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– Cara, olha como a língua portuguesa é rica: no Dicionário Aurélio constam 435 mil verbetes…

– Top!

– Eu podia dizer que são 435 mil palavras, mas existe uma palavra específica para essas definições que a gente encontra nos dicionários, que é verbete. Este é o termo correto. Verbete não é só a palavra, mas também suas definições, os vários sentidos que ela pode ter, os seus sinônimos…

– Top.

– E veja quantas opções existem para a palavra “palavra”: termo, vocábulo, expressão…

– Top…

– E cada uma com uma nuance.  Por mais que “palavra” e “vocábulo” sejam sinônimos, você nunca vai dizer “vocábulos românticos” ao ouvido de alguém.  Não é por serem sinônimos que podem ser usados, ou empregados, ou utilizados indistintamente.

– Top.

– Temos um vocabulário considerável. “Usar” pode ser o mesmo que “utilizar”, mas depende do contexto. “Usei uma ferramenta” ou “utilizei uma ferramenta”, tanto faz. Mas não há lojas de “roupas utilizadas”.  E ninguém “utiliza drogas” no sentido de “consumir drogas”, mas apenas quando, por exemplo, trabalha com drogas em laboratório.  Viu como é sutil?

– Top…

– E mesmo “sutil” pode ser algo quase imperceptível, ou elegante, sagaz, misterioso, delicado, tênue, fino, suave. Olha quanta sutileza.

– Top.

– O que eu estou querendo dizer é que nós dispomos de um léxico muito vasto – que é uma maneira mais elegante de falar que temos um vocabulário muito grande – para ficar nos valendo sempre dos mesmos termos, entende? Um filme pode ser incrível, ótimo, sensacional, maravilhoso, estupendo, formidável, extraordinário, fascinante, impressionante, magistral, sublime…

– …ou top.

–  … e cada um desses adjetivos… como assim, top?

– Top.

– Sexo quando é gratificante é o quê?

– Top.

– Um churrasco bem servido, com cerveja gelada?

– Top.

– Um aumento de salário? Exame de gravidez negativo? Férias em Noronha? Pênalti a favor no último minuto?

– Top. Top. Top. Top.

– Cara, você precisa desenvolver sua comunicação verbal. Tudo pra você é top. Topa incorporar uma nova palavra por dia? Só hoje você já vai dobrar o seu vocabulário!

– Show.

Malungo

Etimologia

Pode parecer maluquice – palavra de origem controversa: viria do latim “malus” = mal, ou dos malucos, habitantes das ilhas Molucas , que vendiam cravo e noz moscada a preços absurdos, e lutaram ferozmente contra os portugueses -, mas tenho um dicionário na mesa de cabeceira, e o leio como se lê romance.

Ali não faltam personagens extraordinários, enredos mirabolantes, viradas de roteiro, palavras cujo passado contém segredos que talvez jamais sejam revelados, outras que morreram, que ressuscitaram, que se reinventaram, que usam máscaras, mentiras, maquiagem pesada.

O dicionário é meu I-Ching. Abro-o ao acaso (hoje foi na letra M) e tenho revelações.

Maçaneta tem esse nome devido à semelhança com a maçã. No século 16, quando a palavra nasceu, possivelmente ainda não havia maçanetas de alavanca (alavanca é das que têm origem misteriosa).

Macabro vem dos macabeus, heróis bíblicos cujo culto estava relacionado com a morte, e que ganharam esse nome por causa de Judas Macabeu, – literalmente, Judas Martelo, aquele que golpeia o inimigo, aquele que persegue e procura exterminar um mal.

Em latim, martelo é malleus – de onde provém “maleável”, o que se dobra ao martelo.  Seria a morte maleável?

O calçamento de pedra britada, aglomerada com saibro e areia grossa e comprimida a rolo depois de molhada se chama macadame por causa do inventor dessa técnica, o engenheiro escocês John Mc Adam.  Não tem nada a ver com a noz macadâmia, que deve seu nome a outro John Mc Adam, só que naturalista e australiano.

Machete era uma pequena viola; depois – ah, as artimanhas do destino! – virou um sabre de dois gumes.

Maçom vem de “makón”, o ato de preparar a argila para a construção. Maçonaria era a arte dos pedreiros. Não à toa chamam Deus de Supremo Arquiteto…

Maconha vem do quimbundo, e quer dizer erva santa.
Macaxeira era um dos nomes do diabo entre os índios do Brasil.

Se fumar maconha comendo macaxeira, estará acendendo uma vela pra Deus e outra pro diabo – só que o diabo não é o que parece.

Madeixa, hoje apenas uma porção de cabelos, quer dizer “seda crua”.  Madeixas sedosas serão um pleonasmo.

Mago, que hoje significa mágico, feiticeiro, encantador, vem do grego “mágos” (sábio, sacerdote).  Os reis magos não seriam nem reis nem feiticeiros, mas homens sábios (e talvez nem fossem três, mas doze). Um dos presentes que levaram era a mirra, uma planta utilizada para secar feridas e embalsamar cadáveres.  Daí o verbo mirrar: ressequir, reduzir.

Malária é, literalmente, ar insalubre (mala + aria). Por isso não se pega malária em Buenos Aires.

Mancebo é o mesmo que moço, amante. Daí vêm tanto emancipar (libertar) quanto amancebar (prender-se a alguém, mas sem os vínculos do casamento).  Mancebos emancipados e amancebados vivem uma espécie de liberdade bipolar.

Manco é igual a coxo (aquele que tem uma perna mais curta). Mas vem do latim “mancus”, derivado de “manus” (mãos). É manco, etimologicamente, aquele a quem falta… mão.

De “manus” também vieram manha e manhoso, no sentido de habilidade manual. Para, por exemplo, fazer manobras de várias maneiras, manusear manuscritos e manipular manivelas.

Manicômio é onde se cura a mania (“manía” = loucura, demência).
Marechal era quem cuidava dos cavalos.

Margarida quer dizer pérola, e foi daí que veio margarina (combinação de ácido margárico e glicerina).
Marmita vem do francês “marmite”, que significa hipócrita (“por causa do conteúdo escondido do recipiente”).

Por fim, bate o sono – hora de devolver o livro das palavras à mesinha de cabeceira – e vem a melancolia, de “melanós” (a mesma origem de melanina, melanoma). Melancolia não é mais que a bílis, o fel negro, o veneno sombrio.

Abri o I-Ching com maçaneta. Fechei-o com melancolia.  E que ninguém venha me dizer que o dicionário etimológico não é um romance cheio de mistérios, intrigas, encontros, desencontros e sabedoria.

Homônimos & parônimos

paronimos

Meses atrás, recebi de uma das maiores empresas de engenharia consultiva do país um documento solicitando delação de prazo para atender uma exigência legal.

Há coisa de uma semana, outra empresa de engenharia, também grandinha, mandou um relatório no qual informava que parte do reboco da fachada de uma edificação apresentava risco eminente de queda.

Neste segundo caso, fiquei tranquilo. Riscos eminentes hão de ser riscos importantes, proeminentes, magníficos – mas nada urgente. Fossem riscos iminentes, aí, sim, alguma providência tinha que ser tomada – e já!

Quanto à delação do prazo, fiquei na dúvida se era para ser feita à Prefeitura (onde corria o processo de aprovação) ou à Polícia Federal, e imaginando se o crime de atraso seria tão grave assim para merecer ser delatado.

A culpa não é dos engenheiros que confundem eminente e iminente, delatar e dilatar, mas da língua portuguesa, que, tendo 26 letras com as quais produzir permutações, combinações e arranjos os mais variados, faz corpo mole e cria essas pequenas variações em torno do mesmo tema.

Na vida profissional, já me deparei com esquadrilhas de alumínio. Com casas germinadas. Com telhas quebradas durante uma chuva de granito. E vários terrenos com problema de uso campeão.

Esse “uso criativo do idioma” é obra dos neurônios estagiários, que não querem suar a camisa e pegam a primeira palavra que soar parecida à que procuram. É por causa deles que tem gente que adoça e assusta cheque, desliga o fuzil e paga carneiro do INSS.

Quem já ficou na dúvida entre a apóstrofe e o apóstrofo, a descrição e a discrição, a dispensa e a despensa não precisa se infligir nenhum castigo por (quase) infringir uma regra da semântica. Basta espiar o dicionário (ou o gúgol, que é pai dos burros conectados) para não ter que expiar a culpa depois.

Devia haver uma seção de reclamações sobre essas pegadinhas do idioma, onde se pudesse pedir a cessão do direito de criar palavras novas, inconfundíveis. Ou, em último caso, uma sessão de descarrego para nos absolver de todos os pecados cometidos contra o vernáculo e nos tornar capazes de absorver essas sutilezas.

Ou não.

O idioma fica mais fragrante com a distinção menos flagrante entre as palavras.

Um cliente me pediu, há muitos anos, que projetasse para sua casa um telhado de vidro, enchendo o espaço de luz natural. Desenhei uma claraboia bem bonita, oval. Soube depois que ele andou elogiando o resultado, e dizia que seu lugar favorito era aquele cantinho com luz genital.

 

(originalmente publicado em 8 de janeiro de 2019)