar do goleiro Sérgio Fenando tocou a linha. A bola não entrou.

Cristiano e a comissão técnica cercam o juiz, argumentando que o árbitro de vídeo foi parcial, que a tecnologia não é confiável, que todo o campeonato deve ser anulado e o goleiro Sérgio Fernando suspenso.

Muita tensão no estádio, senhores, com a torcida do L.F.C. subindo no alambrado e ameaçando invadir o gramado.

A proposta apresentada pelos dirigentes do L.F.C. é que Cristiano continue batendo pênaltis indefinidamente, até a bola entrar. Enquanto isso não acontecer, a cobrança não terá validade.

Há um confronto generalizado nas arquibancadas, com as duas torcidas se engalfinhando. A PM se protege no fosso e pede reforços.

O técnico do L.F.C. tenta impugnar a bola, a grama, o tom de branco das linhas de marcação da grande área, a iluminação, a acústica e a localização do estádio, além de apresentar nudes do goleiro Sérgio Fernando, feitos com uma cam escondida no vestiário.

Sérgio Fernando aguarda o desenrolar dos acontecimentos encostado na trave e parece murmurar algo como “Om Mani Padme Hum” – ou “PQP MQGCDC”, segundo nossos especialistas em leitura labial.

Vão ser retomadas as cobranças. E, segundo as regras impostas pelo L.F.C, enquanto a bola não entrar, não vale.

Pode isso, Arnaldo?

Loop

loop

Eles venceram.

Moro extrapolou, as conversas eram mais impróprias que os filmes do Alexandre Frota e a Lava-Jato deve ser anulada. De ponta a ponta.

Agora o desafio é arcar com as consequências dessa irresponsabilidade que foi tentar investigar e punir a corrupção no Brasil.

Logo após a soltura de Lula, o prédio da Polícia Federal em Curitiba deverá ser implodido para que se erga no lugar um Memorial à Maracutaia. A contratação da obra será feita mediante licitação fraudulenta da qual participarão apenas empresas que já tenham combinado seus preços e garantido 10% para o caixa 2 das próximas eleições.

Lula terá que ser indenizado. Não pelo tempo que passou preso, mas pelos livros que foi obrigado a ler para obter redução da pena, e pela abstinência etílica forçada. Os artistas que foram em romaria reverenciá-lo e os jornalistas que se viram obrigados a se deslocar até Curitiba para as entrevistas terão suas despesas ressarcidas pelo erário. Mais os danos morais.

Todo o dinheiro devolvido à Petrobras e aos cofres públicos terá que ser reembolsado aos que o desviaram. Com juros e correção – e sem descontar a tarifa do TED.

As eleições de 2018 serão anuladas. Lula assumirá automaticamente, já que a Lava-Jato (como se comprovou com as gravações interceptadas) só foi criada para impedir sua vitória estrondosa nas urnas.

O Brasil repatriará todos os imigrantes venezuelanos que vieram para Roraima atraídos pela ditadura do Bolsonaro, e fornecerá tanques para ajudar a combater a miséria que o bloqueio estadunidense causou ao país vizinho. Poderá criar também uma moeda única com a Venezuela, o Bolívar Realmente Soberano, trazendo Maduro de volta ao Mercosul, e firmando um acordo de livre comércio com a Rússia.

As armas não serão liberadas, e o país voltará a ter índice de criminalidade zero, como era nos governos do PT.

Será providenciada a importação de milhares de desneuralizadores, aquelas máquinas acionadas pelos Homens de Preto para apagar a memória. Assim, será possível voltar a viver como em 2018, sem ter a menor ideia de quem venham a ser Damares, Vélez, Weintraub, Ernesto Araújo, 01, 02 e 03. E que seja possível comer pão com leite moça.

Jorrará petróleo do pré-sal em volume suficiente para encher os canais da transposição do São Francisco (era para isso que estavam sendo construídos, por isso a água não foi desviada para lá). Tudo será refinado em Pasadena, produzindo gasolina aditivada com ferrugem, a ser exportada para o Irã através do porto de Mariel, em Cuba, gerando divisas suficientes para pagar os adevogados e bancar os militantes virtuais.

Jean Wyllys retornará do exílio (afinal, o Brasil deixará de ser uma ditadura fascista), se tornará líder do governo na Câmara. Consequentemente, o marido do Greenwald perderá o mandato. Greenwald ficará muito puto com isso e admitirá que foi tudo uma armação (em desabafo no zap, raqueado pelo Antagonista).

Com o escândalo do Vaza-Glenn, a Lava-Jato ressuscita, implodem o Memorial da Maracutaia, reconstroem a Polícia Federal de Curitiba, Lula volta pra cadeia e o Brasil retorna à programação normal, exatamente do ponto onde parou.

A não ser que o Greenwald resolva processar o Antagonista por ter violado seu sigilo telefônico, e aí a gente implode de novo a PF, reergue o Memorial da Maracutaia (com superfaturamento) e continua andando em círculos, em moto perpétuo.

Quando acabar a paciência – ou o PIB, o que vier primeiro – a gente decide nos pênaltis.