Rio de Janeiro, de novembro a março

enxurrada

Confira a coluna de hoje n’O Globo:

Rio de Janeiro, de novembro a março


 

Como nasce um texto? Ninguém perguntou, mas eu respondo.
Não sei.

Talvez “Das entrelinhas de um livro
Da morte de um ser vivo
Das veias de um coração.
Vem de um gesto preciso
Vem de um amor, vem do riso
Vem por alguma razão” – como canta o Ney Matogrosso, na canção de Alzira Espindola e Itamar Assumpção.

Pois ganhei um disco da Mísia, e viajei para Minas ouvindo tangos e fados. Um deles me fisgou. O poema de Horácio Ferrer para um tema do Astor Piazzola.

Falava de “un domingo de otoño por la plaza San Martín”, de “un sideral subterráneo Plaza de Mayo a Saturno”.

Em Juiz de Fora, me deparo com uma foto do Eduardo Campos: o Rio de Janeiro todo azul, como aquele que, há tantos anos passou em minha vida, e meu coração se deixou levar.

Voltei para o Rio com o “Prelúdio para el año 3001”

(“Arrodillado en mi Río de la Plata lindo y sucio
Me amasaré otro incansable corazón de barro y sal”)

tocando em loop, e a foto na cabeça.

À imagem daquele Rio de Janeiro arquetípico, visto do alto do Dona Marta, foram se juntando deuses, orixás, crimes, rios mortos ou moribundos, minhas primeiras memórias das grandes chuvas de 66 e 67 (as “chuvas atípicas” que acontecem desde o tempo de José de Anchieta), e bateu uma ternura ambígua por esta cidade tão vaidosa e tão maltratada. Que em 2020 elegerá novo prefeito – para dar as desculpas de sempre, e permitir novas Muzemas, novas mortandades de peixes nas lagoas, novos vazamentos de esgoto em Ipanema, velhos casarões se decompondo na Gamboa.

Veio assim, quase em versos, anotados, aos borbotões, no celular (se descer a serra de Petrópolis, não digite: se digitar, pelo menos fique na pista da direita e atento ao radar).

“A inspiração vem de onde?
Vem da tristeza, alegria.
Do canto da cotovia
Vem do luar do sertão.
Vem de uma noite fria
Vem, olha só, quem diria
Vem pelo raio e trovão.”

Foi assim que brotou o texto que era para virar poema, tango, declaração de amor. Tomou outro rumo, imprevisto. Feito chuva de verão.