Principal e acessório

Kirk

O marido da Gisele Bündchen entrou na brincadeira de ser mais conhecido no Brasil como “o marido da Gisele Bündchen”, assumindo-se orgulhosamente como marido da Gisele Bündchen e pronto.

Coisa que o namorado da Fátima Bernardes ainda não fez e talvez jamais faça.

Fossem mineiros, tanto o marido da Gisele Bündchen quanto o namorado da Fátima Bernardes teriam tirado isso de letra. Lá em Minas, todo mundo é alguma coisa de alguém.

Minha mãe, antes de se casar, era Maria de Zizico. Casada, virou Maria de Sidney.

Meu pai, que era o Sidney de Custódio, virou Sidney da Conceição (nome de sambista, mas quis o destino que ele não tivesse ritmo nenhum e fosse advogado).

Fui, durante boa parte da minha vida, “o filho do juiz”.

Para quem não sabe, no interior, “filho do juiz” é um cargo honorífico, tipo “mulher do padre”.

Ser filho do juiz oferece duas alternativas: a) ser um mané consumado, pegando carona na autoridade paterna, ou b) despirocar de vez, seja se prevalecendo das costas quentes que o cargo de filho do juiz proporciona, seja para marcar posição e provar que ser filho do juiz não o tornou um mané consumado.

Eu optei pela letra a. Meus irmãos, livres desse encargo, gabaritaram marcando b.

É assim mesmo.  Tarcísio Filho sempre vai ser “filho do Tarcísio. Lulinha vai morrer sendo “filho do Lula”. Jesus Luz, o “ex da Madonna”. Aurora Miranda, a “irmã da Carmen”.

O Sorvete Alex vai ser sempre “atrás do Copacabana Palace” – o Copacabana Palace nunca vai ser “na frente do Sorvete Alex”. E olha que o sorvete do Alex é bom.

Quando quiserem lustrar a biografia do Alexandre Frota, vão dizer que ele foi casado com a Cláudia Raia. Quando quiserem alfinetar a Cláudia Raia, dirão que foi casada com o Alexandre Frota.

Não é uma questão de ser melhor ou pior. Mas do brilho de cada um. Do carisma. Daquele jenessequá que se nem os franceses conseguem definir, imagine eu.

Rosane é a ex do Collor – Collor nunca vai ser “o ex da Rosane”.

Marco Aurélio é o primo do Collor – Collor nunca vai ser “o primo do Marco Aurélio”.

Um dia, quando me julgava já liberto da sombra paterna, me tornei “o dono da Benedita”.

Faz parte.

Chamem o Brad Pitt de “ex da Jennifer Anniston”.

O Silvio Santos de “avô do Tiago Abravanel”.

A Princesa Diana de “sogra da Meghan”.

Agora, chamar o Kirk Douglas – morto ontem aos 103 anos –  de “pai do Michael Douglas”, aí é sacanagem.