Discurso

discurso

Recicladores de papel de Los Angeles encontraram isto num A4 amassado numa lixeira, na saída do Dolby Theater. Pedem ajuda a quem puder traduzir e esclarecer do que se trata.

“Dear friends, deara friendas and dearx friendxs,

Brazilian democracy is under attack since Pocket went to the Palace of the Higland. He and Zero One, Zero Two, Zero Three, plus Giveseas, who saw Jesus on a guava tree and now wants us not to fuck. And Live, that judgeco from Curitiba. And Guedes who say we are “Parasite”. Along with the astronaut, they took the power in a blow against the brave heart woman and put Squid in jail.

The world must know what really happens in our country, which is not what reality says. But we know. Queiroz is an orange. Zero One had many oranges, too. Alvim is a nazi and Regina needed gays to hide her fat and paint her gray hair. Tati can’t celebrate holidays with her dad because he is a nazist. 56 million nazi fascists in Brazil don’t want to see golden shower on top of newsstands nor little monkeys sticking their fingers inside the little monkey’s ass in front of them. And there is the molotov because of the gay Jesus in the Backdoor Christmas video. That’s censorship!

The secretary of education in Rondonia state wanted to recover classics of our literature, such as “My ass is not a magnet”, by Mario de Andrade. Indian lands are to be turned into new Naked Saws. Not to mention the fake stab, the old man of Havan and the zap aunties.

We need international help – from the Oscar Academy, the United Nations, the Intercept and the Pope – to remove Pocket and bring Squid back.

I want to dedicate this statue to my father and my mother and Andrade Gutierrez, for their emotional support.

Moved with one, moved with all! Nobody releases nobody’s hands! If it affects my existence, I will be the resistor! It’s blow! He not! ”

O papel amassado foi encaminhado ao FBI e à CIA, pois suspeita-se que a linguagem cifrada esconda alguma conspiração. Ainda mais que estava em fonte Comic Sans, e papel timbrado da Ursal.

Descobrimento em vertigem

Documentario 2

– Pessoal, conseguimos levantar o patrocínio e vamos fazer o documentário sobre o Descobrimento do Brasil!

– “Descobrimento”, não! Os nativos brasileiros já estavam aqui há muito tempo. Os portugueses invadiram o continente. Tem que se chamar “Invasão e colonização imperialista de Pindorama pelos brancos europeus”.

– Ok, depois a gente discute o título. O que precisamos agora é começar a pesquisa. Como um dos poucos documentos da época é a carta de Pero Vaz…

– Isso não é problema. Podemos criar novos documentos.

– Como assim “criar novos documentos”? Temos que nos basear nos elementos históricos – cartas, iconografia…

– Isso é um conceito arcaico, conservador. O documentário que vamos fazer é progressista. Podemos começar com as caravelas surgindo no horizonte com suas bandeiras piratas, disparando canhões, e, em seguida cortar para os índios sendo decapitados durante a Primeira Missa…

– Mas isso seria uma encenação – e não há nada que indique que índios tenham sido decapitados na Primeira Missa.

– Não é encenação. É a história real subjetiva. Milhares de nativos sul-americanos morreram no genocídio promovido pelos portugueses capitalistas. Os índios decapitados na Primeira Missa pelo padre alemão, que bebe o sangue deles, representam essas mortes e a apropriação cultural europeia.

– Mas então não é melhor chamar o filme de ficção?

–  Claro que não! É um documentário. E seguimos com Pedro Álvares Cabral violentando a filha mais nova do velho cacique moribundo e condenando o pajé trans da tribo a ser queimado na fogueira, por heresia.

– Mas será que houve autos-de-fé no Brasil? E pajés trans?

– Mesmo que não houvesse, ficaria havendo. O pajé LGBTQI+ queimado vivo enquanto os machos brancos europeus gargalham remete ao incêndio deliberado da Amazônia e à homofobia estrutural dos lusocristãos.

– Mas aí já fica uma coisa meio alegórica, não? A gente queria fazer um documentário, um lance histórico.

– História contada por quem? Pelos vencedores? Pero Vaz de Caminha, que era um lacaio do imperialismo. Temos que usar as cartas escritas pelos índios.

– Mas os índios não dominavam a escrita…

– Não dominavam porque eram dominados. Eram analfabetos porque Portugal não investiu aqui nem um centavo em educação antes de 1500. Então cabe a nós dar voz aos que foram amordaçados pelo neoliberalismo ibérico, pela elite tóxica da corte de Lisboa.

– Ok, então começamos com a decapitação dos índios, o estupro da filha do cacique, a incineração do pajé, quer dizer, dx pajx, aí são lidas as cartas dos índios…

– Quem lê são eles! Nós não temos lugar de leitura nessa história!

– E como é que eles vão ler se são analfabetos – ou pelo menos eram analfabetos em 1500?

– Você está sugerindo que algum portador do privilégio do letramento usurpe o protagonismo deles e leia as cartas?

– Ok, eles leem as cartas e então…

– Então entrevistamos alguns índios escolhidos a dedo, e gravamos a cena de uma índia idosa com um bebê no colo, se arrastando pelo Saara, ou pela Namíbia – ou, se a verba não der, por Atacama mesmo – e eu narro, com voz chorosa, que foram os golpes – golpes de machado, no caso – que destruíram o Brasil. Entra um pôr do sol bem vermelho e sobem os créditos ao som da Internacional Socialista em ritmo de kuarup.  Fim.

– Não entrevistamos nenhum português?

– Não precisa.

– E depois?

– Depois a gente arruma um agente, uma distribuidora, um canal de estrímim e inscreve no Oscar.

– Aquele prêmio da indústria hegemônica cultural estadunidense?

–  Essa parte não precisa problematizar. Bora fazer o doc?