Catequese

O ser humano tem uma vocação atávica para a catequese. Seja por bem, tentando convencer com argumentos, seja batendo de porta em porta no domingo de manhã, domingo após domingo, até vencer pela exaustão; seja desovando clichês cada vez que a oportunidade se apresenta.

O paraíso há de ser um mundo em que não haja escolhas – logo, não existam erros, inexistam perdas. Ninguém há de se questionar sobre ter se casado com a pessoa errada, porque não haveria outro cônjuge possível. Nem outra profissão, outro modelo de celular, outra cor de vestido. O paraíso não tem bifurcação – logo, dispensa as placas de retorno.

A opção do outro é sempre um questionamento à nossa. Eu vou à Bola Preta, você vai ao Boitatá. E se o Boitatá bombar e na Bola Preta rolar tiro, porrada e bomba? Era melhor que houvesse um só bloco naquele dia, e só fosse permitida uma fantasia, para eu não me sentir chinfrim demais ou demasiadamente sem noção. Era preciso que não houvesse, no mundo, o diabo da escolha, a besta fera da comparação.

Só isso explica a compulsão de tanta gente com a conversão alheia. Não para que o outro fique melhor, mas para que o proselitista se sinta menos mal com suas escolhas.

Não faltam heterossexuais empenhados em salvar gays e lésbicas. Afinal, gays não sabem o que estão perdendo, e as lésbicas apenas não encontraram o homem certo, certo?  Na outra ponta, também não faltam gays e lésbicas achando que não há heterossexual, mas gay mal cantado ou mulher que ainda não experimentou transar com quem sabe exatamente onde ficam e como funcionam certas partes da anatomia. Ou seja, todo mundo é hétero, só precisa vencer o trauma – e todo mundo é homo, só falta um empurrãozinho.

Com os ateus não seria diferente. O ateu sabe que Deus existe, e está apenas fazendo charme. É claro que Deus existe! Olha o pôr do sol, o sorriso de uma criança, o milagre de uma flor! Como é que pode um ateu ser escritor, cantor, fotógrafo, se todos os dons são dádivas divinas?  Não faz sentido um ateu gente boa (do tipo que dá bom dia, paga imposto, joga lixo na lixeira) porque os religiosos (assim como os esquerdistas) detêm o monopólio da bondade. Fora de Deus só há o satanismo, as seitas com bebês sacrificados e as laives sertanejas.

A prova disso – todo mundo sabe – é que não há ateus em avião caindo.  Podem reparar: no chequim dos aeroportos há uma triagem secreta, e só é permitido aos ateus o embarque em voos sem chance de queda. Se você vai viajar, certifique-se que haja um ateu a bordo. Isso é sinal de que o voo será seguro. Havendo agnósticos, são altas as chances de turbulência (agnósticos precisam ser postos à prova). Sem ninguém com pinta de ateu (ou seja, sem camisetas vermelhas com pentagrama, tatuagens de tridente subindo pelo pescoço ou livro de São Cipriano a tiracolo), pule fora enquanto é tempo.

Sim, pode dizer “vai com Deus” (que significa “vá em paz, que nenhum mal te aconteça”). Mas evite elogios do tipo “Difícil acreditar que uma pessoa com tanta sensibilidade se defina como ateu”.

Esse elogio equivale a  “É tão inteligente que nem parece mulher”, “É incrível que uma pessoa tão limpa, tão cuidadosa, tão educada, seja preta”, “Quando é que eu poderia imaginar que um homem tão corajoso, tão respeitável, fosse gay?” ou “Apesar de judeu, ele é super honesto, super confiável.” Acredite: cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. E não perca seu tempo tentando convencer a namorar no pedalinho quem prefere um 69 na montanha russa.

B.A. – Bloqueados Anônimos

bloqueados

Salão da casa paroquial.
Segunda-feira,
Sete da noite.

As cadeiras estão em círculo, num canto há uma mesa com água, chá e biscoitos.

Alex toma a palavra.

– Boa noite, meu nome é Alex…

– Boa noite, Alex! (todos, em uníssono)

– … e eu sou um bloqueado em recuperação. Estava já há dezessete dias limpo, mas tive uma recaída na quarta passada, comentei no mural do Paulo Henrique Amorim e…

– Paulo Henrique Amorim? Você pegou pesado, Alex!

– Pois é, não sei o que me deu. Depois que levei o block do José de Abreu…

– … você se comprometeu a só comentar em postagem de gente civilizada, lembra?

– Pois é, vacilei. Mas o cara tinha escrito uma coisa tão, mas tão, mas tão sem noção, que eu não resisti.

– Lembra da primeira regra do grupo, Alex?

– Sim, só argumentar em postagem de quem tenha argumento.

– Exato. Leia a postagem da pessoa. Se for argumentativa, argumente. Se for dogmática…

– Respiro fundo, ergo os olhos aos céus, peço que tenham piedade dessa alma desgarrada no Dia do Perfeito Juízo Final e sigo adiante.

– Muito bem, Alex.

– O problema é que isso me impede de comentar em qualquer postagem petista ou bolsonariana. E que graça tem argumentar com quem pense igual a mim?

– Boa questão, Alex. Alguém saberia responder?

– Oi, pessoal, eu sou a Regina…

– Boa noite, Regina (todos, em uníssono).

– Sabe, Alex, eu sou vegetariana. O que você passa com os bolsomínions e os petistas, eu passo com os churrasqueiros e os veganos.

– Um aparte, Regina. Meu nome é Geraldo e…

– (Em uníssono) Boa noite, Geraldo!

– … eu sou carnívoro e passo o mesmo nas páginas dos veganos e dos vegetarianos. Esta semana fui bloqueado por oito vegetarianos porque perguntei por que chamavam proteína vegetal de “carne” e por dezenove veganos por falar que o abate ético é melhor que nada.

– Gente, desculpe interromper, meu nome é Dora…

– (Em uníssono) Boa noite, Dora!

– … eu sou ateia, e aprendi a me controlar diante de correntes milagrosas, mensagens de gente morta, simpatias para segurar marido e aparições de chupacabra. Nenhum block nos últimos quarenta e cinco dias!

– Parabéns, Dora! (todos em uníssono).

Alguém se levanta e tenta sair de fininho.

O coordenador do grupo intervém.

– O companheiro já vai? Não quer fazer uma partilha?

– Oi, meu nome é Arnaldo.

– (Em uníssono) Boa noite, Arnaldo!

– Eu sou irrecuperável. Levo centenas de blocks diários. Sete dias por semana. Estou aqui há quinze minutos sem levar um block e já começo a sofrer de síndrome de abstinência.

– O que você faz? Compartilha maus tratos de animais? Posta foto em HDR? Repercute Monica Iozzi? Apoia golpe militar? Marca 40 pessoas nas suas postagens?

– Não. Eu defendo o Gilmar Mendes.

(Silêncio total. Em uníssono.)

 

(originalmente publicado em 13 de junho de 2017)

Ao pé da letra

louro

“Literalmente” vem de “littera” (“letra” em latim), e quer dizer “no sentido estrito da palavra”, ao pé da letra.

Mas não literalmente ao pé da letra, já que letra não tem pé.

(“Ao pé da letra” é uma expressão idiomática (de sentido figurado), uma locução adverbial (conjunto de palavras que funciona como advérbio), uma catacrese (assim como asa da xícara, dente de alho, olho da rua). Ou seja, não é para levar “ao pé da letra” ao pé da letra.)

Por motivos insondáveis, “literalmente” deixou de ser usado no sentido de exato, estrito, para se transformar no seu oposto: algo exagerado, figurativo.

Eu estou literalmente careca (felizmente, só no cocuruto) de saber que a língua evolui, que palavras adquirem novos significados (isso às vezes é sinistro, não acha?) e que algumas formas, ainda que equivocadas, se consagram pelo uso (“a voz do povo é a voz de Deus”).

Mas acontece que sou ateu, e a voz do povo ao usar “literalmente” como adjunto adverbial de intensidade me soa blasfema, sacrílega e pecaminosa.

Só quem pode dizer que está literalmente se lixando para alguma coisa é a mulher que está fazendo as unhas. Só quem pode dizer que é literalmente forte como um touro é um búfalo, um bisão ou, eventualmente, um gnu. Só soltou literalmente a franga quem abriu a porta do galinheiro e deixou a bichinha escapar.

O “literalmente” parece estar trilhando o mesmo caminho do ”com certeza”, que passou a significar “sem certeza nenhuma“ (“Ah, com certeza antes de ligar o lepitope ele vai lembrar que lá em Brasília é 220V”), e do “progressista”, que é o sujeito que acredita num sistema que só leva ao atraso.

Se quiser enfatizar, use “demasiadamente”, “excessivamente” (mineiros têm o direito de lançar mão do “demais da conta”). Para exagerar com certa parcimônia, use “praticamente” (“Eu estou praticamente me matando de trabalhar”).

(Não, não use! “Praticamente” deveria significar “na prática”, “na realidade”, e virou “aproximadamente”).

Enfim, se não for para ser entendido concretamente, ipsis litteris, tale e quale, use qualquer coisa, menos “literalmente”.

Você pode abotoar literalmente o paletó ou bater literalmente as botas sem precisar morrer. Mas só diga que caiu literalmente a ficha se você for um orelhão. Que andou literalmente engolindo sapos se for uma sucuri. Que está literalmente se matando se for um suicida.

Só abra literalmente o coração se for um cirurgião cardiovascular. Só volte literalmente à vaca fria se for um touro muito perseverante.

Eu fico literalmente uma arara quando alguém usa “literalmente” como hipérbole ou metáfora.

 

(originalmente publicado em 4 de maio de 2019)