Todos os tons de verde e amarelo

tons

Confira a coluna de hoje n’O Globo:

Todos os tons de verde e amarelo

 


 

Nem todo mundo que votou no Bolsonaro ou que torce para que seu governo dê certo quer o desmatamento da Amazônia, a submissão feminina, a desigualdade racial, a corrida armamentista da população.

Nem todo mundo que votou contra o Bolsonaro ou que torce para que seu governo dê errado quer a corrupção, o inchaço da máquina estatal, o aparelhamento do Judiciário, as escolas como foco de doutrinação.

O vermelho que tinge as manifestações da esquerda (derrotada nas urnas) não é um vermelho chapado – há nuances de anseios democráticos e totalitários, de idealismo e de ódio,

Com o verde e amarelo que dá às manifestações da direita (vencedora nas urnas) um ar de Copa do Mundo ,é a mesma coisa – há um quê de esperança e de revanche, de racionalidade e de força bruta.

É possível ser “de esquerda” e a favor de princípios éticos e da democracia.

É possível ser “de direita” e pró direitos humanos, inclusão, preservação do meio-ambiente.

Nas manifestações, sejam quais forem as cores das bandeiras, me lembro sempre da canção do Milton Nascimento e do Fernando Brant:

“Aqui vive um povo que é mar e que é rio
E seu destino é um dia se juntar

Aqui vive um povo que cultiva a qualidade:
Ser mais sábio que quem o quer governar.”

 

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Preconceito linguístico

Preconceito linguistico

Você já sofreu preconceito linguístico e não sabe.

Quando sua avó disse (você nem vai se lembrar porque devia ter uns 4 anos de idade) “não é ‘eu fazi’, meu lindo, é ‘eu fiz”, a véia estava sendo linguisticamente preconceituosa.

Quando d. Terezinha, sua professora do primeiro ano, corrigiu sua redação “Minhas férias”, na qual você caprichosamente escreveu “Eu fui na caza da vovo. A caza da vovo é bonita. A caza da vovo e azul”, ela estava te oprimindo linguisticamente. A casa com S, a vovó com acento, tudo isso é imposição da elite dominante, que não aceita variedades linguísticas das classes mais baixas (você deveria ter, no máximo, 90 cm de altura).

O preconceito linguístico parte do pressuposto “eu sei, você não sabe”. Logo, não se trata de uma questão linguística, mas social. Praticamente uma luta de classes, um caso clássico de intolerância.

A língua é parte da sua identidade. Ao fazer tsk tsk tsk para o seu “eu truce menas caixas de iorgute; é pra mim ir buscá as que falta?”, o opressor linguístico está rejeitando você – não sua sintaxe – e excluindo-o da comunidade.

Para disfarçar o preconceito e fazer a egípcia na opressão, usa-se a grande falácia chamada “erro de português” – que consiste em desqualificar os usos não previstos nas gramáticas e nos dicionários.

Ora, ora, quem escreve gramáticas e dicionários é a elite. É ela que define o que é certo e errado, olhando o mundo do alto da pirâmide social, enquanto você se esfalfa lá embaixo no deserto da ortografia, suando em bicas sob o sol inclemente das concordâncias, queimando a sola do pé na areia quente das regências, sedento feito um camelo disléxico, sem entender o que seja um subjuntivo, um vocativo ou para que diabos sirva o ponto e vírgula.

Este preâmbulo (preâmbulo é o mesmo que enrolation, só que mais opressor) é para falar de uma treta que rolou ontem na minha taimilaine, envolvendo uma Mestra e Doutora e este cronista anêmico de títulos acadêmicos.

Só que a moça – Mestra e Doutora – fez todas as suas críticas cometendo uma dúzia de erros de português. Não acentuava proparoxítona (logo as proparoxítonas, que são meu xodó) nem oxítona terminada em A. Separava o sujeito do predicado com vírgula (e depois faltava vírgula para isolar um aposto). Desconhecia a razão de ser das maiúsculas e minúsculas, e achava que “porque” junto e “por que” separado eram a mesma coisa.

Não gosto de corrigir ninguém (mentira: gosto, mas evito), porém ela estava pedindo. E apontei esses desvios da norma padrão, mais dois outros – que são, por sinal, a razão deste texto.

Segundo ela, tudo que eu queria era causar reboliço.

Eu gosto da palavra reboliço, que vem de “rebolo” e me lembra bolo de rolo, aquela delícia pernambucana que é uma bomba calórica – mas nada que 6 meses ininterruptos de esteira não neutralizem.

Reboliço é isso: algo arredondado, de formato cilíndrico. E também algo que rebola, que remelexe.

O bolo de rolo é um reboliço. E, se não for em quantidade suficiente, pode causar um rebuliço – que é uma confusão, um tumulto, um fuzuê, um bafafá – e vem do verbo “bulir”, de “bulício”.

Eu bem que gostaria de ser capaz de causar reboliços (como os rocamboles) mas só causei rebuliço (ao apontar a diferença à Doutora).

Argumentei que sempre usava de humor nos meus textos e que, se ela tivesse lido algum outro, teria entendido a ironia. A resposta foi que uma das grandes sortes da sua vida era jamais ter lido nada escrito por mim, e que se eu quisesse bloqueá-la, que o fizesse, porque ela jamais bloqueava quem discordava com ela.

Tomei fôlego. Contei até 0,5.

Será que valia a pena informar que não se “discorda com”? Discordar é divergir – literalmente, ter os corações separados. Discorda-se de, concorda-se com.

Para a douta professora, minhas críticas a certa produção acadêmica na área de Humanas não passariam de recalque por eu ser um velho sem Lattes.

Pois é, a esquerda é só amor, a esquerda não larga a mão de ninguém, a esquerda é inclusiva, é contra os preconceitos de cor, de classe, de gênero – mas a gente sabe como são os desvãos da alma humana (chamar de gordo é ofensa: de velho, não; sentir-se superior a quem é pobre é elitismo: a quem tem menos currículo, de jeito nenhum).

E terminou afirmando que podia ser agefóbica, sim (agefobia é um neologismo: horror a quem tem mais idade) já que eu era um opressor linguístico.

Os 7 primeiros parágrafos deste texto são, obviamente, uma piada. Opressão linguística – ou preconceito linguístico – é se julgar superior a alguém por conseguir se expressar conforme a língua culta, não reconhecendo as variações existentes no idioma.

Não há opressão em se corrigir a manchete do jornal onde se lê que “A liminar foi caçada” ou o tuíte do ministro que “insitaria a violência”.

Jornalistas, ministros e doutores frequentaram escolas, leram (ou deveriam ter lido) vários livros e espera-se que dominem as regras da língua culta. Opressão é humilhar quem não teve acesso à educação formal, quem utiliza formas dialetais, quem enriquece o idioma com novas formas de expressão.

Enfim, a Doutora foi bloqueada e cometeu mais alguns erros no texto em que se vangloriou de ter batido boca com um mínion sem currículo Lattes e vencido a batalha.

E eu é que sou o opressor, causador de reboliço por que bloqueio quem não concorda de mim…

 

(originalmente publicado em 21 de maio de 2019)

Evolução da Revolução

 

“- Primeiramente, fora Teme…

– Questão de ordem, companheiro! Quero democraticamente colocar em votação uma proposição para atualizar a nossa saudação para “Fora, Bozo”.

– Muito construtiva e democrática a sua colocação, camarada, mas não acho que a gente deva desperdiçar esses últimos 20 dias de “Fora Temer”, que é uma saudação antifascista popular e que evoca as melhores lembranças da luta revolucionária contra o golpe.

– Companheiro, em nome da classe trabalhadora, lembro que o golpista não apita mais nada, e temos que, democraticamente, direcionar desde já o ódio de classe ao governo reacionário, repressor e autoritário que ainda não começou.

– Tamo junto na guerra democrática contra o imperialismo patriarcal estadunidense, camarada, mas não dá para derrubar um presidente antes que ele seja pelo menos empossado. Por isso, primeiramente, fora Tem…

– Um aparte, companheiro. Seu raciocínio é antidemocrático, alienado e burguês. Quanto antes implementarmos o “Fora Bozo”, mais irreversível será o levante popular.

(Palmas, gritos, vivas, abaixos e rexitegues variados, variadas e variades no recinto)

– Então tá, camarada. Se é no interesse comum e do conjunto da sociedade, na defesa da nossa soberania, dentro do espírito do centralismo democrático, primeiramente… fora Coiso!

– O que é isso, companheiro? Como assim?

– Como assim o quê, camarada?

– Não é “Fora Coiso”. É “Fora Bozo”.

– “Bozo” é apropriação do colonialismo cultural ianque, um personagem da mídia neoliberal detentora do capital especulativo. “Coiso” é que é coisa nossa, afro-ameríndio terceiro-mundista inclusivo e gramaticalmente desopressor. Vai ser “primeiramente, fora Coiso”, sim. “Fora Bozo” é golpe!

– Companheiro, a plenária votou minha moção por “fora Bozo”, não “fora Coiso”. Levantar uma bandeira divergente é voluntarismo!

(Vaias, apupos, salves e pancadarias diversas, diversos e diverses no recinto)

– Ok, ok, companheiros, companheiras e companheires, camaradas, camarados e camarades, vamos levantar uma questão de esclarecimento para o encaminhamento de um indicativo para a pauta da plenária do conselho da próxima assembleia que vai deliberar (ou não) sobre “fora Bozo” ou “fora Coiso”.

– Mas a assembleia do conselho da plenária da pauta do indicativo do encaminhamento da questão levantada só vai rolar em outubro, depois do parabéns pra você da gloriosa revolução bolchevique! Até lá o Temer já vai estar preso, babaca!

– Temer não é uma pessoa. É uma ideia. É símbolo da luta participativa das minorias progressistas contra a exploração dos excluídos e pelo aprofundamento da crise do capitalismo. O “fora Temer” fica!”

(Uivos, assovios, sopapos e cusparadas de todos os tipos, tipas e tipes no recinto).

~ ~ ~

– E é por isso, minha netinha, devido ao seu imenso valor histórico e afetivo, que até hoje, decorridos mais de 50 anos do golpe, ainda usamos essa saudação, o “primeiramente, fora Temer”.

– E quem era esse tal de Coiso, vovó?

– Era um bicho papão. Agora come seus cornifleiques sintéticos, veste seu traje espacial vermelho, pega sua bandeira holográfica com a estampa do Che e vem com a vovó protestar. E não esquece de colocar, por cima do capacete, o seu bonezinho do “Movimento dos Sem Terra”. A gente já está morando em Marte, mas tem coisa que não se muda assim, de uma hora pra outra.