Horóscopo do Pai Dudu

horoscopo

A opressão, o preconceito e a intolerância estão enraizados na nossa cultura, de tal forma que os praticamos “estruturalmente”, ou seja, no dia a dia, nas atitudes mais banais, sem nos dar conta.

No horóscopo, por exemplo.

– Qual o seu signo?

– Sou ariana.

Você tem noção de quanto sofrimento essa resposta causa a uma ameríndia, uma asiática, uma árabe, uma afrodescendente?

Signos não têm o direito de ser etnicamente abusivos. Nascidas, nascidos e nascides entre 21 março a 19 abril devem poder expressar livremente sua ancestralidade e responder que são abecazes, aborígenes, apaches, berberes, bororós, bretões.

Arianos são só os arianos – e mesmo assim era melhor que respondessem: “Sou indo-europeu – mas não é culpa minha”.

Eu, por exemplo, sou Touro. Vegetariano e, vejam só, obrigado a compactuar com a exploração animal implícita na atividade pecuária, por uma contingência zodiacal.

Se ao menos as mulheres taurinas tivessem a opção de dizer que são do signo de Vaca, as moças do signo de Novilha e as crianças do signo de Bezerro, mas o signo é especista, misógino e não respeita os direitos da infância e da juventude.

Por que não mudar para Minhoca, que também é de elemento Terra? Aliás, mais elemento Terra que minhoca, impossível. Imaginemos a voz de Zora Yonara, na Super Rádio Tupi, prognosticando:

– Anelídeo, meu filho, o dia de hoje é propício para ficar enfiado em casa, subindo pelas paredes.

Tudo a ver comigo e com este momento da minha vida.

Aí vem Gêmeos. Pense no gatilho que é essa palavra para quem não pode ter filhos. Quem sempre sonhou ter enjoo, inchaço nas pernas, desejo de comer chantili com taioba às três da madrugada, ficar oito horas em trabalho de parto, ter que fazer períneo (e não poder nem tossir por 15 dias), e com o bico do seio rachado na amamentação… e não teve essas alegrias.

Por que não mudar para Pet? Pet é mais inclusivo – vai de buldogue francês a tartaruga, passando por gato, camaleão e calopsita. Só não tem quem não quer – e tem feirinha de adoção em qualquer praça.

Onde a pessoa estava com a cabeça quando achou que Câncer era um bom nome para signo? Imagine o drama do paciente oncológico com remissão nascido entre 22 junho e 22 julho. Até Corona seria melhor. Se tinha que ter patologia no zodíaco, que fosse Caspa. Otite. Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiose. Proponho que troquemos por Virose, muito mais democrática.

Leão. Com uma fauna nativa riquíssima como a nossa, vem alguém e batiza um signo de Leão, espécie exógena. Por que não Jaguatirica, Tamanduá, Capivara, Cutia?

– Sou Cutia com ascendente em Virose, e você.

– Galinha.

Sim, Galinha. Porque Virgem é machista no último. O hímen não define ninguém. Esse signo só perpetua o falocentrismo do patriarcado. Assumir-se Galinha será libertador.

Aí vem Libra, que só pode ser ironia, já que congrega os seres mais desequilibrados do planeta. Eu trocaria por Índice Bovespa, esse, sim, instável, imprevisível e só deve investir quem gosta de emoções fortes.

Ao contrário de Libra, tem hora que o signo antigo acerta em cheio. Escorpião define os que chegaram ao planeta entre 23 outubro e 21 novembro para atazanar a vida alheia. Se fossem do bem, o signo se chamaria Joaninha, Panda ou Porquinho da Índia. Esse nome eu manteria, como alerta. Ninguém pode dizer que não foi avisado.

Sagitário é representado por um centauro, metade homem, metade cavalo. Como uma das metas do novo horóscopo será o empoderamento e a representatividade, passa a ser Sereia. Mas sem gordofobia: será metade mulher, metade baleia.

Quem já foi traído sabe o quanto dói ouvir e ler qualquer coisa que lembre chifre. E o Capricórnio tem dois. Dos bons. Para redução de danos, troquemos por Unicórnio, e a sofrência cai pela metade.

Aquário é um nome tão cruel e claustrofóbico quanto Jaula ou Gaiola. O que uma cumbuca de vidro onde indefesos seres aquáticos são aprisionados tem a ver com pessoas excêntricas, rebeldes e sem noção? Para manter o conceito, por que não Quitinete?

Finalmente, Peixes. Claro que o encarregado de dar nomes aos signos já estava exausto e deixou por conta do estagiário. Peixes. Nem se deu ao trabalho de dizer de que espécie, como se não houvesse diferença entre bagre e salmão, tubarão e tainha. Se é pra generalizar, que seja logo Eucariontes.

Pronto, agora com o horóscopo devidamente desideologizado e desconstruído, é só relaxar e mentalizar a voz de Zora Yonara dizendo:

“Bom dia pra você, amiga galinácea. A semana lhe reserva uma grata surpresa com um amigo virtual de unicórnio e decepções com Índice Bovespa. Evite contato com Virose e mantenha-se afastada de qualquer Eucarionte. Sua melhor companhia neste momento é Quitinete, mas não descarte ter um Pet por perto. Sua cor é infravermelho, sua pedra é renal e seu número da sorte é pi radiano.”

Alguém pode achar estranho esse horóscopo sem bullying, mas vejam como tudo se encaixa: eu, ex-Touro, agora Minhoca, tenho como uma das minhas combinações elementares… Galinha! Não é perfeito?

Enquanto isso, num planeta retrógrado…

terrabolismo

– Ô, Marcos, tô precisando que você dá uma declaração aí pra mim.

– Pois não, presidente. Estamos no governo para ajudar.

– Você que foi lá em cima, quero que você desmente aí esse negócio que a Terra é redonda, talquei?

– Mas presidente…

– Tem gente que acredita aí nessas palhaçadas de terrabolismo, e tão zoando lá o presidente da Fuzarca.

– Da Funarte…

– Se tem arte, é Fuzarca. A parte do rock satânico eu vou pedir pro Feliciano confirmar – essa coisa de Satã é com ele mesmo. Mas você que é astrólogo…

– Astronauta…

– Você não é astrólogo? Foi fazer o quê na Lua, então?

– Presidente, o astrólogo é outro. Eu sou ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. E não fica bem um ministro de uma pasta como esta se envolver com certas teorias, digamos, heterodoxas.

– Como não? Se é hétero é porque é bom. Mas eu jurava que você era astrólogo, que nem o…

– Não, presidente.  Entendo um pouco de astronomia, que é outro departamento.

– Bom, eu nomeei uma roteirista de televisão pra um reálitixou chamado “A Casa da Rui Barbosa” e lá vai ter astrologia. Você devia se inscrever.

– Ahn, bem, é que… a Casa de Rui Barbosa não é bem um reálitixou. É uma fundação que cuida da obra do Rui Barbosa, e de outras personalidades da história do Brasil.

– Não é uma casa igual à do BBB, d’A Fazenda, do “De férias com o ex”, só que a dona é aquela ruivinha?

– É Casa “de” Rui Barbosa, não “da Ruy Barbosa.

– E o que é que uma apresentadora de televisão está fazendo lá com aula de astrologia?

– É o que eu também me pergunto, presidente. Aliás, é o que todo mundo se pergunta…

– Depois eu falo pra um dos meninos verificar isso daí.  O que eu preciso mesmo é da sua declaração de que esse negócio de Terra redonda rodando aí no céu em volta do Sol, sem domo de acrílico, só pode ser piada.

– Não é.

– Não é o quê?

– Piada. Eu vi. A Terra é redonda. Eu não consegui lugar na janelinha – fiquei sentado no corredor – mas deu pra ver que é redonda, sim.

– Vai ver aquilo não era janela, era um olho mágico. No olho mágico todo mundo fica redondo.

– Não era olho mágico, presidente.  Era uma escotilha.

– Quer que eu acredito que tá todo mundo errado – o meu astrólogo, o presidente da Fuzarca, esses vídeos do iutube – e só você é que tá certo?

– Pergunta pro Guedes, pro Moro, pro Mourão…

– Talkey, vou consultar os especialistas.

(Marcos sai da sala, preocupado com a gravidade da situação.)

– Ô Vaingarte, chama aí o Ernesto, a Damares e o Vaintraube, que eu quero tirar uma dúvida com eles.

Escrito nas estrelas

Novela

Quando encontrar de novo a Gloria Perez, vou tomar coragem e propor parceria numa novela.

Já houve tramas na Turquia, no Marrocos, na Índia, mas eu queria ir mais longe.

Será, aparentemente, a velha história de amor impossível entre pessoas que se amam apesar de pertencer a mundos diferentes: a mocinha na Terra e o mocinho em Marte.

Quer dizer, mocinho, não: ETzinho.

Vera Fischer será a protagonista, a terráquea Klaxya, que se apaixona pelo marciano Juca.

Mas não será uma paixão qualquer, porque Klaxya ficará literalmente sem ar ao se encontrar com Juca (a atmosfera marciana é composta de 95% de dióxido de carbono, 3% nitrogênio e 1.6% argônio, o que desestabiliza até um mulherão como a Vera Fischer).

E Juca se sentirá esmagado na presença de Klaxya (não somente porque a Vera Fischer seja um mulherão, mas porque a massa da Terra é maior, e quanto maior a massa etc etc etc).

As famílias dos pombinhos (tem pombinho em Marte?), o Código Civil, a bancada evangélica e o Olavo de Carvalho não aprovam o casamento entre seres de espécies diferentes (a alienigenofobia ainda não foi criminalizada pelo STF), e tudo farão para separá-los e impedir sua união.

A vilã (Cristiane Torloni ou Susana Vieira, ainda não decidi), não aceita Vera Fischer como nora, porque acha que Vera é muito madura para o seu filho Juca (o marciano) que, claro, ainda é verde.

O merchã social abordará a contaminação de plutônio em Mercúrio (ou de mercúrio em Plutão, a decidir) e o búlim que sofrem os lunáticos apenas por viverem no mundo da Lua.

A trama teria como pano de fundo o fato de que, como o socialismo nunca deu certo em lugar nenhum da Terra, toda a esquerda resolveu ver se, quem sabe, na Lua a coisa funciona (afinal, tudo lá tem menos gravidade). E a Lava-Jato não chega lá (só a Lava-Foguete, cuja força-tarefa fica em Alfa Centauro, a 4 anos luz de distância, para tentar escapar do ráquer da Intercept).

E aí é que os lunáticos-raiz (São Jorge, o dragão e demais nativos) passam não só a conviver com a escassez de tudo (e olha que lá já não tinha nada!) como também se tornam vítimas de preconceito – ao ser confundidos com os lunáticos-nutella do Partido do Sol (P-Sol) e de outro partido que, a essa altura, já terá assumido suas reais intenções e trocado a estrelinha por um meteoro.

Juca (Eri Johnson em seu primeiro papel de protagonista), inicialmente lidera o MSL (Movimento dos Sem Lua) – apesar de sua família ser proprietária de um resort às margens no Mar da Tranquilidade e ele mesmo possuir um enorme luneno de frente para a carcaça da Apolo 11 (a Vieira Souto da Lua).

Mesmo sendo marciano (nascido um planeta naturalmente vermelho), Juca é um liberal e denuncia as fraudes do programa Minha Cratera Minha Vida e as condições desumanas (e desextraterrestres) dos ETs enviados pelo governo vermelho de Marte para trabalhar em regime de semiescravidão no programa Mais Alienígenas.

Para alívio cômico, haverá um núcleo suburbano que mora na comunidade de Nova Varginha, em Urano, e vive do contrabando de anéis de Saturno e camisas de Vênus.

Miguel Falabella e André Gabeh (estreando em novelas) estarão nesse núcleo (o mais incandescente da trama), e vão popularizar o bordão “Pelas barbas de Netuno!”

Todo final de capítulo Klaxya ligará para Juca e ficaremos ansiosos para saber se ela está fazendo uma declaração de amor (“Irei amar-te!”) ou avisando que está pegando o próximo ônibus espacial (“Irei a Marte!”).

O destino do casal está escrito nas estrelas (a música tema será esta mesma, na voz da Tetê Espíndola), mas até o último momento nenhuma astróloga conseguirá prever se há compatibilidade entre os dois, já que Klaxya é de Touro (signo de elemento Terra, com Lua em Marte) e Juca é de Spock (signo de elemento Marte, com Fobos em Terra).

A Globo vai precisar construir uma galáxia cenográfica no Projac, mas não tenho dúvida de que haverá uma fila de astros e estrelas querendo participar da trama e que o ibope será estratosférico.

Eu já fiz a a minha parte, a mais difícil, que é dar a ideia. Sinopse, escaletas, minutagem, 30 laudas diárias – que é mamão com açúcar – isso aí já é com a Glória.

Fora de órbita

mapa-astral

Madame Zorah acordou com um mau pressentimento. O horóscopo que preparara para si mesma no dia anterior garantia uma noite de harmonia no lar e sem surpresas até o amanhecer. Mas, por volta da meia noite, Edgar, que não levantava a voz nem em pensamento, fora tomar água e dera o maior piti por causa das forminhas de gelo vazias. Ele, que só tomava água em temperatura ambiente. Edgarzinho, normalmente alheio a tudo que não fosse jogo de computador, inexplicavelmente tinha se deitado cedo e reclamara de ser acordado. Logo ele, que não deixava ninguém dormir.

A diarista chegou, pela primeira vez na vida, uma hora mais cedo (“para compensar o atraso de ontem, dona Zoraide”) e encontrou o gato no parapeito da área de serviço, acuado pelo periquito.

Antes que a lei da gravidade começasse a puxar as coisas para cima, Madame Zorah correu para sua mesinha de trabalho e começou a refazer os cálculos zodiacais.

Tudo ok com Netuno. Vênus estava onde sempre estivera. Saturno. idem. Plutão, Plutão… por Júpiter, onde tinha ido parar Plutão? Sua casa estava vazia. Respirou fundo. Plutão às vezes era mesmo difícil de encontrar, perdido nos cafundós do sistema em sua órbita maluca. Mas agora tinha era sumido de verdade.

Madame Zorah limpou os óculos, ajeitou a franja, puxou a alça do sutiã e repetiu “isto não aconteceu, isto não está acontecendo, isto não vai acontecer”.

Olhou de novo os mapas e deu de cara com Xena.

Xena? Quem é Xena?

Pois na casa ao lado da que fora de Plutão agora morava Xena. Netuno, o vizinho mais próximo, se comportava de maneira estranha, como se uma tempestade lhe agitasse as profundezas. Mesmo Urano, o chuchu dos planetas, mudara seu trânsito e se arriscava, temerário, em novas quadraturas. Madame Zorah tentou gritar, mas a voz não saiu.

A presença de Xena explicava o mau humor de Edgar – aquele banana – e a inesperada reentrada de Edgarzinho no mundo dos vivos. Mas e a inusitada pontualidade de Marinalva? A resposta acabava de aparecer. Menor que a lua, lá estava Ceres, uma formiguinha cósmica ao lado do paquidérmico Júpiter.

Marinalva não ligara o rádio nos louvores de sempre. Naquele exato momento enchia as forminhas de gelo com água da torneira, toda trabalhada no funk. Era Ceres mostrando a que vinha.

“Meu mundo caiu”, pensou Madame Zorah. Corrigiu: “Meus mundos caíram”. Olhou no jornal o horóscopo que escrevera na véspera, anterior à safra de novos planetas. Tudo errado. Quantos negócios fechados no “bom momento para fechar negócios” seriam agora fechados de verdade? Imaginou-se na porta do Procon, cercada de aldeões com tochas e ancinhos, acusada de charlatanismo. E por um erro literalmente astronômico.

Os pedidos de socorro de Sultão, o angorá, fizeram-na levantar os olhos dos mapas. Omar Cardoso, o periquito, se apossara do pote de Whiskas, da bolinha e da caixa de areia, e mantinha Sultão encurralado no basculante, a um miado da queda livre no poço de ventilação. Madame Zorah teria se precipitado para salvar o gato se não vislumbrasse, naquele instante, outra causa da reviravolta: Plutão ressurgia, timidamente, agora dividindo sua casa com Caronte. Sim, Plutão saíra do armário.

Madame Zorah olhou a pilha de livros esotéricos e de autoajuda, subitamente inúteis. Os disquetes com programas de computador, inapelavelmente obsoletos. Todas as previsões escritas para os próximos meses, peremptoriamente condenadas à lixeira.

Sentiu a cabeça girar numa órbita elíptica e um calor ascendente que a menopausa não explicava. Uma vontade de agarrar Edgar pelo pijama, encostá-lo num quadrante e entrar em conjunção com o elemento ali mesmo, até atingir o zênite, como não faziam desde o nascimento de Edgarzinho, durante o Plano Collor.

Olhou de novo o mapa e.. não! Eram Eris e Sedna que se instalavam no zodíaco, acabando de arrombar a festa.

Madame Zorah (nascida Zoraide Aparecida, sob o que um dia fora o signo de Capricórnio), desmaiou antes de se dar conta de que 2003EL61 e 2005FY9, que nem nome direito tinham, já botavam as manguinhas de fora no zodíaco.

Marinalva se trancara com Edgar e duas forminhas de gelo no quarto de empregada, e, assunto resolvido com Sultão, Omar Cardoso mantinha Edgarzinho como refém, ameaçando cortar a mangueira do botijão de gás com o bico.

Omar Cardoso, outrora um pacato periquito de Touro com lua em Aquário, agora era de Gêmeos. E com ascendente em Escorpião.

 

(Este texto é de 2006, quando Plutão deixou de ser considerado planeta. Na época, se argumentou que, se ele mantivesse o status, um bando de planetoides ((Ceres, Sedna, Eris, Haumea…) também deveria ter o mesmo direito. Como era de se esperar, os astrólogos não deram a mínima para a decisão dos astrônomos. Ou será que…).