Quem sou eu

asma

Volta e meia tenho que escrever “uns dois parágrafos” a meu respeito, e embatuco.

Minha biografia não chega a tanto.

Mineiro, arquiteto e…. e é isso.

Há quem, nessas situações, coloque – meio à brinca, meio à vera – o signo, o ascendente e uma Lua em Escorpião para indicar que tem pegada.

Eu me contento com ser mineiro (é algo que me define, esses oitenta por cento de ferro na alma), arquiteto (é a profissão que escolhi, e com a qual me mantenho) e recuo antes de incluir “asmático”.

Asmático, não soasse como vitimização, deveria vir antes de arquiteto e junto com mineiro, porque nasci assim, e a todo o resto veio bem depois.

Ser mineiro moldou meu modo de falar, de pensar. Ser asmático, o jeito com que me afogo no ar que respiro, e que acaba por afetar como falo e penso.

Junto com a asma veio a ansiedade. E com a ansiedade, o pânico.

Esse aperto no peito pela manhã, à noite – é asma ou angústia?

Esse chiado, como se houvesse um gato asfixiado na garganta – é ar demais ou de menos?

E essa palpitação, essa vontade de fugir, de estar em qualquer outro lugar que não aqui, porque aqui o ar é irrespirável?

Asma e pânico são formas distintas de sufocamento. Uma é afogar-se no ar; a outra, no mundo.

Talvez nem todo asmático seja ansioso. Isso pode ter a ver com Touro, com a ascendência em Áries, com a Lua (sabe-se lá onde) prateando a solidão.

Aquela solidão de não poder correr na hora do recreio. Não poder sair no sereno. Ter que usar agasalho, frequentar curandeiros, tomar poções de mel e ervas, ser benzido junto à gameleira. Dormir quase sentado, com emplastro fumegante sobre o peito.

E, para aproveitar o fôlego, falar depressa demais. Por não poder correr, andar depressa demais. E respirar pela boca e pelo nariz em quantidade que nunca é demais para os pulmões.

Asma não tem cura. Ansiedade e pânico, talvez.

Na próxima vez que tiver que escrever “dois parágrafos” a meu respeito, talvez parafraseie Drummond:
“Quando nasci, um anjo aflito
desses de asas e retinas fatigadas
disse: Vai, Eduardo! ser ofegante na vida.”

Ter uma Lua em Escorpião ajudaria. Mesmo que fosse minguante. Mesmo que só para enfeitar a biografia.

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Gestalt

Gestalt

Era um curso de férias sobre Gestalt na UFRJ.

Depois de cada “vivência”, vinha a parte teórica (a sensação devia preceder o entendimento).

Um dos jogos consistia em relaxar, buscar as memórias mais antigas e escavá-las um pouco mais, numa espécie de arqueologia de si mesmo. Descalço, olhos fechados, deitado no chão, cada um ia rebobinando a própria fita (era um tempo em que se rebobinavam fitas) e resgatando cheiros, cenas, nomes.

Ao abrir os olhos, havia em volta dezenas de lápis de todas as cores, e folhas em branco. Era a hora de pegar qualquer lápis (que, obviamente, não era “qualquer” lápis) e desenhar qualquer coisa (que – logo se saberia – estaria longe de ser “qualquer coisa”).

Concluída a tarefa (melhor: esgotado o tempo para executá-la), sentavam-se todos formando um grande círculo e, um a um, os desenhos eram levados ao centro desse círculo. O autor devia então falar do desenho na primeira pessoa – não “isso é uma árvore”, mas “eu sou uma árvore”. E fazer o mesmo com relação às cores: “eu sou esse verde”, “eu sou esse azul”.

Eu era um peixe azul e verde. Um peixe dentro e fora da água. Um homem-peixe, me afogando onde os peixes respiram. Um peixe-homem, respirando onde os homens se afogam. Minha memória mais antiga era uma crise de asma, um estar afogado simultaneamente na falta e no excesso de ar.

Disputei silenciosamente com uma garota magrinha, quase transparente, a primazia de ser o último ir até o centro e falar. Perdi.

Ela fora a única a pegar um lápis branco, aquele que é sempre o último sobrevivente da caixa, o que permanece intocado quando os demais já se esbaldaram no apontador.

Seu outro lápis era vermelho – a cor que ela mais detestava. Não tinha sido exatamente uma escolha: foi o que sobrou, junto com os inúteis lápis brancos, dada a sua demora em retornar da expedição ao passado.

Seu desenho tinha sido feito em vermelho e recoberto de branco, até se tornar rosa pálido.

“Eu sou cor-de-rosa”, ela disse. “Eu não sou”.

Enquanto eu me debatia (homem submerso, peixe fora d’água) por ser ao mesmo tempo azul e verde, ela, sendo vermelho e branco, chegara a um meio termo, a uma solução de compromisso, e não era nem uma coisa nem outra. Seu cor-de-rosa não era uma decisão, mas uma diluição. Um ponto em que as forças se anulavam.

“Eu sou morna”.

Possivelmente a Gestalt não tenha hoje o mesmo apelo que tinha naquele final dos anos 70, início dos 80, nem garotos com asma e garotas diáfanas façam mais “vivências”, descalços e despidos de suas “couraças”, nos salões da velha Universidade do Brasil. Mas foi entre lápis verdes, azuis, vermelhos e brancos que a ânsia de ser tudo ao mesmo tempo e a tentação do neutro, do inerte, se defrontaram claramente pela primeira vez.

A garota cor-de-rosa não sabe o quanto este anfíbio lhe é grato.

 

(originalmente publicado em 27 de abril de 2018)

Caro xará

Eduardinho

Depois de ler a carta que o André Gabeh escreveu para o andregabehzinho de 5 anos, resolvi fazer o mesmo para o eduardinhoaffonso de cabelo gomalinado e camisa quadriculada de verde (a foto é em P&B, mas eu me lembro da camisa e da cor), lá em 1964.

~

Xará,

Isso aí que acabou de acontecer e seu pai chama de Revolução pode ser, na verdade, um golpe. Mas não se preocupe em tomar partido: vai ser golpe, revolução, revolução, golpe por mais 55 anos, pelo menos; e tudo isso ainda vai piorar – e muito.

Quando estiver no grupo escolar ou no ginásio, não perca seu tempo aprendendo regras e exceções de hifens e acentos. Tudo vai mudar. Se a Irmã Edwiges, d. Zolavy, d. Joanna d’Arc, d. Odete e d. Marízia te derem um 9 ou um 9,5 por causa de uma “ideia” sem acento, olhe-as de baixo acima e diga “O tempo me dará razão”. Um dia elas vão entender – e talvez te devolver o ponto ou meio ponto perdido.

Faça pirraça. Bonzinho só se ferra.

Aproveite cada minuto com seu vô Tote, sua vó Rosa, seu vô Zizico e sua vó Preta. Pergunte tudo e não se contente com a primeira resposta. Assim que se alfabetizar, anote cada sílaba que disserem, para que a história deles – com as dores, os dramas, as tragédias e a comédia dos grandes personagens que eles foram – não se perca.

Tenha mais paciência com sua mãe.
Não tenha tanta paciência com seu pai.

Essa asma passa, não se desespere.
Essa gagueira não vai passar, mas vai melhorar muito.
A essa timidez, que te leva a ser mais feliz sozinho ou conversando com um livro, é bom ir se acostumando – ela será sua companheira até o fim.

Não aceite que te chamem de Sidney na escola. Tudo bem que seja o seu primeiro nome, que a chamada seja por ordem alfabética, mas isso só vai te causar confusão vida afora. Peça para ser chamado de Eduardo, que é como seus pais e seus avós e seus irmãos e seus primos e suas babás te chamam, que é como você se chama. Edu, no máximo. Dudu, só em momentos muito íntimos, e mesmo assim se a entonação for de Duduzão, não de Duduzinho.

Peça que tirem mais fotos suas, dos seus pais, dos seus avós, dos seus irmãos. Aí em 1964 isso é caro, complicado, só existe em preto e branco, tem que mandar revelar em Belo Horizonte, leva tempo, mas vale o investimento. Fale com o seu padrinho Valdete, que é fotógrafo, para documentar tudo – o seu velocípede, a pimenteira, os seus tios Tão, Tatão, Gigi, Nhanhá, Neca, Bereco, Geralda, Agonia, que apertam suas bochechas, e dizem coisas que você não alcança. Sua vó Rosa fazendo chouriço na cozinha, seu vô Tote com o dicionário fazendo palavras cruzadas na mesa da sala, sua vó Preta e seu passo-preto de estimação voando solto pela casa de telha vã, seu vô Zizico enrolando na palha o cigarro de fumo de rolo que acabará por matá-lo, seus presentes te esperando impacientemente ao pé da árvore de natal. Não se iluda: nada disso é banal.

Guarde tudo que escrever. Todas as composições. Todas as redações. Todos os poemas. Até aqueles sonetos de quando você descobrir o que é um soneto e desandar a sonetear. Tudo que você escrever escondido, decorar para que ninguém jamais leia e queimar no quintal achando que a memória é um cofre – para depois esquecer completamente e descobrir que ela é uma peneira de malha cada vez mais grossa, até se tornar apenas um aro emoldurando o vazio. Esses milhares de escritos não hão de servir para nada – a não ser para você se reencontrar consigo mesmo um dia.

Ame muito uma pessoa chamada Benedita. E dê atenção especial quando fizer amigos chamados Renato, Ricardo, Leandro, Cíntia, Vicente, Luisa. Todos partirão muito antes de você, e só então você vai descobrir o significado do verbo “partir”.

Se até 11/05/2019 você não tiver conseguido realizar seus sonhos de ter sua própria banca de verduras, ser astronauta, padre da paróquia de Santa Rita de Cássia, diplomata ou cantor romântico, aposte estes números numa coisa ainda a ser inventada, chamada megassena: 23, 24, 26, 38, 42, 49. Mas não conte pra ninguém que eu te contei, ou a mágica não funcionará como deve.

E saiba que essa onda de tristeza sem fundamento que te já te engolfou algumas vezes nesses curtos 5 anos de vida (e há de te engolir outras tantas) tem nome – e tem cura.

Se cuide! E aproveite enquanto ainda tem tanto cabelo. Um dia você terá saudade disso.

 

(originalmente publicado em 28 de maio de 2019)