Era uma vez

Sidney

Sempre fui uma negação para guardar nomes.

Para compensar, sou péssimo fisionomista.

Quando dava aulas, era comum ser abordado.

– Tudo bom, professor? E a minha nota?

O máximo que eu conseguia saber era que o jovem ou a jovem (ainda não existiam xs jovxns naquela época) era de alguma das turmas para as quais eu lecionava. E eram muitas.

Na hora da chamada, tentava fazer o cara-crachá para ver se, de tanto repetir, associava os nomes às pessoas.  Em vão.

Conseguia gravar, no máximo, os melhores e os piores de cada sala. Os da fila da frente e os do fundão. O que significa que 90% permaneciam um mistério para mim durante todo o ano letivo.

Não era pouco caso. Era déficit meu mesmo.

Eu também trabalhava no Banco do Brasil.  E volta e meia me aparecia alguém perguntando:

– E o meu negócio, como é que está?

Eu não fazia ideia de quem fosse a pessoa, que dirá como estava o negócio dela. Que poderia ser uma renovação de cheque especial, uma aplicaçãozinha do saldo disponível em conta ou um empréstimo para comprar 200 vacas girolandas.

– Me veja um documento, por favor, só para eu confirmar se seus dados saíram certinhos.

– Estou sem a identidade aqui…

– Serve conta de luz, qualquer coisa que tenha seu nome.

– Estou sem nada.

– Então assina aqui só para eu aproveitar e conferir a assinatura.

E lá ia eu, torcendo para que a assinatura fosse legível, ou teria que consultar milhares de cartões de autógrafo – ou perguntar, discretamente, a alguém de confiança, “quem é aquele ali na minha mesa?”.

Na rua, cidade do interior, era batata:

– Transfere 50 mil da minha poupança pra conta, que vai cair um cheque amanhã. Depois eu passo lá e assino.

Eram tempos pré aplicativos via celular. O celular, inclusive, ainda era ficção científica.  Eu tinha que chegar ao banco e avisar que, se aparecesse um cheque em torno de 50 mil sem saldo na conta, era para falar comigo antes de devolver. Só assim eu saberia quem era o cliente. Ou ex-cliente, por minha culpa, minha máxima culpa.

Para facilitar as coisas, tenho nome duplo. Minha mãe queria Eduardo. Meu pai concordou até a véspera, mas, sem combinar nada com ela, incluiu Sidney na certidão. Ela, magoada, nunca me chamou de Sidney. Ele, talvez por arrependimento, talvez de pirraça, também não. Só fiquei sabendo que, além de Eduardo, era Sidney quando entrei na escola, e tinha que dizer que eu, Eduardo, estava presente quando a professora chamasse o tal de Sidney.

Então em casa eu era Eduardo, na escola era Sidney. Nas apresentações formais, Sidney; nas relações mais íntimas, Eduardo. Eduardo na Psicologia; na Arquitetura, Sidney.

Num sem número de vezes, me peguei ao final de uma carta ou com o dedo no botão de um interfone sem saber quem estava lá, o Sidney ou o Eduardo. Tinha que refazer mentalmente toda a história, lembrar de onde nos conhecíamos, pensar na pessoa falando meu nome para ver qual soava mais familiar na sua boca – e só aí assinava ou dizia quem era.

Mas, como nem tudo é desgraça na vida de um cristão, eu era tímido. E, como Deus é justo, e dá o frio conforme o cobertor, também gago. O que me tornava ansioso nas relações interpessoais – mas apenas em dois tipos de situação: quando tinha que falar com alguém presencialmente (porque a timidez me dava um branco) ou quando tinha que falar com alguém por telefone (porque a gagueira me dava um nó).

Venci ambas as limitações falando o mais depressa possível, tanto para não gaguejar quanto para acabar logo com aquilo. E fugindo do telefone como um carioca, no verão, foge da conta de luz.

Por isso comecei a escrever.

Escrevendo, não gaguejava. Podia usar à vontade palavras começadas com B. E as pessoas tinham o nome que eu quisesse. E eu era sempre Eduardo, nunca Sidney.

Nunca vi a escrita como uma escolha ou um dom, mas como uma espécie de salvação.

Didática

redacao

Dr. Paschoal, professor de português no colégio das irmãs sacramentinas, em Andrelândia, tinha uma didática muito particular. Toda sexta-feira encomendava uma redação. Na segunda, os cadernos eram aleatoriamente redistribuídos pela turma, e corrigíamos os textos uns dos outros. Não bastava apontar o que estava errado: era preciso dizer o porquê. Só então ele corrigia as redações – e as correções.

Tínhamos 14, 15 anos, e já sabíamos que “não se começa oração com pronome oblíquo”, “vocativo exige vírgula”, “haver, no sentido de existir, é impessoal”, “o verbo concorda com o núcleo do sujeito”, “estrangeirismos são desnecessários”, “pleonasmos são vícios”, “reticências devem ser usadas com parcimônia”. Me lembro bem disso meus amigos e houveram várias situações em que alguma dessas regras me voltaram à memória num flashback do passado…

A verdade é que não consigo ler um texto sem que o aluno do Dr. Paschoal que habita em mim tire do estojo imaginário uma caneta vermelha metafórica e vá mentalmente sublinhando as conjugações capengas, as regências tronchas; e salpique crases, tremas (ainda salpico tremas!) e acentos nas proparoxítonas (e nas oxítonas terminadas em A, E, O, M, N e ditongos abertos).

Esta semana, me peguei fazendo isso com um tuíte que dizia “Daqui a 4 minutos pousará na Lua uma sonda israelense, o que fará de Israel o quarto país depois dos Estados Unidos, Rússia e China a aterrizar naquele planeta.”

Poderia haver uma vírgula depois de “Daqui a 4 minutos” (adjunto adverbial de tempo deslocado), mas vírgula demais atrapalha. Vírgula é como ciúme: se tem, é porque alguma coisa está fora do lugar, ou passou do ponto. Deixemos sem.

4 é melhor grafar por extenso (até dez é assim que se faz; depois dá mesmo preguiça).

Lua está com maiúscula. Perfeito. Porque Lua (com maiúscula) é o nome próprio da lua (com minúscula). O mesmo vale para o Sol (de quinta magnitude, porém maiúsculo) e os infinitos sóis (maiores que o Sol, mas minúsculos) por esse infinito afora.

“O quarto país depois dos Estados Unidos, Rússia e China”. Aí faltou vírgula – ou faltaram parênteses. Israel seria o quarto país (depois de X, Y e Z). Sem a vírgula separando o aposto, Israel deixaria de ser o quarto para ser o próximo, ou o primeiro.

Senti falta da preposição, por causa do artigo definido. Depois dos Estados Unidos, da Rússia e da China. Ou depois de Estados Unidos, Rússia e China. Mas aí já pode ser estilo. Ou TOC, o que costuma dar na mesma. Deixo a canetinha vermelha de lado, e sublinho a lápis.

E eis que chega o momento em que dá vontade de usar a sylvapen: “aterrizar” ou “aterrissar”? Tanto faz. Aterrizar me soa aterrorizante; aterrissar parece garantir um pouso mais suave. Fica ao gosto do freguês. O que não pode é fazer isso na Lua.

Quer dizer, até pode. Não se faz alpinismo nos Andes? Os gatos não têm dentes caninos? Não se usa transatlântico para cruzar o Pacífico? Por que não comprar terreno na Lua, ser enterrado em Plutão, haver obras de terraplanagem em Vênus, terremotos em Mercúrio, terras férteis em algum lugar da Via Láctea?

Qual o problema de, com a exploração capitalista espacial, vir a haver o Movimento dos Sem Terra em Marte, e marcianos de bonezinho vermelho disputando território com seus conterrâneos da elite verde de olhos azuis, que tomam sol no terraço enquanto os que não nasceram com o * para fobos e deimos vivem em casinhas térreas, capinando os terreiros ou escavando os subterrâneos com as antenas cheias de terra?

Implicância minha. É que aquele neurônio estacionado na oitava série tem um ataque cardíaco no fígado quando ouve falar em sabatina no domingo, churrasco vegano, marinheiros no Rio Amazonas (ainda que este seja um rio-mar).

Podendo pousar na Lua, é melhor.

Ah, sim – e agora é hora de pegar o pincel atômico –, a Lua não é planeta. Mas isso já não é mais da alçada do Dr. Paschoal.

 

(originalmente publicado em 13 de abril de 2019)