O dia em que Carlos salvou o planeta

Planeta

– Krog, nossos computadores finalmente conseguiram decifrar parte da linguagem dos habitantes daquele planeta que vamos invadir.

– Aleluia! Já estamos há quase 5000 anos nisso, e o governo estava a ponto de cortar a verba.

– O problema é que… não dá para entender nada.

– Como assim, nós deciframos ou não deciframos?

– Decifrar é uma coisa. Entender é outro departamento.

– Mas você cruzou todos os dados, Grok?

– Sim. Veja essa mensagem: “O que se vê desde a época da transição é um “interesse” “crocodilal” em situações desnecessárias.”

– Hã?

– Sabemos o que é cada uma das palavras isoladamente (exceto crocodilal). Mas elas não fazem nenhum sentido. E ainda tem essas coisas voando em torno de algumas palavras, que eles chamam de aspas. Devem estar aqui por engano.

– Tem certeza que não é um código secreto?

– É nossa suspeita. Veja este outro: “Quando a única coisa que lhe resta é o último suspiro de vida, surgem estas pérolas que mostram muito mais do que palavras ao vento, mas algo que já acontece há muito. O quanto querer ser livre e independente parece ser a maior crueldade para alguns.”

– Não será um poema? Terráqueos fazem poemas.

– Analisamos dois milhões de poemas, e isso não pode ser classificado como tal.

– Música do Carinhos Brown? Papo de bêbado? Voto da Rosa Weber?

– Também não. O estilo não confere.

– A chave poderia ser esta, ó: “Jamais podemos deixar de lembrar deste fato, mesmo que a lacrosfera e a isentosfera digam que este assunto é passado e todo aquele mimimi proposital de prostituta perdedora!”

– Hein?

– Pois é. Tentamos o código da Vinci. Análise combinatória. Numerologia. Sexo tântrico. Nada. E há duas palavras que, de tão repetidas em outros textos podem ser uma pista: grobo e jean willians. Só que não constam de nenhum dicionário.

– E você tem certeza que esse é o Líder?

– Total. Esta semana ele cortou o tuíter do pai dele, e olha que isso, nessa civilização, é a suprema forma de poder..

– E se a gente ignorar as letras e prestar atenção só às aspas e exclamações, que parecem ser o mais importante?

– Aí vamos ter que reprogramar os computadores. Mais 5000 anos, no mínimo.

– Qual é o cargo dele mesmo?

– Vereador. Parece ser o topo da cadeia alimentar na política local. Abaixo dele vêm o presidente, os irmãos, o vice, os ministros, senadores, deputados, prefeito, youtubers e astrólogo. Não, acho que astrólogo fica noutro organograma.

– Já tentou decifrar o astrólogo?

– Quase. Falta decodificar cu, caraio, kant da vaquinha e carta capetal.

– Está pensando o mesmo que eu, Krog?

– Sim, Gork. Voltar a investir no Dilmês em portunhol. Era mais fácil.

– Tem também a linguagem telepática dos microorganismos do mar congelado de metano nas profundezas de Netuno. De repente…

– Afivela o cinto e retorna a poltrona à posição vertical, Gork. Netuno, aqui vamos nós!

 

(publicado originalmente em 25 de abril de 2019)

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Intercept-ação

intercept

– Alô.

– Bom dia, o senhor…. Affonso, por favor.

– Sou eu. Quem fala?

– Aqui é o ráquer da Intercept, uma premiada agência de notícias dedicada à responsabilização dos poderosos por meio de um jornalismo destemido e combativo, com investigações aprofundadas e análises implacáveis, que tem por objetivo expor a corrupção e a injustiça onde quer que as encontrem, tudo bem com o senhor?

– Sim.

– Então, eu estive raqueando seus aparelhos celulares, lepitopes, o servidor do seu escritório, seus agadês externos, os pendraives que o senhor guarda na gaveta de cima do aparador e os disquetes que estão encaixotados junto com as fitas cassete porque o senhor esqueceu de salvar o conteúdo deles em CD e nem tem mais equipamento para abri-los, mas guarda assim mesmo, e eu queria tirar algumas dúvidas com o senhor.

– Como assim?

– Outro dia no zap o senhor comentou, no grupo de família: “o problema é que moro num condomínio muito barulhento”. O que o senhor quis dizer foi que o ministro Moro faz muito barulho por nada, é isso?

– Não, era “moro” do verbo morar, e eu me referia ao baile fanque que rola na churrasqueira e à vizinha que arrasta móveis.

– Pena. Mas tem uma postagem sua no feicebuque, em 2012, em que o senhor menciona a emoção de ter passado “em frente à casa do Dalton, o vampiro de Curitiba”. O senhor se referia ao Deltan, o procurador vampiro da Lava Jato, certo?

– Não, era ao Dalton Trevisan mesmo. Já conhecia a casa dele de fotografia, e um dia, sem querer me vi diante dela e a reconheci, e aí…

– Ok, ok, esquece. Num comentário no Orkut, em 2005, na comunidade “Mi español es fueda” o senhor escreveu “Jo atcho una vesteyra ussar deçodorante varato porqué la ñaca solo bay ficar peor”, o senhor aludia a algum conluio da República de Curitiba para, em sua sanha punitivista, tirar a liberdade de inocentes como o Marcos Valério, Delúbio, Genoíno e Dirceu, né?

– Aquilo era só uma vrincadera, quer dizer, uma brincadeira.

– Droga! Outrossim, vale ressaltar que eu preciso alertá-lo para um super like que o senhor recebeu agora há pouco no Tinder.

– Mas eu não tenho Tinder.

– Tem sim, que eu sei.

– Quer dizer, eu tinha, mas desativei. Foi um momento de fraqueza no 12 de junho de 2014, quando eu…

– Não precisa se explicar. Apenas ignore, tá? Fui eu que dei o super like por engano. Quando vi a foto, achei que era o Freixo.