Love is in the air

Dia dos namorados, muita gente sem namorado/a/x querendo se arrumar, muita gente namorando e querendo dar um apigreide, respirar novos ares ou, quem sabe, apenas trocar de encosto.

Do alto das minhas seis décadas – boa parte delas passando o dia dos namorados chupando dedo – me sinto no direito de dar alguns conselhos a quem queira desencalhar até a meia-noite:

💔 Não tente ser sexy.

Quem é sexy é sexy até palitando os dentes. Quem não é pode esquecer aquela história de morder os lábios, murchar a barriga, forçar uma lordose, chacoalhar os cabelos como se estivesse num caraoquê dos Engenheiros do Hawaii.

Seja você mesmo/a/x, por mais que isso reduza suas chances. Bancar o/a/x sexy vai é acabar de vez com as poucas chances que lhe restam.

💔 Não tente parecer mais inteligente do que é.

Se o namoro engatar, a verdade virá à tona antes de a ciência viabilizar o transplante de cérebro – e muito antes que o seu plano de saúde cubra esse tipo de procedimento.

Não use palavras cujo significado você desconheça, ou vai ser um equinócio daqueles.

Não diga que viu os filmes do Foucault, que adorou os romances do Tchaikovsky – principalmente se não souber soletrar tchaicosque ou pronunciar fucô.

Assumir a ignorância e demonstrar interesse contam muito mais que qualquer falsa erudição.

💔. Não fale do/a/x ex.

Piadas de fanho, doenças infecciosas na família e histórias do/a/x ex são abortivos naturais de relacionamentos.

Pesquise no gúgol: há bilhões de coisas sobre as quais você pode falar. Ex, definitivamente, não é uma delas.

Seu/sua/sux pretendente/a/x não está nem um pouco interessado/a/x nas pessoas/pessoos/pessoxs com quem você andou se pegando.

Fale de si ou (melhor ainda!) queira saber dele/a/x.

Se ex merecesse ser mencionado/a/x, não teria virado ex.

❤️ O primeiro passo para arrumar alguém é não precisar desesperadamente de ninguém.

Estar bem sem ninguém é condição fundamental para se tornar interessante aos olhos do outro. Se você não aguenta ficar na sua própria companhia, por que outra pessoa te aguentaria?

Daí a dar uma de autossuficiente vai uma enorme distância. Você não precisa do outro para ser feliz, mas estando com o outro a felicidade é mais plena. Ou, pelo menos, a vida sexual diversifica um pouco.

❤️ O namoro vem – não precisa forçar.

Conheça, converse, convide, aceite o convite, vá para a cama – ou para o banco de trás -, ensaboe as costas dele/a/x, faça massagem nos pés, descubra interesses em comum (e interesses incomuns).

Se tudo isso for bom (principalmente a massagem nos pés), e se os interesses incomuns não forem muito bizarros, aí, sim, considere a possibilidade de transformar isso em namoro.

Boas amizades ou transas maravilhosas podem ir a pique se você tentar, por carência e/ou ansiedade, fazer delas o que elas não são.

❤️ Ache seu nicho de mercado.

Por que alguém escolheria você e não outro/a/x?

Porque você tem um diferencial. Você lava mais branco, tem tração nas quatro rodas, forno autolimpante, lactobacilos vivos. Tem mais vitaminas, proteínas e sais minerais, não tem gordura trans, não amarrota nem perde o vinco. Você não desbota, não solta as tiras, funciona 24 horas, é satisfação garantida ou o dinheiro de volta. Você tem enxague em quatro velocidades, frost free, o maior porta-malas da categoria. Você tem energia de dá gosto, é tudo que o dinheiro não pode comprar, o fino que satisfaz, vale por um bifinho e tem mil e uma utilidades. Você desce redondo, é impossível comer um/a/x só.

Sabe o que isso significa, não? Seja único/a/x. Elogie as sobrancelhas, em vez da bunda ou do peitoral. Sugira Ibitipoca em vez de Búzios. Cite Barthes (se você realmente conhecer Barthes, souber como se escreve Barthes e conseguir pronunciar Barthes) em vez de frases de autoajuda (feiques) da Clarice Lispector.

💞 Goste de “coisas de homem” (se for mulher) ou de “coisas de mulher” (se for homem) – e de coisas de homem e de mulher se for trans ou se quiser mesmo ser uma pessoa interessante.

Fuja do óbvio, do estereótipo. Atitude é isso – e não, como muita gente imagina, fazer selfie com decote e duck face, ou andar com metade da cueca aparecendo.

💘 Agora, se, mesmo assim, continuar sozinho/a/x, não tente se iludir com aquele papo de que é porque você é seletivo/a/x.

Conforme-se.

Seletivos, no caso, são os outros.

Coroa de programa

coroa

Se o PSL não conseguir reaquecer a economia – ainda mais com essa nova investida dos partidos de oposição (PT, PSOL, PC, PC do B, PFB [Programa da Fátima Bernardes], OAB e Intercept), e o mercado de trabalho para arquitetos continuar nesta pasmaceira, o jeito vai ser virar coroa de programa.

Há de haver clientela interessada em algo mais que um corpinho sarado e cheio de tatuagens, com vocabulário limitado a sete ou oito gírias. Uma freguesia que se iluda com a falsa maturidade de uma barba grisalha e caia no conto de alguém que use crase até quando fala, cite Barthes e Lobo Antunes, elabore metáforas e, em casos extremos (valor sob consulta) encaixe uma e outra mesóclise.

As diferenças entre um garoto de programa (GP) e um coroa de programa (CP) são muitas – e até justificam o cachê mais elevado.

Em vez de dar duas ou três, o coroa de programa só dá uma – mas começando na sexta à noite e terminando no domingo à tarde. Aí incluídos um jantar à luz de led (serei um CP moderno), um “Begin the beguine” de rosto colado (com pleilistes variadas, de Cole Porter a Amado Batista), uma caminhada ao luar pela praia (de mãos dadas tem adicional de 10%), e longos papos sobre viagens, livros, cachorros (ou séries, games e gatos – um CP tem que ser versátil).

Ao contrário do GP, o CP não tem pressa. Até porque ele precisa tomar fôlego. Daí as pausas estudadas, a atenção aos detalhes, os circunlóquios, os negaceios, as firulas, os meandros, os rodeios.

O coroa não chega às coxas sem antes tecer loas à canela e fazer uma parada estratégica para recuperar as energias antes da ode aos joelhos. Perde-se em mil digressões no decote, no colo, nas doces curvas da clavícula, até chegar aos seios. Os mamilos podem ouvir tranquilamente os 22 volumes da “Aquarela Brasileira”, do Emílio Santiago – ou assistir a uma maratona dos 236 episódios de “Friends” – até chegar sua vez.

Além da massagem tântrica de praxe, o CP faz drenagem linfática, massoterapia, shiatsu para aliviar a dor no ciático e aquela massagem que cura dor de corno e dor de cotovelo, que é a massagem no ego.

O que lhe falta em vigor, o CP compensa com olhares penetrantes, dedos entrelaçados e um tom de voz entre o baixo e o barítono (algo que lembre vagamente o Cid Moreira com faringite).

E CP não perde tempo tateando no escuro em busca do ponto G. Por que essa ênfase numa letrinha só, tendo o alfabeto inteiro a explorar? Na hora H, o CP põe os pingos nos Is e te coloca em contato com seu lado B, além de mostrar que há “n” maneiras de abordar o X da questão.

O CP há de fazer do Dia dos Namorados o seu dia D.

Só não pode querer fazer tudo, de A a Z, para não acabar a noite na UTI.