Escrito nas estrelas

Novela

Quando encontrar de novo a Gloria Perez, vou tomar coragem e propor parceria numa novela.

Já houve tramas na Turquia, no Marrocos, na Índia, mas eu queria ir mais longe.

Será, aparentemente, a velha história de amor impossível entre pessoas que se amam apesar de pertencer a mundos diferentes: a mocinha na Terra e o mocinho em Marte.

Quer dizer, mocinho, não: ETzinho.

Vera Fischer será a protagonista, a terráquea Klaxya, que se apaixona pelo marciano Juca.

Mas não será uma paixão qualquer, porque Klaxya ficará literalmente sem ar ao se encontrar com Juca (a atmosfera marciana é composta de 95% de dióxido de carbono, 3% nitrogênio e 1.6% argônio, o que desestabiliza até um mulherão como a Vera Fischer).

E Juca se sentirá esmagado na presença de Klaxya (não somente porque a Vera Fischer seja um mulherão, mas porque a massa da Terra é maior, e quanto maior a massa etc etc etc).

As famílias dos pombinhos (tem pombinho em Marte?), o Código Civil, a bancada evangélica e o Olavo de Carvalho não aprovam o casamento entre seres de espécies diferentes (a alienigenofobia ainda não foi criminalizada pelo STF), e tudo farão para separá-los e impedir sua união.

A vilã (Cristiane Torloni ou Susana Vieira, ainda não decidi), não aceita Vera Fischer como nora, porque acha que Vera é muito madura para o seu filho Juca (o marciano) que, claro, ainda é verde.

O merchã social abordará a contaminação de plutônio em Mercúrio (ou de mercúrio em Plutão, a decidir) e o búlim que sofrem os lunáticos apenas por viverem no mundo da Lua.

A trama teria como pano de fundo o fato de que, como o socialismo nunca deu certo em lugar nenhum da Terra, toda a esquerda resolveu ver se, quem sabe, na Lua a coisa funciona (afinal, tudo lá tem menos gravidade). E a Lava-Jato não chega lá (só a Lava-Foguete, cuja força-tarefa fica em Alfa Centauro, a 4 anos luz de distância, para tentar escapar do ráquer da Intercept).

E aí é que os lunáticos-raiz (São Jorge, o dragão e demais nativos) passam não só a conviver com a escassez de tudo (e olha que lá já não tinha nada!) como também se tornam vítimas de preconceito – ao ser confundidos com os lunáticos-nutella do Partido do Sol (P-Sol) e de outro partido que, a essa altura, já terá assumido suas reais intenções e trocado a estrelinha por um meteoro.

Juca (Eri Johnson em seu primeiro papel de protagonista), inicialmente lidera o MSL (Movimento dos Sem Lua) – apesar de sua família ser proprietária de um resort às margens no Mar da Tranquilidade e ele mesmo possuir um enorme luneno de frente para a carcaça da Apolo 11 (a Vieira Souto da Lua).

Mesmo sendo marciano (nascido um planeta naturalmente vermelho), Juca é um liberal e denuncia as fraudes do programa Minha Cratera Minha Vida e as condições desumanas (e desextraterrestres) dos ETs enviados pelo governo vermelho de Marte para trabalhar em regime de semiescravidão no programa Mais Alienígenas.

Para alívio cômico, haverá um núcleo suburbano que mora na comunidade de Nova Varginha, em Urano, e vive do contrabando de anéis de Saturno e camisas de Vênus.

Miguel Falabella e André Gabeh (estreando em novelas) estarão nesse núcleo (o mais incandescente da trama), e vão popularizar o bordão “Pelas barbas de Netuno!”

Todo final de capítulo Klaxya ligará para Juca e ficaremos ansiosos para saber se ela está fazendo uma declaração de amor (“Irei amar-te!”) ou avisando que está pegando o próximo ônibus espacial (“Irei a Marte!”).

O destino do casal está escrito nas estrelas (a música tema será esta mesma, na voz da Tetê Espíndola), mas até o último momento nenhuma astróloga conseguirá prever se há compatibilidade entre os dois, já que Klaxya é de Touro (signo de elemento Terra, com Lua em Marte) e Juca é de Spock (signo de elemento Marte, com Fobos em Terra).

A Globo vai precisar construir uma galáxia cenográfica no Projac, mas não tenho dúvida de que haverá uma fila de astros e estrelas querendo participar da trama e que o ibope será estratosférico.

Eu já fiz a a minha parte, a mais difícil, que é dar a ideia. Sinopse, escaletas, minutagem, 30 laudas diárias – que é mamão com açúcar – isso aí já é com a Glória.

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Fora de órbita

mapa-astral

Madame Zorah acordou com um mau pressentimento. O horóscopo que preparara para si mesma no dia anterior garantia uma noite de harmonia no lar e sem surpresas até o amanhecer. Mas, por volta da meia noite, Edgar, que não levantava a voz nem em pensamento, fora tomar água e dera o maior piti por causa das forminhas de gelo vazias. Ele, que só tomava água em temperatura ambiente. Edgarzinho, normalmente alheio a tudo que não fosse jogo de computador, inexplicavelmente tinha se deitado cedo e reclamara de ser acordado. Logo ele, que não deixava ninguém dormir.

A diarista chegou, pela primeira vez na vida, uma hora mais cedo (“para compensar o atraso de ontem, dona Zoraide”) e encontrou o gato no parapeito da área de serviço, acuado pelo periquito.

Antes que a lei da gravidade começasse a puxar as coisas para cima, Madame Zorah correu para sua mesinha de trabalho e começou a refazer os cálculos zodiacais.

Tudo ok com Netuno. Vênus estava onde sempre estivera. Saturno. idem. Plutão, Plutão… por Júpiter, onde tinha ido parar Plutão? Sua casa estava vazia. Respirou fundo. Plutão às vezes era mesmo difícil de encontrar, perdido nos cafundós do sistema em sua órbita maluca. Mas agora tinha era sumido de verdade.

Madame Zorah limpou os óculos, ajeitou a franja, puxou a alça do sutiã e repetiu “isto não aconteceu, isto não está acontecendo, isto não vai acontecer”.

Olhou de novo os mapas e deu de cara com Xena.

Xena? Quem é Xena?

Pois na casa ao lado da que fora de Plutão agora morava Xena. Netuno, o vizinho mais próximo, se comportava de maneira estranha, como se uma tempestade lhe agitasse as profundezas. Mesmo Urano, o chuchu dos planetas, mudara seu trânsito e se arriscava, temerário, em novas quadraturas. Madame Zorah tentou gritar, mas a voz não saiu.

A presença de Xena explicava o mau humor de Edgar – aquele banana – e a inesperada reentrada de Edgarzinho no mundo dos vivos. Mas e a inusitada pontualidade de Marinalva? A resposta acabava de aparecer. Menor que a lua, lá estava Ceres, uma formiguinha cósmica ao lado do paquidérmico Júpiter.

Marinalva não ligara o rádio nos louvores de sempre. Naquele exato momento enchia as forminhas de gelo com água da torneira, toda trabalhada no funk. Era Ceres mostrando a que vinha.

“Meu mundo caiu”, pensou Madame Zorah. Corrigiu: “Meus mundos caíram”. Olhou no jornal o horóscopo que escrevera na véspera, anterior à safra de novos planetas. Tudo errado. Quantos negócios fechados no “bom momento para fechar negócios” seriam agora fechados de verdade? Imaginou-se na porta do Procon, cercada de aldeões com tochas e ancinhos, acusada de charlatanismo. E por um erro literalmente astronômico.

Os pedidos de socorro de Sultão, o angorá, fizeram-na levantar os olhos dos mapas. Omar Cardoso, o periquito, se apossara do pote de Whiskas, da bolinha e da caixa de areia, e mantinha Sultão encurralado no basculante, a um miado da queda livre no poço de ventilação. Madame Zorah teria se precipitado para salvar o gato se não vislumbrasse, naquele instante, outra causa da reviravolta: Plutão ressurgia, timidamente, agora dividindo sua casa com Caronte. Sim, Plutão saíra do armário.

Madame Zorah olhou a pilha de livros esotéricos e de autoajuda, subitamente inúteis. Os disquetes com programas de computador, inapelavelmente obsoletos. Todas as previsões escritas para os próximos meses, peremptoriamente condenadas à lixeira.

Sentiu a cabeça girar numa órbita elíptica e um calor ascendente que a menopausa não explicava. Uma vontade de agarrar Edgar pelo pijama, encostá-lo num quadrante e entrar em conjunção com o elemento ali mesmo, até atingir o zênite, como não faziam desde o nascimento de Edgarzinho, durante o Plano Collor.

Olhou de novo o mapa e.. não! Eram Eris e Sedna que se instalavam no zodíaco, acabando de arrombar a festa.

Madame Zorah (nascida Zoraide Aparecida, sob o que um dia fora o signo de Capricórnio), desmaiou antes de se dar conta de que 2003EL61 e 2005FY9, que nem nome direito tinham, já botavam as manguinhas de fora no zodíaco.

Marinalva se trancara com Edgar e duas forminhas de gelo no quarto de empregada, e, assunto resolvido com Sultão, Omar Cardoso mantinha Edgarzinho como refém, ameaçando cortar a mangueira do botijão de gás com o bico.

Omar Cardoso, outrora um pacato periquito de Touro com lua em Aquário, agora era de Gêmeos. E com ascendente em Escorpião.

 

(Este texto é de 2006, quando Plutão deixou de ser considerado planeta. Na época, se argumentou que, se ele mantivesse o status, um bando de planetoides ((Ceres, Sedna, Eris, Haumea…) também deveria ter o mesmo direito. Como era de se esperar, os astrólogos não deram a mínima para a decisão dos astrônomos. Ou será que…).