Progressistas do passado

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Fala-se tanto em inclusão, diversidade, representatividade, mas só pode ser gente que ainda não era nascida nos anos 60 e tem a impressão que o planeta sempre foi reacionário, quadrado e careta.

O Gordo e o Magro viviam juntos. Dormiam na mesma cama, inclusive. E era a coisa mais normal do mundo. Isso nos anos 40.

Acha pouco?

Moe, Joe e Larry não eram tão patetas quanto se imagina: também coabitavam e dividiam o leito, num esquema de poliafetividade que não escandalizava ninguém.

Como essa gente lacradora de hoje acha que Tony Curtis, um dos maiores galãs do seu tempo, conquistou Marilyn Monroe, a mulher mais cobiçada do cinema? Não foi exibindo os bíceps ou agarrando pelo cabelo, como fazem os machos opressores de hoje no Carnaval, mas usando vestido, peruca e maquiagem pesada. Jack Lemmon, heterossexual convicto, acaba encontrando o homem da sua vida, Joe Brown, também vestido de dregue quando as dregues nem sonhavam em ser queens.

O que dizer dos inseparáveis Zorro & Tonto e Mandrake & Lothar, que, ainda por cima, eram relacionamentos inter-raciais?

E Xena e Gabrielle?

Maga Patalójika e Madame Min?

Matracatrica e Fofoquinha?

Tom & Doug, que tinham não só um passado mas também um futuro, e viviam juntos para lá e para cá, no Túnel do Tempo?

Fred e Barney, com seus casamentos de fachada?

Recruta Zero e seu fetiche bondage com o Sargento Tainha?

E as novas configurações familiares dos personagens Disney, com sobrinhos invariavelmente criados pelos tios solteirões?

Emília, no Sítio do Pica Pau Amarelo, fazia de gato e sapato o Visconde de Sabugosa (“milhonário” macho, nobre, espigado). E ainda se casou com um porco, o Marquês de Rabicó – num tipo de relacionamento que nem o ministro Barroso aprovaria.

Nós, da década de 60 (eu nasci em 59, mas com sensação térmica de 1960) aplaudimos Simonal, Tony Tornado, Jair Rodrigues, Golden Boys, Trio Esperança, Elza Soares, Agostinho dos Santos, Evaldo Braga, Lady Zu, Miriam Makeba, Donna Summer, Tina Turner, Ray Charles, Bob Marley, Stevie Wonder, Jimi Hendrix, Michael Jackson (ele ainda era preto na ocasião) porque sabíamos que black is beautiful e que “no matter, no matter your color, you are still my brother”. E sem precisar ser chamados de palmito, de brancos opressores sem lugar de fala (ou, no caso, de escuta).

Um dos maiores mitos da nossa época era o Dr. Smith, a quem é impossível descrever de modo politicamente correto. Ele fez mais pelo movimento LGBTQ+ da época (que ainda não existia) do que qualquer parada gay. Era uma péssima influência para o pequeno Will Robinson (mau caráter no úrtimo!), e nem por isso o garoto desgrudava dele (com a anuência dos pais, John e Maureen Robinson, que ou eram muito ingênuos ou eram simpatizantes da causa e adeptos da ideologia de gênero).

Dr. Smith ainda por cima mantinha um relacionamento abusivo com uma criatura cibernética e não binária, o Robô. A quem, durante as frequentes D.R.s, chamava de “lata de sardinha enferrujada”. E não há evidências de que o pequeno Will ou a ingênua Penny Robinson tenham virado genderfluid ou se tornado de Humanas por causa disso.

Jeannie vivia com o Major Nélson sem serem formalmente casados – isso num tempo em que mulher amigada era vista como uma sirigaita, não como descolada.

A empoderada Agente 99 era muito mais esperta que o abilolado Agente 86. A tripulação do Star Trek era mais multiétnica que os anúncios da Benetton e da Natura ou aquela propaganda censurada do Banco do Brasil.

Sem contar que, bem antes das Marchas da Maconha, já lidávamos de boa com o uso de alucinógenos, como o pó de pirlimpimpim.

Do Zé Colmeia & Catatau e do Batman e Robin eu nem vou falar, porque ainda não consegui encontrar um jeito de aportuguesar “sugar daddy”.

Os fascistas e as tias do zap eram muito mais progressistas do que vocês imaginam.

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O Código Niemeyer

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Em tempos difíceis, nada como um pouco de escapismo.

Emprestado por meu pai (que era maçom), andei lendo “O símbolo perdido”, do Dan Brown – uma patacoada hilária sobre segredos maçônicos.

Não é bem um livro, mas um filme escrito (a adaptação para o cinema pode ser feita usando apenas uma copiadora xerox). Quanto ao estilo…

Não há uma porta sequer no livro que não seja pesada. A expressão “porta pesada” aparece dezesseis vezes (ok, ok, é implicância minha: não tem só porta pesada, tem também pesada porta).

“Os dois passaram por uma porta pesada”.
“Por fim, chegaram diante de uma pesada porta”.
“A porta pesada se fechou atrás deles”.
“A pesada porta se abriu com um rangido”.
“A pesada porta de madeira estava escancarada”.
“A luz, no entanto, foi detida por uma pesada porta de madeira”.

Há “um ponto fraco na pesada porta de segurança”,
“uma pesada porta de aço”,
“uma porta pesada que conduzia a um pequeno patamar”,
“uma pesada porta de metal”,
“a pesada porta se abriu com um clique”,
“uma porta de ferro pesada se abrindo”,
“uma pesada porta automática”.

Paradoxalmente, não se faz qualquer menção às dobradiças, que devem sofrer quase tanto quanto o leitor.

O mestre maçom, cujo sequestro detona a trama, tem olhos cinzentos. Para evitar que o leitor se esqueça disso, o autor se encarrega de nos lembrar desse detalhe importantíssimo 19 vezes.

O vilão tem pernas musculosas. Tão musculosas que o autor não se cansa de falar delas.

“Galgava os degraus com as pernas musculosas”.
“As pernas musculosas desenhadas como pilastras esculpidas em relevo”.
“Pernas fortes, musculosas, que mantinha sempre bronzeadas”
“Forçou as pernas musculosas contra o tronco”.

Haja whey!

Talvez por causa dessas pernas musculosas (mas não só por elas, já que tinha também peitorais desenvolvidos e um genital enorme), o vilão adora um espelho.

“Parou, sentindo-se atraído pelo enorme espelho dourado”.
“Examinou-se no espelho. Satisfeito, alisou o couro cabeludo com a palma suave de uma das mãos”.
“Olhou-se no espelho para verificar se não havia borrado a maquiagem” (Sim, o vilão usa maquiagem. Pesada, como uma porta).
“Então foi até o espelho e estudou seu corpo nu”.
“Parou nu diante do espelho e admirou a própria forma”.
“Havia parado de fazer musculação e também de se admirar nu no espelho”.
“Admirou como se olhasse para um espelho. Eu sou uma obra prima”.
“Estava em pé diante de um espelho de corpo inteiro, filmando o próprio reflexo”.

Narciso perde.

A palavra “pirâmide” aparece 454 vezes (o livro tem 478 páginas).
“Símbolo” aparece 199.
“Segredo” e “secreto”, 196.

O time dos Redskins é mencionado apenas 15 vezes – e o livro nem é sobre futebol americano!

Os personagens são um anúncio da Benetton: o Arquiteto é negro, a agente da CIA é japonesa, o vilão é turco, o guarda é hispânico, o motorista de táxi é árabe. Estou na página 284, então ainda podem aparecer um filatelista búlgaro, um ventríloquo basco e um obstetra tibetano.

E isso vende igual água.

De pura inveja, deu vontade de escrever um romance danbráunico – com muita pesquisa, muita conspiração e muito clichê.

Pra não parecer plágio, saem os símbolos maçônicos de Washington, entram os símbolos rotarianos de Brasília. Pode ser mais ou menos assim:

1.

“Nas reuniões secretas do Rotary em Belo Horizonte, sexto município mais populoso do Brasil, com área aproximada de 331 km2, situado na Serra do Curral, Juscelino e Oscar tramavam a construção de uma capital rotariana para o país.

– Uma cidade cheia de rotatórias, e apartamentos funcionais de alta rotatividade, pediu JK, pousando suavemente sua mão macia sobre o braço musculoso do Arquiteto.

– Será nosso segredo, Jota: uma cidade repleta de símbolos rotarianos que jamais serão decifrados, redarguiu o Arquiteto, pousando os suaves olhos cor de mel na prancheta de madeira de Pinus elliottii, uma espécie de pinheiro, composta de duas variedades, o Pinus elliottii elliottii e Pinus elliottii densa, originária do Novo Mundo e que faz parte do grupo de espécies de pinheiros com área de distribuição no Canadá e Estados Unidos da América (com exceção das áreas adjacentes à fronteira com o México).

JK assentiu balançando suavemente a cabeça, parte do corpo humano enformada pelo crânio, que protege o encéfalo.

Lembrou-se naquele momento de quando era criança, em Diamantina, suave município brasileiro do estado de Minas Gerais, com população estimada em 2013 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística em 47.647 habitantes.

Sua mãe, D. Júlia, era uma suave professora de ascendência tcheca, sendo seu sobrenome uma germanização do original tcheco Kubíček. Ela pendurava suavemente a roupa no varal e ele a ajudava, entregando-lhe suavemente os pregadores enquanto buscava, com seus suaves olhos de mel, decifrar o que se passaria na mente daquela suave mulher, que cantarolava:

– “Roda, roda, roda e avisa; um minuto de comercial. Alô, alô, Terezinha…..”

– Uma cidade onde a gente roda, roda, e nunca chega, com um pombal em formato de pregador de roupa – pediu JK, suavemente. O Arquiteto pousou seus suaves olhos cor de mel na prancheta de pinus e desenhou o símbolo do Rotary: dali surgiria a planta da catedral.”

~

Se eu conseguir manter este suave ritmo por suaves 500 páginas, o besticéler tá garantido. E as pesadas portas do sucesso hão de se abrir – suavemente.