Contradizeções do idioma

Gramatica

Ontem uma moça se contradizeu, e jamais uma contradizeção fazeu com que tanta gente se disposse a discutir conjugação verbal.

Quem nunca falou “eu fazi” ou “eu dizo” quando tinha 5 anos de idade que atire a primeira gramática.

Falar bem um idioma não é dominar suas regras: é decorar as exceções. As anomalias. As idiossincrasias. As frescuras.

A primeira pessoa que disse “eu disse” é que devia ter sido corrigida por ser contradizetória. Pela lógica, a conjugação do verbo dizer era para ser

Eu dizo
Tu dizes
Ele dize
Nós dizemos
Vós dizeis
Eles dizem

Mas ai de quem maldizer a excepcionalidade desta conjugação.

Se deixássemos as crianças falarem de acordo com a sua inteligência, o português seria quase uma ciência exata.

Porque o cérebro adquire um conhecimento e passa a aplicá-lo, a fazer deduções lógicas. Isso funciona muito bem na matemática (uma regra de 3 funcionará da mesma maneira quaisquer que sejam os números envolvidos), na química, na física.

A língua é outro departamento.
Ela é de humanas.
E é aí que a porca torce o rabo.

Eu dizi
Tu dizeste
Ele dizeu

Eu me contradizi
Tu te contradizeste
Ele (ou ela) se contradizeu

Simples assim. Se o idioma sêsse cartesiano, claro.

Você dizerá que faltou revisão.
Eu dizo que faltou leitura.

É lendo que absorvemos essas particularidades, nos familiarizamos com elas.

Quem mal lê, mal ouve, mal fala, mal vê – já dizeu Monteiro Lobato.

A moça ainda se contradizerá muitas outras vezes.
Já quem escreveu a nota no jornal terá que fazer o dever de casa, e aprender com Monteiro Lobato: se eu mal leio, mal ouvo, mal falo, mal veio.

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Efolução

grayscale photography of human skull
Foto por ahmed adly em Pexels.com

Um estudo publicado na Science levanta a hipótese de uma mudança na dieta ter sido a responsável por nossa capacidade de pronunciar as consonantes “f” e “v”.

Se você vir num filme ambientado na pré-história um chef neandertal dizendo ao sous chef

– Flávio, faça o favor de ferver as favas.

esqueça. É caô.

Se houvesse um sous chef troglodita chamado Flávio, pode ter certeza de que logo lhe arrumariam um apelido. E outro emprego, porque trogloditas não apenas não ferviam favas para lhes dar textura e crocância como, se tivessem que batizá-las, mandariam às favas a palavra “fava” (e o próprio sous chef Flávio) e escolheriam para eles outro nome qualquer, com muito GRRR e MMMM.

Não que fossem agressivos ou mimizentos: é que a dieta os impedia de levar o dente ao lábio e articular as consonantes labiodentais.

A agricultura, com alimentos menos duros que a carne crua de mastodonte, é que teria introduzido mais vegetais no nosso cardápio, alterando nossa dentição e a capacidade de articular novos sons.

Nessa linha de raciocínio, ouso inferir que deva ser a falta de sucrilhos e manteiga de amendoim no café da manhã que me impede de dizer da forma distinta “coffee” e “cough”. Com café com pão e manteiga, vira tudo “cof”, e cabe ao interlocutor, pelo contexto, deduzir se estou tossindo ou pedindo um espresso caramelo macchiato.

Com marshmellows e tortas de maçã (daquelas que a vovó Donalda colocava para esfriar no parapeito da janela) eu até seria capaz de pronunciar “thought”, “through” e, quem sabe, se a torta tivesse aquele reticulado de massa em cima – “throughout”.

Só com arroz, feijão preto, angu e couve no menu, sem chance.

A teoria abre imensas perspectivas para os linguistas. Seria o excesso de variedades de queijos que impediria os franceses de usar paroxítonas? O volume de massas no cardápio e o sabor do molho da Nonna manteria os italianos sempre de boca cheia, obrigando-os a falar com as mãos? Haverá correlação entre o excesso de quetichupe no biguemeque e a inapetência dos americanos para falar qualquer palavra terminada em “ão”?

Com a abertura dessa nova linha de pesquisa, talvez milhões de alunos de Letras das universidades federais se sintam desestimulados de concluir seus TCCs sobre opressão linguística, suas teses de mestrado sobre a ideologia de gênero nos substantivos epicenos e seus pós-docs no exterior sobre pautas identitárias aplicadas às fricativas palatais.

Se investirem neste novo filão, logo descobriremos se é o Biscoito Globo que faz o carioca chiar, se o sabor sublime do pão de queijo é o que faz os mineiros engolirem junto os finais das palavras, se é a pimenta que leva os baianos a falar mais devagar para dar tempo de passar a ardência, e se o leite condensado no pão é ou não responsável por fazer a pessoa insistir em falar “cüestão”, e usar “talquei” como ponto final.

(A pesquisa original é séria e foi feita na Universidade de Zurique. Eu, que sou linguista de orelhada, sempre soube que ou você come farofa ou fala a palavra “farofa”. As duas coisas ao mesmo tempo, não dá. Experimente fazê-lo, de preferência na frente das visitas, e depois me conte o vexame. No pacotinho de farinha de mandioca devia vir um alerta: “Farofa faz mal para a labiodental “F”).

 

(originalmente publicado em 17 de março de 2019)