Gênesis revisitado

Genesis

No princípio criou Deus o céu e as terras (uma esférica e uma plana – esta última, para ser usada até o século 6 a.C e depois só no século 21).

E disse Deus: Haja luz; e houve luz.
Deus viu que era boa a luz e instituiu as bandeiras tarifárias verde, amarela e vermelha.

Então Deus separou a luz das trevas – instituindo o divórcio – e as águas das terras secas – as águas, que deviam ter o melhor advogado, ficaram com 75% de tudo. Criou as espécies vegetais e animais, e as estrelas do firmamento.

Tudo isso em 5 dias, sem hora-extra.

E então no sexto dia criou Deus o ser humano à sua imagem; homem e mulher os criou.

Preparava-se para descansar no sábado quando viu que tinham ficado faltando os transgêneros.

E os FTM (Feminino para Masculino)

E as MTF (Masculino para Feminino)

Então, ao sétimo dia os criou.

No oitavo dia, se deu conta de que tinha esquecido os intergênero.

E o andrógino.

E o agênero.

E o terceiro gênero.

E os não binários.

O descanso ficou para o nono dia, quando, ao acordar, percebeu que Sua obra permanecia inconclusa.

E criou o pangênero.

E o epiceno.

E o travesti e a travesti.

E o crossdresser.

Deu os trâmites por findos, mas ao décimo dia Lhe ocorreu que precisava esquematizar melhor a coisa.

Definiu que haveria o sexo biológico (masculino, feminino e intersexo), a expressão de gênero (homem, mulher e não binário), a identidade de gênero (cisgênero e transgênero) e a orientação sexual (heterossexual, homossexual, bissexual, pansexual e assexual).

Ao décimo primeiro dia, percebeu que isso funcionava bem na teoria, com a combinação, permutação e arranjo de sexo biológico, expressão de gênero, identidade de gênero e orientação sexual dando origem a um número elevado, porém finito, de possibilidades.

Mas havia os genderfluid, que transitavam pelos gêneros ao sabor do momento.

E os genderqueer, que não são nem 100% homens, nem 100% mulheres e que agem contra as normas de gênero.

E as drag queens, que não necessariamente eram travestis nem crossdressers. E, se bobear, nem mesmo gays.

E as transformistas, que eram as drag queens que apareciam no programa do Silvio Santos antes de as drag queens serem inventadas.

Então, ao décimo segundo dia Deus concluiu de que era questão de tempo para aparecerem os metrossexuais, os incels, as fisiculturistas, os estudantes de Ciências Sociais, as neopentecostais de saia jeans na altura da canela, as bandas de pop coreano, os bi curiosos, as agentes da Imigração americana, os narcisistas, as feministas radicais, os fiscais da sexualidade alheia, as nadadoras da finada Alemanha Oriental, a Laerte e o Marco Feliciano.

Deus lavou as mãos e foi criar um universo paralelo.

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Santa treta, Batman!

treta

Nada contra 007 ser mulher, ou negra.

Podiam ter criado a agente 008, ou, para maior empoderamento, a agente 700.

Mas talvez 007 seja o cargo – que, afinal, já foi ocupado por Sean Connery, Roger Moore, Pierce Brosnan, David Niven, até o aviso prévio do Daniel Craig.

Era natural que uma mulher assumisse o posto algum dia.

Nada contra a pequena sereia ser negra.

Dinamarquesa e negra, qual o problema? Afinal, Branca de Neve também já foi negra (Adele Fátima, quem não se lembra?).

São personagens de ficção. São seres imaginários.

Deus era sempre homem e branco. Mas já foi negro (Morgan Freeman). E negra (Octavia Spencer). E o Vaticano continua de pé,

Até Marighella (que não era personagem de ficção) já foi negro – o que abre precedentes para que Martin Luther King seja representado por um ator nórdico, ou Nelson Mandela, por um coreano.

Kate Blanchett já interpretou Bob Dylan.
Nathalia Timberg foi mãe da Susana Vieira.

Temos que nos libertar desse “naturalismo” e entender que atores não são: atores representam.

Imaginem se gays só pudessem representar personagens gays. O que teria sido da carreira de tantos galãs de Hollywood e de novelas? Se para fazer um serial killer o ‎Anthony Hopkins tivesse que ter cometido sei lá quantos assassinatos?

Tirando o Schwarzenegger, ninguém mais poderia fazer papel de robô.

Foi-se o tempo em que a vilã da novela era xingada na rua e o vilão não era convidado para apresentar baile de debutante no interior.

Cinema, teatro, pintura, é tudo mentira.
A arte é uma ilusão.
Representar, etimologicamente, quer dizer “colocar-se à frente de”.
Não é ser tal e qual: é estar no lugar de outro.

Só vou ficar preocupado quando o Super Homem for mulher trans lésbica negra acima do peso não binária e soltar teia de aranha pelos pulsos.

Ou o Homem Aranha virar um halterofilista verde nos dias em que se esquecer de tomar o rivotril, tiver uma chimpanzé de estimação chamada Chita e morar na Batcaverna.

Veritas liberate vos

Veritas

“O problema das citações na internet é que é difícil verificar sua autenticidade” (William Shakespeare).

Não é preciso ter lido tudo do Fernando Pessoa para saber que ele nunca escreveu

“Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. (…) Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos, nem chatos.”

Tampouco cometeu

“Deus costuma usar a solidão
para nos ensinar sobre a convivência.
Às vezes, usa a raiva, para que possamos compreender
o infinito valor da paz.”

Pessoa jamais escreveria uma paulocoelhice dessas.

Aliás, o texto é mesmo do Paulo Coelho.

Pessoa escreveu, sim,

“Ninguém sabe que coisa quer. Ninguém conhece que alma tem”.

Quem já leu o Jabor sabe que ele tem inteligência suficiente para não perpetrar algo como

“Tenho horror a mulher perfeitinha. Odeio qualquer uma que fique maravilhosa num biquíni. Sabe aquele tipo que faz escova toda manhã, está sempre na moda e é tão sorridente que parece garota propaganda de processo de clareamento dentário? E, só pra piorar, tem a bunda dura feito pão francês com mais de uma semana? Pois então, mulheres assim são um porre. E digo mais: são broxantes.”

Jabor escreveu, sim, que

“amor é prosa, sexo é poesia”.

Niemeyer nunca escreveu

“Projetar Brasília para os políticos que vocês colocaram lá, foi como criar um lindo vaso de flores para vocês usarem como pinico. Hoje eu vejo, tristemente, que Brasília nunca deveria ter sido projetada em forma de avião e sim de camburão…”.

Você consegue mesmo imaginar o elegante Oscar falando em “lindo vaso de flores” e escrevendo “pinico”?

Niemeyer escreveu, sim,

“Não é o ângulo reto que me atrai. Nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual. A curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas nuvens do céu, no corpo da mulher amada. De curvas é feito todo o universo. O universo curvo de Einstein.”

Desconfie de todos os poemas da Clarice Lispector, pelo simples fato de que ela nunca escreveu poema algum. E desconfie, também, de todas as frases fáceis atribuídas à Clarice Lispector.

Não, Clarice nunca escreveu

“Abra e feche as gavetas
e portas com a mão esquerda.
Durma no outro lado da cama.
Viva outros romances!”.

Clarice escreveu, sim,

“Não se preocupe em entender. Viver ultrapassa qualquer entendimento.”

Sentiu a diferença?

Não, o Veríssimo jamais escreveu

“Fazer amor é lindo, é sublime, é encantador, é esplêndido, mas dar é bom pra cacete.”

O Veríssimo também não escreveu sobre o dia em que sua mulher filmou seu exame de próstata.

Para quem não conhece, o Veríssimo é mestre do humor e da sutileza.

Não, o Drummond nunca escreveu

“A dor é definitiva
O sofrimento é opcional”.

Drummond, nem em sonho, escreveu poesia de autoajuda.

Escreveu, sim,

“A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos”.

Herbert Vianna nunca escreveu

“Gordura é pecado mortal. Ruga é contravenção. Roubar pode, envelhecer, não. Estria é caso de polícia. Celulite é falta de educação. Filho da puta bem sucedido é exemplo de sucesso. A máxima moderna é uma só: pagando bem, que mal tem?”.

Herbert Vianna escreveu que

“se tudo tem que terminar assim
que pelo menos seja até o fim
pra gente não ter nunca mais que terminar”.

Como é que sei tudo isso?
Não sei.

É como uma voz de criança ao telefone dizer que quem está falando é síndico. Como ouvir um miado e ter certeza que não é de um cachorro. Ou intuir que o funk das popozudas (que não sei de quem é) não seja do Beethoven.

Para isso, não é preciso conhecer toda a obra de Beethoven, já ter falado com o síndico ou ser especialista em funk ou vozes animais.

Ao contrário do Shakespeare, não creio que o problema das citações na internet seja verificar a sua autenticidade – até porque esta frase (ainda mais por estar em português) tem tudo para ser do Camões, não dele.

O problema é que é mais fácil enganar as pessoas do que convencê-las de que elas foram enganadas.

(Esta é do Mark Twain. E o título deste texto – “A verdade vos libertará”, em latim – é de João 8:32. Se virem isso atribuído a Jojo Toddynho ou Marcia Tiburi, desconfiem).

 

(publicado originalmente em 2 de abril de 2019)