Seres fictícios

Seres ficticios

“Pela invasão do meu celular e pelas mensagens enviadas, imaginei que se tratasse de alguma armadilha montada por meus adversários políticos. Por isso, apesar de ser jornalista e por estar apta a produzir matérias com sigilo de fonte, repassei ao invasor do meu celular o contato do reconhecido e renomado jornalista investigativo Glenn Greenwald. ” (Manuela D’Ávila, ex-deputada pelo PC do B e ex-candidata a vice-presidente da república)

Eu também sou assim.
Quando meu telefone é invadido, eu repasso ao invasor o contato de algum reconhecido e renomado jornalista investigativo, em vez de avisar à polícia e à operadora.

E se eu fosse um reconhecido e renomado jornalista investigativo, divulgaria de forma seletiva apenas aquilo que pudesse ser do interesse do meu partido, sem questionar se a informação fora obtida por meios lícitos e, claro, sem oferecer nada em troca, além do anonimato – e da cortina de fumaça de a fonte ter sido um “whistle blower” (é impossível aportuguesar isto, por enquanto).

O araponga de Araraquara raqueou por esporte o ministro do STF Alexandre de Moraes, o ministro Sergio Moro, os ex presidentes Lula e Dilma, o ex-governador Pezão, o ex Procurador-Geral da República Rodrigo Janot, o procurador Deltan Dallagnol e outros menos votados (mais ou menos umas mil pessoas). E repassou, graciosamente, as conversas que considerou “de interesse público” – que eram (vejam só!) só as da tchurma da Lava-Jato.

Eu também, se fosse um sujeito sem ocupação definida, com seis processos na Justiça por crimes de estelionato, furto qualificado, apropriação indébita e tráfico de drogas (com duas condenações) e tivesse em mãos um material desses, entregaria as informações em nome do interesse público, sem pedir nada em troca.

Afinal, mesmo para quem vive de golpes, o dinheiro não é tudo. Onde é que ficam o altruísmo, o idealismo, o senso de dever cívico?

Não sei como alguém consegue ver algo de errado nisso tudo.

Deve ser porque não estamos acostumados a ráquers golpistas patriotas, deputadas sensatas e gentis, e jornalistas investigativos escrupulosos.

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Deepfake

Carey

Se vazarem nudes meus no zape, já sabem: é fotoxope.

Mesmo que seja eu, cuspido e escarrado, negarei até a morte (e enviarei postagens psicografadas do Além – caso haja Além, e uaifai no Além – negando até depois de morto).

Parece comigo, mas não sou eu. É montagem. Olha esses pneus, esse nariz idêntico ao meu, mas é o Al Pacino, é o Cyrano de Bergerac, é a Barbra Streisand. É, eu sei, a Barbra Streisand não tem essa monocelha e essas orelhas felpudas, mas quem garante que ela não fica assim nas sextas-feiras?

Qualquer imagem comprometedora que vazasse, a gente podia negar as aparências, disfarçar as evidências e viver fingindo que era tudo fotoxope. Não havia provas. Era gópi.

Mas e quando surgissem vídeos? Você e três travestis entrincheirados numa jacuze do Vip’s, sem que fosse possível distinguir o que era de quem – como apelar para o “não é nada disso que você está pensando” sem piorar ainda mais a situação?

Seus problemas acabaram!

Pode levar quem quiser para a jacuze (menos a do Vip’s, que fechou, e a do Holiday, que infelizmente continua em obras) e deixar filmar à vontade. Se a “ménage à trente trois” cair na rede, é só dizer que é dipifeique.

Para quem chegou agora ao planeta, dipifeique é um aplicativo que usa (e abusa) da inteligência artificial para trocar o rosto (e, em breve, outras partes da anatomia) em vídeos.

Mais ou menos o que foi feito na suposta suruba do Dória, só que na ocasião a trucagem ainda era tosca demais para ser levada a sério.

Agora, quem não gostou muito da performance do Schwarzenegger no “Exterminador do Futuro” pode confirmar que ficaria ainda pior com o Stallone (veja os linques abaixo). Quem achou que o Jack Nicholson era imbatível em “O iluminado” pode se surpreender ao descobrir que Jim Carrey até que daria um caldo ali.

A dipifeique está para o “vazou na internet” assim como a pílula esteve para a revolução sexual. Nada será como antes.

O Intercept poderá receber gratuitamente de algum ráquer imparcial e desinteressado um monte de vídeos da Dilma dizendo coisas compreensíveis – e até razoáveis. E de forma tão convincente que a próxima geração tenderá a achar que os feiques eram aqueles em que ela afirmava que o meio ambiente era uma ameaça ao desenvolvimento sustentável, que a autossuficiência do Brasil sempre foi insuficiente, que a inflação foi uma conquista do presidente Lula, que atrás da criança tem a figura de um cachorro etc.

O falso parecerá mais verdadeiro que a verdade. O simulacro será mais verossímil que o real. E ninguém (a não ser você e as trinta e três travestis) jamais saberá o que realmente se passou naquela noite em que você beijou na boca de quem não devia, pegou na mão (ou sabe-se lá em que outra extremidade) de quem não conhecia, dançou até o chão em traje de maiô – e nem por isso a sua reputação se acabou.

O dipifeique veio para mostrar que São Tomé, se ainda fosse vivo, além de velho pra caramba, ainda estaria lascado. Não é preciso mais ver para crer: é preciso descrer de tudo. Da imagem, da voz, da cena. Nossos sentidos nunca nos enganaram tanto.

E se algum velho timbira garantir “Meninos, eu vi”, duvide. Não era eu. Eu jamais faria aquilo. Não naquela posição. Minha coluna não aguenta. Eu não ia correr riscos desnecessários numa jacuze escorregadia como a do Vip’s. Ainda mais numa água fria daquele jeito e com os sais de banho que deixaram meu cabelo esverdeado por três dias.

Não era eu mesmo.
Era dipifeique.

Juro pela inocência do Lula como era.

 


 

Sylvester Stallone em Exterminador do futuro 2

Sylvester Stallone em Exterminador do futuro 2 – trecho 2

Jim Carrey em O iluminado

 

Intercept-ação

intercept

– Alô.

– Bom dia, o senhor…. Affonso, por favor.

– Sou eu. Quem fala?

– Aqui é o ráquer da Intercept, uma premiada agência de notícias dedicada à responsabilização dos poderosos por meio de um jornalismo destemido e combativo, com investigações aprofundadas e análises implacáveis, que tem por objetivo expor a corrupção e a injustiça onde quer que as encontrem, tudo bem com o senhor?

– Sim.

– Então, eu estive raqueando seus aparelhos celulares, lepitopes, o servidor do seu escritório, seus agadês externos, os pendraives que o senhor guarda na gaveta de cima do aparador e os disquetes que estão encaixotados junto com as fitas cassete porque o senhor esqueceu de salvar o conteúdo deles em CD e nem tem mais equipamento para abri-los, mas guarda assim mesmo, e eu queria tirar algumas dúvidas com o senhor.

– Como assim?

– Outro dia no zap o senhor comentou, no grupo de família: “o problema é que moro num condomínio muito barulhento”. O que o senhor quis dizer foi que o ministro Moro faz muito barulho por nada, é isso?

– Não, era “moro” do verbo morar, e eu me referia ao baile fanque que rola na churrasqueira e à vizinha que arrasta móveis.

– Pena. Mas tem uma postagem sua no feicebuque, em 2012, em que o senhor menciona a emoção de ter passado “em frente à casa do Dalton, o vampiro de Curitiba”. O senhor se referia ao Deltan, o procurador vampiro da Lava Jato, certo?

– Não, era ao Dalton Trevisan mesmo. Já conhecia a casa dele de fotografia, e um dia, sem querer me vi diante dela e a reconheci, e aí…

– Ok, ok, esquece. Num comentário no Orkut, em 2005, na comunidade “Mi español es fueda” o senhor escreveu “Jo atcho una vesteyra ussar deçodorante varato porqué la ñaca solo bay ficar peor”, o senhor aludia a algum conluio da República de Curitiba para, em sua sanha punitivista, tirar a liberdade de inocentes como o Marcos Valério, Delúbio, Genoíno e Dirceu, né?

– Aquilo era só uma vrincadera, quer dizer, uma brincadeira.

– Droga! Outrossim, vale ressaltar que eu preciso alertá-lo para um super like que o senhor recebeu agora há pouco no Tinder.

– Mas eu não tenho Tinder.

– Tem sim, que eu sei.

– Quer dizer, eu tinha, mas desativei. Foi um momento de fraqueza no 12 de junho de 2014, quando eu…

– Não precisa se explicar. Apenas ignore, tá? Fui eu que dei o super like por engano. Quando vi a foto, achei que era o Freixo.