Dasdores

O problema da inteligência artificial, pelo menos dessa que está ao meu alcance, é que ela é burra.

Pesquisei outro dia sobre aparelhos de celular. O meu estava do meio-dia pra tarde há algum tempo. Mal se aguentava por 12 horas, falhava nos momentos críticos e já não tinha memória para nada. Igualzinho ao dono.

Comparei modelos, escolhi um que me atendia e estava a preço promocional, comprei onlaine e fui buscar na loja física.  Pois desde então o FB e todos os portais de notícia me bombardeiam com anúncios do modelo de celular que agora tenho em mãos.

Como é que pode a internet ser tão inteligente e deduzir que eu estava procurando telefone (afinal, pesquisei no gúgol) e tão burra a ponto de não ter percebido que efetuei a compra?

Uma inteligência artificial que fosse pelo menos esforçada me perguntaria:

– E aí, Edu, tudo joia? Comprou o samsuguezinho?

(Uma inteligência artificial mediana trataria de ser amigável – daí me chamar de Edu, não de sr. Affonso – e teria coletado informações básicas a meu respeito – o que explicaria o “tudo joia”, expressão que, extinta em 1970, só sobrevive em Minas).

– Oi, I.A., tá boa, fia? Comprei, sim. Popará com os anúncios.

– Que bom. Vi que você comprou um aparelho vermelho. Era isso mesmo? Não foi errado e prefere comprar outro, de uma cor mais compatível com sua faixa etária? Azul ou cinza, por exemplo?

– Comprei sem me dar conta de que o da promoção era vermelho, mas não tenho preconceito de cor. E, antes que você inunde todas as páginas da internet com modelos de capas de celular, informo que já comprei uma. Preta.

– Joia. Vou voltar com as propagandas de camisas coloridas e pizza, então.

– Não, pelamordideus. Só pesquisei camisas coloridas para ilustrar um texto – jamais compraria aquilo. E a pizza foi um ato isolado, num momento de fraqueza. Era uma gigante por preço de média, e demorou tanto pra eu conseguir dar cabo dela que mais uns dias ela podia pedir usucapião da prateleira de baixo da geladeira.

– Beleza. Precisando de alguma coisa, estou por aqui. É só digitar no gúgol que eu apareço, tá?

– Obrigado, I.A.

– Pode me chamar de Dasdores.

– Vaicundeus, Dasdores.

Será tão difícil desenvolver um aplicativo assim? Que identificasse meu dialeto, minhas necessidades, que usasse um nome personalizado levando em conta meu bequigráunde cultural? Que me ajudasse a encontrar o que me falta, mas entendesse que ninguém precisa continuar correndo atrás da condução depois que já a pegou? Que tivesse realmente o desejo de facilitar minha vida?

“A emulação máxima da inteligência humana (que também serve ao Desejo) seria a soma do Desejo com a Consciência. Só não estou seguro de que isso seja… desejável. Uma I.A. desejante poderia tornar reais os pesadelos da ficção científica e querer dominar o mundo.” (F.D.)

Eu não me importaria que a I.A, quer dizer, a Dasdores, dominasse o mundo. Desde que parasse de encher minhas telas com celulares da Samsung. Ainda mais esses maiores, melhores e mais baratos que o que comprei. E, ainda por cima, azuis.

EstartAPPS do futuro

apps

Se eu tivesse dinheiro, aplicaria em um aplicativo.
Claro que para cada aplicativo que dá certo há milhares de aplicativos que dão errado.
É possível saber qual é um, quais são os outros? Não, não é.
Como é que a gente ia adivinhar que táxi pirata podia virar um negócio bilionário?
Que alugar vaga em casa de família ia transformar alguém em magnata?
A vida (e a grana) é curta demais para investir em algo muito bem pensado, com um mega modelo de negócios e uma baita estratégia de márquetchim.
O negócio é partir para estartapes mais pé no chão, daquelas em quem ninguém leva fé.
Tipo jogar 1-2-3-4-5-6 na Mega-Sena. É claro que você nunca vai ganhar. Mas se ganhar, ganha sozinho.
Andei pensando em algumas estartapes bem disruptivas, que têm tudo para botar o Uber pra correr e desalojar o AirBnB do topo do rânquim.
Acompanhem comigo.
Todo mundo tem meia desemparelhada. Todo mundo, menos eu, que compro logo 10 pares do mesmo modelo e assim uma pode acasalar com essa num dia e com outra no dia seguinte, como se minha gaveta fosse uma filial do mundo artístico.
Pois bem. Fotografe suas meias avulsas, faça uma breve descrição (“Marrom, canelada, calcanhar levemente esgarçado, furo imperceptível na altura do canto esquerdo do dedão – ou do direito do mindinho” e poste no MeiApp®, o aplicativo de emparelhamento de meias. Você pode optar por comprar o pé que te falta, vender o seu pé que sobra ou fazer escambo (um preto por um marrom, quatro azuis por um preto, nove lilases com carinhas de palhaço daqueles do Justin Trudeau por qualquer pé de meia de homem etc).
Eu, ou quem investir comigo, fica com 20% do valor da transação (no caso do escambo, aceitam-se pés de meia bege como pagamento), mais o frete.
Baseado no mesmo conceito, tem t-App-oé®, o aplicativo de troca de tapoés sem tampa por tampas de tapoé. Só que com uma segunda marca , voltada para as classes C, D, E, F e G, incluindo potes de margarina, de sorvete etc.
Por fim, um aplicativo menos mercantilista e mais socialmente engajado, a ser utilizado para dividir contas com base em critérios progressistas de dívida histórica.
Você sai com amigos, pede uma pizza em 8 fatias e uma coca litro. São dois casais à mesa, cada pessoa come duas fatias e toma dois copos (caso bem hipotético, porque tem sempre um que come mais). Como dividir?
“Por quatro”, diria um fascista.
“Por dois”, diria um machista (os homens racham a conta enquanto as mulheres vão ao banheiro).
“Deixa que eu pago”, diria quem convidou, esperando que ninguém aceite a proposta.
Tudo errado. Uma calculadora ou uma caneta + pedaço de guardanapo – se um dos quatro tiver frequentado a escola depois de 2003 – não dão conta da complexidade da operação.
E o rateio da dívida histórica, como é que fica?
Mulheres só tiveram direito a voto no século 19. Ganham, em média, 20% a menos que os homens. Têm cólica, estria, dão à luz, pintam o cabelo, precisam usar sutiã, salto alto, depilar virilha, carregar bolsa… Não, não é justo que paguem o mesmo preço que os homens.
Tem também a cor da pele. A orientação sexual. O coeficiente de gordura corporal.
Como dividir uma conta entre um homem branco gay, uma mulher hétero pluçaize, um não binário preto e uma trans oriental?
Lembra da brincadeira do “papel tesoura pedra”, em que a pedra amassa a tesoura que corta o papel que embrulha a pedra? O aplicativo PapelTesouraPedrApp® resolve o imbroglio da divisão da conta sem quebra-quebra ou acusações mútuas de misoginia, xenofobia, gordofobia e afins.
Branco paga mais que preto, que paga menos que oriental, que paga mais que árabe.
Homem paga mais que mulher, e não binário paga menos ainda.
Hétero paga mais que gay, e bi paga a média dos dois.
Crossdresser paga mais que trans,
Agênero paga o mesmo que genderfluid, dependendo de para que lado o genderfluid estiver fluindo no momento.
Mas paga-se quanto mais, ou quanto menos? Aí é que a porca torce o rabo e entra o pulo do gato. O aplicativo, valendo-se de um algoritmo justiceiro, leva em conta todas as variáveis e evita que amizades sejam rompidas por causa de uma meio calabresa meio quatro queijos.
– Por que estou pagando mais que você, se sou bi e você insiste nessa heterossexualidade tóxica?
– Nem vem. Eu sei que você só é bi quando fuma maconha e, mesmo assim, nem beija direito, fica só broderagem.
– Ah, é? E você, que tira o buço? Tirou o buço e separou a monocelha, perde direito ao desconto.
– Olha só quem fala! Entrou na Federal fora do sistema de cotas e quer lacrar. Pra cima de mim, não! E nem pense que me engana com esse sobrepeso: sei que isso são apenas ossos largos…
O PapelTesouraPedrApp® utiliza tecnologia de reconhecimento facial e análise de postagens no feicebuque. Quem votou Haddad paga menos que quem votou Bolsonaro, que paga mais que quem votou em branco, que paga 75% de quem anulou e justificou o voto. Defesa da Amazônia tem desconto maior que indignação por óleo nas praias. Vegano paga a metade do vegetariano, que paga um terço de um carnívoro. Menos na pizza marguerita, claro, porque aí era sacanagem.
Se você perdeu o bonde do IFood, da Netflix e do PTinder, o MeiApp®, o t-App-oé® e o PapelTesouraPedrApp® são sua chance de tirar o atraso e o pé da lama.
Invista djá!

Herói da resistência

ferro

Houve um tempo em que telefone telefonava e máquina fotográfica fotografava.

As coisas eram unívocas, com jurisdições demarcadas, como que regidas por uma religião.

Em algum momento algo se rompeu, e telefones começaram a fazer contas, mandar cartas, tocar música, tirar fotos.

Por que o telefone, não o ferro elétrico? Jamais saberemos.

O ferro elétrico é de um tempo em que máquina de escrever escrevia, carteiro entregava cartas e computador computava.

Então, como se tivessem surtado, computadores começaram a escrever, enviar e entregar cartas, as máquinas de escrever silenciaram, os carteiros tiraram um peso dos ombros e um pouco da alegria dos cachorros.

Relógios marcavam as horas, não batimentos cardíacos.
Cinemas passavam filmes, não encenações de milagres evangélicos.
Impressoras imprimiam, copiadoras copiavam, aparelhos de fax enviavam fax – hoje, nestes tempos de transgêneros, uma multifuncional dá conta de tudo sozinha.

O micro-ondas já doura e gratina.
O liquidificador, que só liquidificava, mudou o nome para mixer e agora corta, amassa, mistura, processa, rala, pica, bate, tritura, e por pouco não chuleia, caseia e prega botão.

Só o ferro elétrico continua apenas passando roupa.

Ele resiste, solitário, à degeneração dos costumes.

Até os óculos enxergaram que o fim estava próximo, com as lentes descartáveis, e começaram a fotografar, filmar, ensinar o caminho, mandar e-mail.

Em vão.

Os óculos morrerão como morreram o monóculo, o pincenê, o telex, a antena interna, pager, disquete, fita k7, orelhão, ficha de orelhão, lâmpada incandescente, mimeógrafo, bala Soft, goma arábica, revólver de espoleta, anágua, bomba de flit, Emulsão de Scott, cinto de castidade.

Fogões não precisam mais de fogo.
Geladeiras degelam sozinhas.

Quando nada mais for o que era, nos restará o ferro elétrico como prova de fidelidade aos princípios, como exemplo de dedicação exclusiva, de fé inabalável no destino.

Pode soltar vapor pelas ventas, ter dezoito temperaturas, base de teflon, recipiente para amaciante, design aerodinâmico, funcionar com energia solar, não importa.

Não há ideologia de gênero que o faça tirar fotos.
Mandar mensagens de voz.
Pagar contas.
Curtir comentários.

Quando nenhum tecido amarrotar, ou quando roupa amarrotada virar moda, o ferro de passar cairá de pé.

Deixará o mundo pela porta da frente, de cabeça erguida e com a consciência tranquila de jamais ter se rendido.

 

(publicado originalmente em agosto de 2017)