Benvingut

catalan

Esta noite sonhei em catalão.

Não me lembro do sonho quase nada – uma casa pela metade, com a lateral toda de espelhos para que se tornasse uma casa inteira, um rio que passava rente, uma mulher que cantava enquanto descia o rio, um jardim com figueiras.

Todas as canções, todos os diálogos, eram em catalão.

E eu não falo catalão.

Pelo menos não em vigília. Pelo menos não conscientemente.

O catalão é, para mim, uma quimera. Tem garras de português, corpo de francês, cabeça de espanhol, e asas que não sei de onde lhes vieram os ossos, os músculos, as plumas.

A própria casa, absolutamente simétrica, de cômodos espelhados, era construída em catalão.

Numa porta se lia “Sortida”, que é uma forma de dizer ao mesmo tempo “sortie” e “saída” e poderia ser daí que eu deduzisse que o sonho fosse nessa língua na qual me meti, há muitos anos, a ler um romance.

Era o “Mecanoscrit del segon origen”, cujo primeiro capítulo (“Quadern de la destrucció”) começava com:

“L’Alba, una noia de catorze anys, verge i bruna, tornava de l’hort de casa seva amb un cistellet de figues negres, de coll de dama, quan s’aturà a avergonyir dos nois, que n’apallissaven un altre i el feien caure al toll de la resclosa, i els va dir:
—Què us ha fet?
I ells li van contestar:
—No el volem amb nosaltres,perquè és negre.”

Entendi sem perceber o que entendia, que é uma forma mais profunda de entendimento (como um koan, como uma iluminação).

Todos os sonhos devem ser uma espécie de catalão do inconsciente, com algo de lúcido (catorze anys, perquè és negre), algo de onírico (amb un cistellet, quan s’aturà a avergonyr, el felen caure al toll de la resclosa”).

Mas este sonho era catalão não só na estrutura, mas em cada gesto, em cada palavra. Sei disso porque minha voz era outra, e eu mudo de voz quando falo outro idioma. E minha voz tinha o timbre que eu talvez tivesse se falasse catalão (nunca falei, e esse timbre desconhecido também era uma pista).

Possivelmente sonhei num catalão inventado naquele momento a partir de palavras um dia lidas e esquecidas (si us plau, gràcies, benvingut, amic meu), a partir das quais se criou uma sintaxe, um vocabulário, um estilo de dispor as janelas em paredes curvas, e a sala se abrir diretamente sobre o rio pelo qual navega sem barco uma mulher a cantar uma canção que nunca foi escrita.

Ali pelos meus 9 anos, assisti uma novela chamada “O homem que sonhava colorido”, e a cada manhã buscava nas lembranças dos meus sonhos algum elemento de cor, algo que me assegurasse que eu não sonhava em preto e branco. E todas as lembranças eram inconclusivas.

Mas sei (não sei como, mas sei) que tanto quanto as conversas e os pensamentos, os espelhos eram catalães, porque só a casa se refletia neles, não os personagens, e eu transitava pelas duas metades dessa casa espelhada como se fossem uma coisa só.

E acordei com esta frase (“L’Alba, una noia de catorze anys, verge i bruna, tornava de l’hort de casa seva amb un cistellet de figues negres”), e havia mesmo figues negres no sonho, numa espécie de jardim quee invadia a casa.

A canção entoada pela mulher que descia o rio, sem barco, levada pelas águas, perdeu-se para sempre.

O sonho era colorido (sei pelas paredes da casa). E despertei cansado, com aquele cansaço de quando se chega de uma viagem a outra língua.

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Barba, cabelo e bigode

hirsuto

É praxe, ao final do corte de cabelo, o barbeiro trazer um espelho para que o cliente confira como ficou a nuca (ou “o pé”, que é como barbeiro gosta de chamar base da nuca, uma catacrese que nunca vou entender).

De um tempo para cá, dei para não prestar a menor atenção ao pé – se batido, redondo, quadrado. Meu interesse está um pouco mais acima, no cocuruto.

Abriu-se ali uma clareira, uma voçoroca, quase uma tonsura, daquelas que os franciscanos desenham caprichosamente com gilete e, no meu caso, apareceu de oferecida, sem ser chamada.

Levantando um pouco mais o espelho, percebe-se que o corte é sempre no estilo Caribe, aquele em que, olhando de cima, dá pra ver o fundo.

Calvície nunca foi um drama para mim. Meu avô era calvo. Meu pai já era calvo quando eu nasci (e ele tinha só 25 anos na época). Se ainda preciso comprar xampu e ter um pente na gaveta, devo isso à linhagem materna, de homens hirsutos, de sobrancelhas espessas e narizes que chegam aos compromissos meia hora antes do restante do corpo.

Já fui muito cabeludo, com as madeixas batendo no ombro (infelizmente, há fotos para comprovar este fato). Para onde foi toda aquela pujança capilar?

Lavoisier explica: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.”. O que minguou no alto da cabeça floresce agora nas orelhas. Até há pouco eram só uns fiapinhos, que viraram tufos e se converteram em moitas, dando-me um ar de lobisomem que há de ter um certo charme, mas com certeza não o charme certo.

Há mais ou menos um ano, depois de mais um corte de cabelo, a verificação do “pé” da nuca e a espanada geral do que sempre cai na camisa, o barbeiro perguntou se eu não queria aparar também a orelha. Era sinal de que até a barba estava sendo ofuscada pelas pilosidades auriculares.

Sugeriu que, em vez de aparar, eu tirasse aquilo. “Vai ficar bem melhor”, garantiu. Concordei sem me dar conta de que “tirar aquilo” fosse arrancar o mal pela raiz.

Chamou uma mocinha simpática e falou “Faz a orelha do moço”.

Em coisa de minutos eu, que tinha ido apenas aparar o cabelo, me vi deitado numa maca com as orelhas besuntadas de cera quente e submetido a uma espécie de tortura medieval. E aí me dei conta de que era assim que acontecia: o Destino arma suas trapaças e um dia que começa como outro qualquer de repente dá uma reviravolta e te coloca frente a frente com a Indesejada, a Ineludível, a Insidiosa depilação.

Saí de lá com orelhas civilizadas, e queimando. Na rua, todos me olhavam como se eu carregasse um cartaz onde se lia “Eu depilo as orelhas”. Um cartaz e um megafone, para que também os deficientes visuais soubessem do evento.

Capinados o lóbulo, o trago, a concha, a hélice – e talvez até o tímpano! – a próxima ida ao barbeiro, três meses depois, não teria como oferecer novas surpresas. Qual o quê.

Aparadas a franja e as laterais (mais não há o que aparar), feito o “pé” e acertado aquele trecho em que costeleta vira barba, o barbeiro perguntou: “Posso aparar a sobrancelha?”.

Antes que eu respondesse, ele passou o pente por essas marquises felpudas que nos protegem os olhos e demonstrou que o cabelo que um dia cobrira o cocuruto e que tinha se homiziado nas orelhas agora florescia ali.

Sim, o espelho não mente jamais: eu tinha adquirido, sem ter me dado conta, sobrancelhas de Leonel Brizola, com indomáveis fiapos de uns 10 cm de comprimento aqui e acolá.

Sem que eu consentisse, e tampouco me opusesse, o barbeiro deu um jeito naquilo como se eu fosse um poodle abandonado há anos na Suipa e ele o próprio Edward Mãos de Tesoura.

Saí de lá me sentindo um Cristiano Ronaldo. Na rua, todos me olhavam como se eu gritasse com um megafone “Eu faço a sobrancelha”. Um megafone e um cartaz, para que também os deficientes auditivos tomassem conhecimento do evento.

Nunca mais fiz uma coisa nem outra – um pouco por vergonha, um pouco por acreditar que, depois disso, o cabelo voltaria ao lugar de onde nunca deveria ter saído, que é o cocuruto.

Ontem, passando pelo shopping, vi a clínica de depilação e cocei disfarçadamente a orelha. Sim, a touceira estava lá.

É um shopping discreto, com pouquíssimas chances de haver algum conhecido por perto.

Entrei e, antes que a atendente levantasse qualquer hipótese mais constrangedora, disse, com voz firme: “Quero fazer a orelha”.

Em questão de minutos, lá estava eu de novo deitado numa maca com as orelhas besuntadas de cera quente e submetido à já conhecida tortura medieval.

A mocinha simpática era outra, e a orelha devia estar uma mata de difícil acesso porque ela perguntou “O senhor nunca fez isso antes, não é?”.

“Não”, menti.

“Dá pra ver. Devia fazer também o nariz;”

“Como assim?”

“É, vai ficar muito melhor.” – e me deu um espelhinho, daqueles de aumento, que fazem um poro parecer uma cratera.

Minhas narinas eram as de um dragão soltando chumaços pelas ventas.

“Posso fazer?”.

Não, não pôde. A orelha tinha sido quase sem querer – e lá estava eu, repetindo voluntariamente. A desbrizolização da sobrancelha eu faço em casa mesmo. Mas se deixar depilar a narina, um limite perigoso pode ser ultrapassado e… o que virá depois?

Na saída, a moça do caixa perguntou se eu tinha sido bem atendido e se tinha sido mesmo só a orelha. Disse que sim, apesar de a funcionária ter achado que eu devia fazer também as narinas (esse par de narinas ímpares, herdadas do cromossomo materno).

Uma senhora que fazia sei lá o quê na sala de espera houve por bem se meter na conversa:

“Meu marido sempre faz orelha e nariz. Se fizer só a orelha, fica exatamente assim, parecendo um chupacabra”.

Paguei, e vim embora pensando se não é preferível assumir o chupacabra que habita em mim a desafiar a nova lei de Lavoisier – “O pelo não some, ele só deixa de nascer onde você precisa e passa a brotar onde não deve”.

Vai que, expulso das orelhas, das sobrancelhas e das narinas, me comece a crescer cabelo em regiões que demandem um shopping ainda mais discreto e uma depiladora capaz de levar segredos para o túmulo?

Doravante, só dou atenção ao pé da nuca e olhe lá.