EstartAPPS do futuro

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Se eu tivesse dinheiro, aplicaria em um aplicativo.
Claro que para cada aplicativo que dá certo há milhares de aplicativos que dão errado.
É possível saber qual é um, quais são os outros? Não, não é.
Como é que a gente ia adivinhar que táxi pirata podia virar um negócio bilionário?
Que alugar vaga em casa de família ia transformar alguém em magnata?
A vida (e a grana) é curta demais para investir em algo muito bem pensado, com um mega modelo de negócios e uma baita estratégia de márquetchim.
O negócio é partir para estartapes mais pé no chão, daquelas em quem ninguém leva fé.
Tipo jogar 1-2-3-4-5-6 na Mega-Sena. É claro que você nunca vai ganhar. Mas se ganhar, ganha sozinho.
Andei pensando em algumas estartapes bem disruptivas, que têm tudo para botar o Uber pra correr e desalojar o AirBnB do topo do rânquim.
Acompanhem comigo.
Todo mundo tem meia desemparelhada. Todo mundo, menos eu, que compro logo 10 pares do mesmo modelo e assim uma pode acasalar com essa num dia e com outra no dia seguinte, como se minha gaveta fosse uma filial do mundo artístico.
Pois bem. Fotografe suas meias avulsas, faça uma breve descrição (“Marrom, canelada, calcanhar levemente esgarçado, furo imperceptível na altura do canto esquerdo do dedão – ou do direito do mindinho” e poste no MeiApp®, o aplicativo de emparelhamento de meias. Você pode optar por comprar o pé que te falta, vender o seu pé que sobra ou fazer escambo (um preto por um marrom, quatro azuis por um preto, nove lilases com carinhas de palhaço daqueles do Justin Trudeau por qualquer pé de meia de homem etc).
Eu, ou quem investir comigo, fica com 20% do valor da transação (no caso do escambo, aceitam-se pés de meia bege como pagamento), mais o frete.
Baseado no mesmo conceito, tem t-App-oé®, o aplicativo de troca de tapoés sem tampa por tampas de tapoé. Só que com uma segunda marca , voltada para as classes C, D, E, F e G, incluindo potes de margarina, de sorvete etc.
Por fim, um aplicativo menos mercantilista e mais socialmente engajado, a ser utilizado para dividir contas com base em critérios progressistas de dívida histórica.
Você sai com amigos, pede uma pizza em 8 fatias e uma coca litro. São dois casais à mesa, cada pessoa come duas fatias e toma dois copos (caso bem hipotético, porque tem sempre um que come mais). Como dividir?
“Por quatro”, diria um fascista.
“Por dois”, diria um machista (os homens racham a conta enquanto as mulheres vão ao banheiro).
“Deixa que eu pago”, diria quem convidou, esperando que ninguém aceite a proposta.
Tudo errado. Uma calculadora ou uma caneta + pedaço de guardanapo – se um dos quatro tiver frequentado a escola depois de 2003 – não dão conta da complexidade da operação.
E o rateio da dívida histórica, como é que fica?
Mulheres só tiveram direito a voto no século 19. Ganham, em média, 20% a menos que os homens. Têm cólica, estria, dão à luz, pintam o cabelo, precisam usar sutiã, salto alto, depilar virilha, carregar bolsa… Não, não é justo que paguem o mesmo preço que os homens.
Tem também a cor da pele. A orientação sexual. O coeficiente de gordura corporal.
Como dividir uma conta entre um homem branco gay, uma mulher hétero pluçaize, um não binário preto e uma trans oriental?
Lembra da brincadeira do “papel tesoura pedra”, em que a pedra amassa a tesoura que corta o papel que embrulha a pedra? O aplicativo PapelTesouraPedrApp® resolve o imbroglio da divisão da conta sem quebra-quebra ou acusações mútuas de misoginia, xenofobia, gordofobia e afins.
Branco paga mais que preto, que paga menos que oriental, que paga mais que árabe.
Homem paga mais que mulher, e não binário paga menos ainda.
Hétero paga mais que gay, e bi paga a média dos dois.
Crossdresser paga mais que trans,
Agênero paga o mesmo que genderfluid, dependendo de para que lado o genderfluid estiver fluindo no momento.
Mas paga-se quanto mais, ou quanto menos? Aí é que a porca torce o rabo e entra o pulo do gato. O aplicativo, valendo-se de um algoritmo justiceiro, leva em conta todas as variáveis e evita que amizades sejam rompidas por causa de uma meio calabresa meio quatro queijos.
– Por que estou pagando mais que você, se sou bi e você insiste nessa heterossexualidade tóxica?
– Nem vem. Eu sei que você só é bi quando fuma maconha e, mesmo assim, nem beija direito, fica só broderagem.
– Ah, é? E você, que tira o buço? Tirou o buço e separou a monocelha, perde direito ao desconto.
– Olha só quem fala! Entrou na Federal fora do sistema de cotas e quer lacrar. Pra cima de mim, não! E nem pense que me engana com esse sobrepeso: sei que isso são apenas ossos largos…
O PapelTesouraPedrApp® utiliza tecnologia de reconhecimento facial e análise de postagens no feicebuque. Quem votou Haddad paga menos que quem votou Bolsonaro, que paga mais que quem votou em branco, que paga 75% de quem anulou e justificou o voto. Defesa da Amazônia tem desconto maior que indignação por óleo nas praias. Vegano paga a metade do vegetariano, que paga um terço de um carnívoro. Menos na pizza marguerita, claro, porque aí era sacanagem.
Se você perdeu o bonde do IFood, da Netflix e do PTinder, o MeiApp®, o t-App-oé® e o PapelTesouraPedrApp® são sua chance de tirar o atraso e o pé da lama.
Invista djá!

Vocábulos e palavras

Coisa

Numa coisa quase que temos que dar razão às feministas extremistas fundamentalistas radicais do politicamente correto: nossa língua parece machista.

As palavras no masculino têm sempre um peso maior, um significado mais importante.

Mentalize, por exemplo, ”o jantar”.

Mesa bem posta, talheres alinhados (mesmo que não tenhamos a menor ideia de como usá-los), guardanapos (de linho) dobrados, umas taças de cristal, quem sabe velas. E comida da boa. Normalmente pouca e cara, mas boa.

Agora pense em “a janta”.

Será invariavelmente algo requentado do almoço, pra se comer na cozinha, ou com o prato apoiado nos joelhos vendo novela bíblica da Record no sofá de napa, com talher de cabo de plástico e Tang no copo de massa de tomate.

Mesma coisa com a tesoura, pobre operária da costura, e o tesouro – que, obviamente, nunca trabalhou na vida.

Ou o chinelo, que vai se desgastando, perdendo as tiras e ganhando cheiro, até chegar ao nível mais degradado da sua existência, quando então muda de gênero e vira a chinela.

A lista vai longe.

O porto e a porta; ele se abrindo para os mares; ela, apenas para outro aposento.

O manto que cobre reis; a manta, as pernas dos plebeus.

Do poço, tira-se água potável; na poça, molham-se os pés na água suja.

No horto cultivam-se plantas ornamentais; na horta, couve, chicória, salsa e cebolinha.

O que as feministas fingem ignorar é que sexo é coisa biológica, e gênero, categoria gramatical.

Ao insistir no “todos e todas”, esquecem que o masculino é um gênero não marcado (é um presumível genérico: engloba seres de ambos os sexos), enquanto o feminino é exclusivo.

“Um homem prevenido vale por dois” refere-se a toda a humanidade, sem ser necessário especificar que a mulher prevenida também valha por duas. Já “com mulher de bigode nem o diabo pode” mostra que a recíproca nem sempre é verdadeira (vide o caso do Ned Flanders e do Seu Madruga).

Pense nisso na próxima vez em que ouvir “companheiros e companheiras”, “senhores ministros e senhoras ministras”, “nobres colegas e nobres colegas”.

Quando o vácuo toma conta do cérebro, a vaca vai pro brejo.

 

(publicado originalmente em 25 de abril de 2018)

Trans

trans

Foi concebido como Conto, mas não se sentia pertencente a esse gênero.

Tinha a percepção de que os personagens que trazia dentro de si não estavam unidos por uma narrativa com início, meio e fim. Sentia-se na obrigação de ser prosa mas ansiava por poder ter, sei lá, umas ousadias poéticas.

Gostava de pensar em si mesmo como Crônica, uma reflexão sobre o cotidiano, um olhar subjetivo acerca dos acontecimentos. Mais intimista, mais coloquial, sabe? como se conversasse com o leitor. E, independentemente do que tivesse a dizer, gostava mesmo de falar é do tempo – não o da meteorologia ou o do relógio, mas o da alma. Tratava do momento, daquele instante banal que de banal nunca tem nada.

Buscava na poesia uma definição para si: queria atingir as grandezas do ínfimo. Não necessariamente ter que contar uma história, mas divagar. Usar uma lente macro, não uma grande angular. O microscópio, em vez da fita métrica.

E queria, mais que tudo, poder ser irônico, sem que olhassem para ele com ar de desaprovação ou de “sei não”.

Resolveu procurar ajuda.

Nos classificados, encontrou um anúncio de alguém que dizia resolver todos os problemas de gênero. Tentou agendar o horário, mas o atendimento era por ordem alfabética.

Foi atendido ali pelas 10 horas, logo depois do Auto e da Comédia. Mas sua primeira sensação foi de frustração.

– Seu gênero é o… deixe-me ver… masculino. Pronto. São R$ 250,00. Pode acertar com a minha secretária, na saída.

– Mas dr. Dicionário, minha questão de gênero não era bem essa.

– Filho – e neste ponto o Dicionário olhou-o por cima dos óculos, com os olhinhos miúdos imprensados entre o aro grosso de tartaruga e as espessas sobrancelhas – eu sou especialista em gênero, número, categoria gramatical, com mestrado em sinônimos e antônimos, doutorado em campo semântico, e pós doc em etimologia, feito em Harvard, além de ser, eventualmente, bilíngue. Como ousa questionar que sua questão de gênero não seja esta? Não vá me dizer que…

– Sim. Eu sou posso ter nascido um Conto, mas, no íntimo, me sinto uma Crônica.

– Um transgênero literário – murmurou, desconsolado, o velho glossário.

– Sou um Conto infeliz, amarrado às convenções sociais de ter um enredo único, uma construção psicológica de personagens, um final súbito. Queria ser Crônica, leve, fluida, apenas um recorte sutil do cotidiano…

– Já tive um caso assim. Há muitos anos. Um Romance enorme, enfadonho, um catatau deveras indigesto. Sua vocação era ser Novela. Mas seu pai, o Autor, sonhava ter um filho Romance, e o encheu de parágrafos obsoletos, digressões supérfluas. Um saco.

– E…

– Encaminhei-o a um Editor, que lhe fez uma bariátrica nos capítulos desnecessários e depois cortou os excessos estilísticos. Só de adjetivos inúteis deu para tirar quatro resmas. Converse com ele. Quer dizer, com ela.

– E onde posso encontrá-la?

– Você passou por ela na minha sala de espera. É a minha secretária, aquela jovem esbelta, de cintura de pilão, seios arfantes e pernas bem torneadas. Quem a vê jamais dirá que que um dia foi um Romance adiposo, lento e verborrágico. Ela poderá lhe indicar um Editor de confiança.

– Obrigado, dr. Léxico.

– Sem formalidades. Pode me chamar de Pai dos Burros.

Despediram-se com um amplexo e tão logo o Conto retornou à antessala e pôs os olhos na Novela, sentiu que, quem sabe com mais algumas páginas, um aprofundamento, podia se tornar uma… Não, não. Novelas usam decotes voluptuosos, e ele preferia ser uma Crônica que bota uma camiseta e sai por aí sem sutiã. Novelas usam saltos altos, e ele preferia caminhar descaço pela areia do Tempo (não, “pela areia do Tempo” é muito lugar comum, e crônicas devem fugir desses clichês).

A Novela passou-lhe, discretamente, o cartãozinho de um Editor lacaniano, muito hábil na interpretação – e no corte – das palavras, e desejou-lhe, romanticamente, sutileza e frescor na nova vida.

O Conto agradeceu, enrubescido (Contos enrubescem; em breve, ele seria uma Crônica, e Crônicas apenas sorriem sarcasticamente, revelando a covinha no rosto).

A Novela abriu a agenda, suspirou, e mandou entrar o próximo cliente. Eram duas Quadrinhas e dois Haicais que tinham se conhecido num aplicativo de relacionamentos e cismaram que, juntos, dariam um Soneto.

“Nem tudo neste mundo tem jeito”, pensou, fazendo uma rima péssima – enquanto imaginava que talvez, sem o implante de silicone nem os hormônios, com um pouco de malhação para queimar advérbios localizados, uma barba de 2 dias e nenhuma maquiagem, até que ela mesma daria um Conto muito bem apessoado.