Pequi

Pequi

“Pesquisadores criam pequi sem espinhos.”

É o fim da picada. Quer dizer, da espetada. Na língua, nas bochechas, no céu da boca.

O pequi não é uma fruta: é um ouriço, um porco espinho, revestido com uma tênue polpa perigosamente comestível.

Pequi sem espinho faz tanto sentido quanto uma hemorragia sem sangue. Um quadrúpede de duas patas. Um ataque cardíaco no fígado.

Desprovido de sua essência, o pequi deixa de ser uma armadilha vegetal, uma mina terrestre da flora, para se tornar um fruto. Qual a graça disso?

Quem vai querer andar numa roda gigante em linha reta, parada no chão?  Num trem fantasma com as luzes acesas e sorridentes personagens da Disney acenando em cada curva? Para que serve um casamento sem ciúme, sem cobrança, sem passivo-agressividade, sem calcinha pendurada no box, sem o protocolar sexo conjugal das sextas-feiras, sem mensagens apagadas no celular?

Quem tirou o espinho do pequi roubou sua alma, sua razão de ser.

O que virá a seguir? A melancia sem semente? O abacaxi com casca de mexerica? A mini jaca de odor agradável? A tiririca fácil de arrancar?

Gente, esse pessoal da Emater está brincando de Deus, está extrapolando. Sua missão era criar milho híbrido e espécies resistentes a pragas. Pronto. Melhorar a produtividade, e só. Não era fazer reengenharia da natureza, retrofite no reino vegetal, criar monstros.

O pequi sem caroço arruína a educação infantil em grande parte do país.

Só há crianças obedientes em Goiás e no norte de Minas porque um dia ousaram não dar ouvidos à mãe, que disse, ao primeiro pequi: “Não morde que tem espinho”. E morderam. E sentiram na alma o poder da ira divina, e estiveram diante daquele olhar que iguala todas as mães, o do “Eu avisei, não avisei?”.

Sem o pequi, seríamos uma horda de vândalos, cravando os dentes em tudo que passasse pela frente, sem distinguir o Bem do Mal, o inócuo do letal, o que pode pôr na boca e o pequi.

O pequi é pedagógico. É um ritual de passagem. Está para a espécie humana como o primeiro voo está para as aves, a primeira caçada para um crocodilo, a primeira mentira para alguém de esquerda. Algo se quebra ali. Algo é revelado. O ser – seja periquito, predador ou petista – entra em contato com sua essência.  Seus poderes e seus limites. Ao morder de leve, só tangenciando os dentes na polpa (“Bom menino!”) ou cravar os dentes (“Eu não avisei?”), o ser humano sela sua sorte e encontra sua bússola moral.

O que tem de bom na invenção desse pequi transgênico e bobo é que, finalmente, as pessoas vão parar de dizer coisas absurdas, como “o espinho do pequi”.  O espinho “é” o pequi. Aqueles dois milímetros amarelos que circundam o gigantesco núcleo espinhoso são uma camuflagem, uma isca.

Temo pelas novas gerações que terão que aprender a obedecer à mãe e à avó através de métodos menos efetivos que o “Não morde que tem espinho”. Vão morder. Não vai ter espinho. Nunca mais vão mais acreditar em nada que as matriarcas – repositório de todo o saber da espécie – digam. Serão uns bárbaros, uns celerados, uns descrentes na sabedoria dos mais velhos. Vão ser todos de esquerda, porque não vão levar a sério quando a avó contar, à beira do fogão, que o socialismo nunca deu certo. Afinal, ela disse também para não morder o pequi, eles morderam e não aconteceu nada.

O petista infiltrado na Emater (só pode ter sido um petista) terá conseguido o que Gramsci tentou em vão através dos livros: destruir a civilização ocidental.

Era o pequi que nos fazia respeitar os conselhos dos nossos ancestrais, e temer o castigo divino.

Guardem esta data:  8 de fevereiro de 2020.  O dia em que milhares de anos de processo civilizatório foram por água abaixo. E, como no caso das duplas sertanejas, o epicentro dessa catástrofe terá sido Goiás. Se alastrando rapidamente pelo norte de Minas, pegando parte de São Paulo, Tocantins, Bahia, Ceará.

Quem diria que o anticristo era um pesquisador da Emater…