Números

Noêmia se preparava para sair do cemitério, amparada pelos filhos, quando Moacirzinho a puxou pelo braço.

– Mãe, tá ouvindo?

Soluçando e fungando, Noêmia não ouvia nada.

– Mãe, escuta.

Todos pararam. Zirlene, que não tinha largado o celular um minuto durante todo o sepultamento, tirou o fone do ouvido e também ouviu.

– O barulho. Lá embaixo.

Havia mesmo um tum tum tum abafado, vindo debaixo do montinho de terra fofa.

Tudo bem que não tinha havido velório, que Moacir fora entregue envelopado e ninguém pudera ver o corpo, mas…

Começou o corre-corre, o escava-escava. O coveiro com a pá, Moacirzinho e o os primos e tios, com as mãos.  O tum tum tum cada vez mais forte, até que chegaram ao caixão, abriram-no, puxaram o fechecler do saco plástico e lá estava Moacir, de olhão arregalado.

Noêmia não sabia se desmaiava de emoção ou de pavor.

– Papai! – contra todas as recomendações médicas, era Moacirzinho que se jogava sobre o corpo do pai, dando no reencontro o abraço que não pudera dar na despedida.

Içaram Moacir enquanto Noêmia recuperava os sentidos.

Claro que estavam todos perplexos e felizes, mas era nítido que havia algo errado com Moacir.

Ele não respirava.

– Pai, você tá bem?

Moacir não respondeu.

Valdemar apalpou o irmão e declarou:

– Ele está duro.

– Rigor mortis – pontificou o coveiro, gastando o único latim que sabia.

Zirlene, de celular em punho, decifrou o mistério.

– Foi o governo. Papai não está mais morto. Ele e mais 352 foram ressuscitados na recontagem.

Ficaram todos imóveis – Moacir mais imóvel que os outros.  Quiseram levá-lo para casa, mas ele não andava.

– Rigor mortis, eu falei – repetiu o coveiro. As juntas não dobram.

Carregaram-no até o Uno, mas logo viram que iam precisar de uma Kombi ou, quem sabe tivessem que levá-lo em pé, de ônibus.

Moacir não só não respirava como não piscava, e só parava em pé porque Valdemar e Moacirzinho o seguravam.

Noêmia pensava num jeito de desmaiar de novo e acordar apenas quando tudo aquilo tivesse acabado.

– Gente – falou Zirlene, ainda mexendo no celular – parece que o Globo, a Folha e o Estadão estão fazendo uma contagem paralela dos óbitos e…

No meio da frase, Moacir caiu para trás. Mais duro do que antes.

Novo normal

Sabe quando você acorda depois de quase três meses em coma e percebe que o mundo está diferente? Nem eu nem você devemos saber, porque possivelmente não passamos por essa experiência, mas dá para imaginar, não dá?

Pois passei por isso na sexta-feira, quando fui a Nova Iguaçu, a trabalho.

Sou arquiteto, e arquiteto tem que ir aonde o terreno está. Como o terreno de um possível novo projeto estava em Nova Iguaçu, lá fui eu.

Tudo parecia do jeito que sempre foi.
Américas, Ayrton Senna, Abelardo Bueno e Transolímpica com tráfego intenso.
Avenida Brasil engarrafada.
Dutra com aquele trânsito pesado de sempre.

Nova Iguaçu de ruas lotadas.
Filas nas portas de bancos.
A mega-sena devia estar acumulada, porque havia aglomerações na frente de todas as lotéricas.
E também em todas as calçadas, em todos os sinais.

Tudo aparentemente normal, mas senti certa estranheza, e por uma coisa banal.

Pode ser uma nova moda, uma brincadeira tipo Pokemon, uma festividade local, mas… por que algumas pessoas, aqui e ali, usavam máscaras?
Não aquelas de Carnaval, cobrindo os olhos, mas coloridas, ora cobrindo só a boca, ora o queixo, ora pendurada na orelha.

Não deu para fazer uma estimativa confiável (eu estava dirigindo, tinha que me desviar dos pedestres, dos carros que entravam na preferencial, até de uma charrete), mas diria que cerca de 40% da pessoas usavam algo imitando máscaras, ou coisa que o valha.

Como podia ser alguma prescrição religiosa – e por acaso havia uma máscara no meu carro -, coloquei-a também.

Meus clientes não usavam máscara nenhuma. Me apertaram a mão efusivamente, o que também me deu uma sensação esquisita (nos quase três meses em coma metafórica, tive a impressão de não ter apertado a mão de ninguém, nem falado com ninguém a tão curta distância).

A experiência de ver aqui e acolá uma pessoa com um pano colorido na cara – ou no queixo, ou na orelha – me causou certo desassossego.

O resto estava normal.

Estranha e absolutamente normal.

A conta

O garçom se aproxima, solene, com a conta.São 9.265 mortes, senhores. Sem os 10%. Não aceitamos crédito; só débito ou dinheiro.

Os comensais se entreolham.

Uma senhora muito distinta, única mulher à mesa, se apressa em tirar o seu da reta.

– No que se refere a essa conta, tem uma coisa muito importante que é, não sei se vocês sabem, mas eu nunca estimulei aglomeração. Aliás, onde eu chego, as pessoas se afastam.

Fala olhando para todos, menos para um senhor desalinhado, de cabelo mal cortado e maneiras rudes à mesa.

– Minha senhora, não fui eu que pedi uma refinaria enferrujada em Pasadena que custou quase 2 bilhões, o suficiente para construir 200 hospitais de campanha, talquei?

– Calma, cumpanhêro – apressa-se em apartar um simpático senhor barbudo. A gente tamo junto e vamo rachá a conta direitinho. Um Fiat Elba, quem foi que pediu?

Outro senhor, de porte altivo e nariz aquilino, se levanta, indignado, e dá um murro na mesa.

– Meu povo! Não me abandonem! Eu não admito! O Youssef não trabalhava pra mim Esse Queiroz também meu não é…

– Calma, xará… – diz pausadamente o afável comensal da cadeira vizinha. Vamos começar pelas entradas. Quem foi que usou verba pública para ganhar um ano de mandato, verba que, se aplicada onde devia, talvez pudesse ter poupado tantas vidas no Maranhão?

– Maribondos de fogo me mordam! O valor gasto na aprovação da emenda da reeleição é que poderia ter sido usado em São Paulo, que, por sinal, é onde há mais mortes…

O elegante senhor de cabelo impecável, mãos manicuradas e olhar transilvânico, pede um aparte:

– Caros confrades…

– E confradas… – resmunga a senhora de taiê vermelho.

– Caros confrades e confradas, tem que manter isso, mas lembrar-lhes-ei que o Mensalão e o Petrolão…

Não consegue dizer mais nada. Instaura-se o caos.

– Eu não pedi sítio em Atibaia! Eu não botei parente no governo!

– Esse Centrão aí não é o meu! O meu era mal passado.

– Esse Banestado é de quem? E esse Friboi?

– Eu só quero que as pessoas sai na rua, trabalha, se pegar a gripezinha, pegou, morre, fazer o quê com isso daí, porra?

O garçom retorna ao caixa.

– Pendura a conta, Pacheco. Quem vai pagar, de novo, é o povo.

A indesejada

As coisas têm, como nós, uma roupa de ficar em casa, uma de ir à missa. Têm modos de quem come se servindo da panela, na cozinha, e modos de quem segura o garfo com o polegar e o indicador e não põe os cotovelos na mesa, na sala de jantar.

Por isso existem o favor e o obséquio, o beijo e o ósculo, o azar e a desdita (e o revés, a desventura, o infortúnio – o azar tem um closet inteiro).

Vejam a morte. É uma palavra áspera, ríspida, sem muita cerimônia, em trajes que não permitem entrever se tem peitoral ou seios, se tem cintura e quadris. É sem vaidade, e serve para qualquer vivente, bicho ou planta. Os preços podem estar pela hora da morte, muita coisa é questão de vida ou morte, ficamos pensando na morte da bezerra.

A morte é trivial. A morte é o fim, e ponto. E o que é o óbito? O óbito é a morte sem mortalha, é a morte em traje de gala.

Óbito vem do latim “obire”:  ir (“ire”) na frente, se afastando (“ob”).  É apenas partir antes.

A morte dói; o óbito vem com anestesia. Por isso, nas estatísticas da pandemia se prefere falar no número de óbitos, não em mortos, cadáveres, finados, defuntos.

O que também não seria problema: cadáver é, literalmente, “caído”. Defunto é o que cumpriu o que tinha que ser cumprido, pagou o que devia ser pago, completou seu tempo de vida. Finado é o que finou-se.

Além da morte e do óbito, temos ainda o falecimento. Falecer é, além de uma das palavras mais lindas do idioma, uma das mais falaciosas: falecer é enganar, fingir, ser infiel, não cumprir o trato.  Falecer, falsidade, falta e falácia têm a mesma origem (“fallere”).  De onde também veio o desfalecimento, o desmaio – que, como o sono e o orgasmo, são pequenas mortes.

Por tudo isso, optamos pelo óbito, que não tem as mãos calejadas da morte, prefere o jaleco branco ao manto preto, o bisturi à foice. A morte é o fim; o óbito, uma ultrapassagem, uma precedência. Falecimento é um eufemismo (ninguém falece de covid, de acidente de trânsito, de bala perdida).

Mesmo sem saber etimologia, o sepultamento nos comove menos que o enterro. Enterrar é cobrir de terra; sepultar é apenas fazer desaparecer.  Por isso cremamos (reduzimos a cinzas), em vez de queimar os nossos mortos: cremar e queimar são a mesma coisa, mas sabemos a dor das queimaduras, desconhecemos a da cremação.

A morte é uma fatalidade. E fatalidade é uma sentença divina. Fatal é o que causa a morte (o óbito, o falecimento, o passamento, a ida para o mundo dos pés juntos, o abotoamento do paletó, o batimento das botas, a partida desta pra melhor, o envergamento do pijama de madeira, o embarque na derradeira viagem, a passagem para outro plano, o esticamento das canelas, a degustação de capim pela raiz, a transformação em purpurina).  Portanto, esqueça aquela história de “vítimas fatais”. A menos que a vítima tenha matado alguém, a vítima é apenas a vítima: fatal é a doença, o acidente.

E a vida. Porque a vida, sim, é fatal.