Capicua

iemanja

Hoje, 2 de fevereiro, não é um dia qualquer.

É dia de Iemanjá, dia de festa no mar.

Dia de devoção a São Cornélio, a Santa Catarina de Ricci, a Santa Maria Domenica Mantovani e a São Nicolau de Longobardi.

Mas hoje não é um 2 de fevereiro como os outros. É 02/02/2020.

Uma data capicua – ou seja, se você preencher o cheque com a data de trás pra frente, o banco vai aceitar do mesmo jeito, e ninguém vai notar. Mas quem é que ainda preenche cheque?

Datas capicuas não são tão raras assim. Haverá outra daqui a dois anos e pouco, em 22/02/2022, quando Luciano Huck e Regina Duarte estiverem em plena campanha eleitoral para a presidência (ele pela coligação PT/PSOL/PSDB/MDB/Aliança e ela pelo recém criado PRD).

Apesar de ser uma capicua global (ou ex-global, porque Huck e Regina já terão tido seus contratos rescindidos) não será uma capicua global de verdade (os americanos colocam o mês antes do dia, lembra?).

Capicuas globais, pra valer, são poucas. A última foi em 11/11/1111 – essa, sim, uma capicuaça, porque a anterior tinha sido no Big Bang, em 00/00/0000. Mas ainda não existiam os Estados Unidos, os numerólogos não dispunham da internet para divulgar suas baboseiras, e o calendário gregoriano nem tinha sido inventado – logo o 11/11/1111 caiu em outra data, e não conta.

Antes desse, teve o 01/01/1010, que, apesar de ser o único capicua da história que caiu no reveiôn, também não vem ao caso, e pelos mesmos motivos acima expostos.

Data capicua no planeta inteiro, a primeira é hoje. Isso se excluirmos os judeus, os árabes, os norte-coreanos, alguns cristãos ortodoxos, os etíopes e os chineses, que têm calendário diferente.

Mas, enfim, não é um detalhe irrelevante desses (uns poucos bilhões de habitantes) que vai invalidar meu texto.

Uma data como 02/02/2020 só vai ter similar em 03/03/3030, quando (espera-se) já não haja mais dúvidas quanto ao aquecimento global (a humanidade terá se mudado para Marte, onde o clima será mais ameno) e os petistas terão começado a fazer uma autocrítica e, quem sabe, iniciado o processo de assimilação da vitória do Bolsonaro.

04/04/4040 passará batido, porque os arqueólogos alienígenas que fazem escavações na Terra usarão outro calendário. Aqui, eles buscarão encontrar respostas para as enigmáticas inscrições (#elenão, #globolixo, #foigolpe) encontradas nas ruínas da extinta civilização marciana.

Mas o que eu queria mesmo é falar dessa palavrinha linda, capicua. Ela vem do catalão cap (cabeça)+ cua (isso mesmo que você está pensando). “Cap i cua” quer dizer que tanto faz ser lido começando pela cabeça ou pela cauda.

O dia de amanhã será capicua daqui a dez anos, em 2030 (03/02/2030). Gilmar Mendes e Dias Toffoli ainda estarão no STF, e julgarão mais um habeas corpus do Lula. Regina Duarte estará em campanha pelo terceiro mandato, tendo Angélica como vice. Manuela e seu companheiro de chapa, Freixo, irão à missa, depois de terem virado a noite fazendo oferendas (flores, perfumes, duas estatais e um ministério) para Iemanjá.

Nas datas capicuas, recomenda-se cautela aos portadores de simetrofobia, que é o horror à simetria. Já aos assimetrifóbicos pede-se comemorar com moderação, porque a palavra capicua, por uma dessas ironias do destino, lida de trás pra frente é aucipac.

Mas se nem a palavra “palíndromo” é um palíndromo, por que capicua seria?

Tensão pré-voto

rosa

Hoje é dia de tensão. Tem voto da Rosa Weber.

“Da cabeça de juiz, da barriga de grávida e da bunda de neném, nunca se sabe o que vai sair”, dizia-se antigamente, antes da invenção do ultrassom. Permaneceram enigmas a cabeça de juiz e a bunda do neném. Mas depende do juiz – e do neném.

Sem citar nomes, alguém tem dúvida de qual será o voto do Gilmar? Ou do Ricardo (nome fictício, para preservar a identidade do Lewandowski)?

Já o voto da Rosa é um mistério. Talvez até para ela mesma. É um voto que não nasce voto: torna-se voto. Vai sendo construído à la Ricky Martin: un pasito pa d’lante, un pasito pa trás.

O voto dela é um imenso prolegômeno. Um prefácio mais comprido que o livro. Uma transa na qual as preliminares duram tanto que você já acendeu o cigarro, já perguntou se foi bom, já ligou no dia seguinte, já inventou uma desculpa para não encontrar de novo e a pessoa ainda está lá, tentando abrir o fecheclér.

É sempre um voto embasado, consistente, equilibrado. Tão equilibrado que, até chamarem o VAR, não dá pra saber se foi w.o., nocaute ou impedimento.

Deve ser culpa do sobrenome. Rosa pensa em alemão, com aquelas frases imensas em que já foram usados todos os substantivos, adjetivos, advérbios, pronomes, conjunções aditivas, adversativas, concessivas, conformativas – e nada de chegar no verbo.

Rosa tem plena consciência de que é o fiel da balança. Que é a bendita ignição que sempre engasga no filme de terror – se ligar, a mocinha se safa; se falhar mais uma vez, o psicopata de machadinha ensanguentada na mão faz a festa. E até as luzes se acenderem e começarem varrer a pipoca do chão, a gente nunca sabe de que lado ela estava.

Votação no Supremo tinha que ser como no Programa Sílvio Santos: o juiz fica numa cabine à prova de som e o apresentador pergunta:

– Vossa excelência troca este lindo conjunto de jantar de fórmica vermelha por uma bala 7 belo de framboesa?

– Siiiiiiiiiim!

– E põe na rua centenas de estelionatários, trapaceiros, escroques, gatunos, vigaristas e facínoras para poder tirar um certo ex-presidente da prisão?

– Nãããããão!

Pronto. Em 5 minutos cada um dos 11 ministros já estaria desembrulhando sua 7 belo e conversando amenidades, enquanto o país voltava à programação normal.

Mas não. A partir das 2 da tarde de hoje, lá vamos nós prender a respiração. E não por causa do que possa sair do bumbum do bebê, mas da cabeça da juíza.

Juízo, Rosa. Juízo. E que São Rivotril nos ajude a esperar pelo final do voto.

 

B.A. – Bloqueados Anônimos

bloqueados

Salão da casa paroquial.
Segunda-feira,
Sete da noite.

As cadeiras estão em círculo, num canto há uma mesa com água, chá e biscoitos.

Alex toma a palavra.

– Boa noite, meu nome é Alex…

– Boa noite, Alex! (todos, em uníssono)

– … e eu sou um bloqueado em recuperação. Estava já há dezessete dias limpo, mas tive uma recaída na quarta passada, comentei no mural do Paulo Henrique Amorim e…

– Paulo Henrique Amorim? Você pegou pesado, Alex!

– Pois é, não sei o que me deu. Depois que levei o block do José de Abreu…

– … você se comprometeu a só comentar em postagem de gente civilizada, lembra?

– Pois é, vacilei. Mas o cara tinha escrito uma coisa tão, mas tão, mas tão sem noção, que eu não resisti.

– Lembra da primeira regra do grupo, Alex?

– Sim, só argumentar em postagem de quem tenha argumento.

– Exato. Leia a postagem da pessoa. Se for argumentativa, argumente. Se for dogmática…

– Respiro fundo, ergo os olhos aos céus, peço que tenham piedade dessa alma desgarrada no Dia do Perfeito Juízo Final e sigo adiante.

– Muito bem, Alex.

– O problema é que isso me impede de comentar em qualquer postagem petista ou bolsonariana. E que graça tem argumentar com quem pense igual a mim?

– Boa questão, Alex. Alguém saberia responder?

– Oi, pessoal, eu sou a Regina…

– Boa noite, Regina (todos, em uníssono).

– Sabe, Alex, eu sou vegetariana. O que você passa com os bolsomínions e os petistas, eu passo com os churrasqueiros e os veganos.

– Um aparte, Regina. Meu nome é Geraldo e…

– (Em uníssono) Boa noite, Geraldo!

– … eu sou carnívoro e passo o mesmo nas páginas dos veganos e dos vegetarianos. Esta semana fui bloqueado por oito vegetarianos porque perguntei por que chamavam proteína vegetal de “carne” e por dezenove veganos por falar que o abate ético é melhor que nada.

– Gente, desculpe interromper, meu nome é Dora…

– (Em uníssono) Boa noite, Dora!

– … eu sou ateia, e aprendi a me controlar diante de correntes milagrosas, mensagens de gente morta, simpatias para segurar marido e aparições de chupacabra. Nenhum block nos últimos quarenta e cinco dias!

– Parabéns, Dora! (todos em uníssono).

Alguém se levanta e tenta sair de fininho.

O coordenador do grupo intervém.

– O companheiro já vai? Não quer fazer uma partilha?

– Oi, meu nome é Arnaldo.

– (Em uníssono) Boa noite, Arnaldo!

– Eu sou irrecuperável. Levo centenas de blocks diários. Sete dias por semana. Estou aqui há quinze minutos sem levar um block e já começo a sofrer de síndrome de abstinência.

– O que você faz? Compartilha maus tratos de animais? Posta foto em HDR? Repercute Monica Iozzi? Apoia golpe militar? Marca 40 pessoas nas suas postagens?

– Não. Eu defendo o Gilmar Mendes.

(Silêncio total. Em uníssono.)

 

(originalmente publicado em 13 de junho de 2017)