Mormente

Sempre quis escrever um texto em que usasse palavras como
entrementes
outrossim
sobremaneira.

Nunca tive esse condão.

Sempre me faltou, sei lá, elã.

Elã é outra que jamais tive como usar.

Tampouco consegui usar
somenos
soez
desídia
menoscabo.

E olha que menoscabo sempre foi das minhas favoritas.

Se eu fosse, quiçá, juiz do Supremo, empregaria todas amiúde num único axioma, e com muita picardia.

Inclusive quiçá e amiúde, que são assaz pulcras e garbosas.

Pulcra também não rolou.

Nem assaz. Muito menos garbosa.

Queria escrever, aqui ou algures, que fiquei amofinado depois de uma carraspana, e destarte me retirarei para os meus aposentos, à sorrelfa.

Mas hei de fenecer sem que meus textos tenham tido esse apanágio.

De que servem essas palavras intáteis, alcantiladas, senão para nos obsedar, nos fazer anelar em vão?

Em vão, não.
Debalde.

Sempre quis usar debalde num texto.

Um dia consigo.

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Evolução da Revolução

 

“- Primeiramente, fora Teme…

– Questão de ordem, companheiro! Quero democraticamente colocar em votação uma proposição para atualizar a nossa saudação para “Fora, Bozo”.

– Muito construtiva e democrática a sua colocação, camarada, mas não acho que a gente deva desperdiçar esses últimos 20 dias de “Fora Temer”, que é uma saudação antifascista popular e que evoca as melhores lembranças da luta revolucionária contra o golpe.

– Companheiro, em nome da classe trabalhadora, lembro que o golpista não apita mais nada, e temos que, democraticamente, direcionar desde já o ódio de classe ao governo reacionário, repressor e autoritário que ainda não começou.

– Tamo junto na guerra democrática contra o imperialismo patriarcal estadunidense, camarada, mas não dá para derrubar um presidente antes que ele seja pelo menos empossado. Por isso, primeiramente, fora Tem…

– Um aparte, companheiro. Seu raciocínio é antidemocrático, alienado e burguês. Quanto antes implementarmos o “Fora Bozo”, mais irreversível será o levante popular.

(Palmas, gritos, vivas, abaixos e rexitegues variados, variadas e variades no recinto)

– Então tá, camarada. Se é no interesse comum e do conjunto da sociedade, na defesa da nossa soberania, dentro do espírito do centralismo democrático, primeiramente… fora Coiso!

– O que é isso, companheiro? Como assim?

– Como assim o quê, camarada?

– Não é “Fora Coiso”. É “Fora Bozo”.

– “Bozo” é apropriação do colonialismo cultural ianque, um personagem da mídia neoliberal detentora do capital especulativo. “Coiso” é que é coisa nossa, afro-ameríndio terceiro-mundista inclusivo e gramaticalmente desopressor. Vai ser “primeiramente, fora Coiso”, sim. “Fora Bozo” é golpe!

– Companheiro, a plenária votou minha moção por “fora Bozo”, não “fora Coiso”. Levantar uma bandeira divergente é voluntarismo!

(Vaias, apupos, salves e pancadarias diversas, diversos e diverses no recinto)

– Ok, ok, companheiros, companheiras e companheires, camaradas, camarados e camarades, vamos levantar uma questão de esclarecimento para o encaminhamento de um indicativo para a pauta da plenária do conselho da próxima assembleia que vai deliberar (ou não) sobre “fora Bozo” ou “fora Coiso”.

– Mas a assembleia do conselho da plenária da pauta do indicativo do encaminhamento da questão levantada só vai rolar em outubro, depois do parabéns pra você da gloriosa revolução bolchevique! Até lá o Temer já vai estar preso, babaca!

– Temer não é uma pessoa. É uma ideia. É símbolo da luta participativa das minorias progressistas contra a exploração dos excluídos e pelo aprofundamento da crise do capitalismo. O “fora Temer” fica!”

(Uivos, assovios, sopapos e cusparadas de todos os tipos, tipas e tipes no recinto).

~ ~ ~

– E é por isso, minha netinha, devido ao seu imenso valor histórico e afetivo, que até hoje, decorridos mais de 50 anos do golpe, ainda usamos essa saudação, o “primeiramente, fora Temer”.

– E quem era esse tal de Coiso, vovó?

– Era um bicho papão. Agora come seus cornifleiques sintéticos, veste seu traje espacial vermelho, pega sua bandeira holográfica com a estampa do Che e vem com a vovó protestar. E não esquece de colocar, por cima do capacete, o seu bonezinho do “Movimento dos Sem Terra”. A gente já está morando em Marte, mas tem coisa que não se muda assim, de uma hora pra outra.