Santa treta, Batman!

treta

Nada contra 007 ser mulher, ou negra.

Podiam ter criado a agente 008, ou, para maior empoderamento, a agente 700.

Mas talvez 007 seja o cargo – que, afinal, já foi ocupado por Sean Connery, Roger Moore, Pierce Brosnan, David Niven, até o aviso prévio do Daniel Craig.

Era natural que uma mulher assumisse o posto algum dia.

Nada contra a pequena sereia ser negra.

Dinamarquesa e negra, qual o problema? Afinal, Branca de Neve também já foi negra (Adele Fátima, quem não se lembra?).

São personagens de ficção. São seres imaginários.

Deus era sempre homem e branco. Mas já foi negro (Morgan Freeman). E negra (Octavia Spencer). E o Vaticano continua de pé,

Até Marighella (que não era personagem de ficção) já foi negro – o que abre precedentes para que Martin Luther King seja representado por um ator nórdico, ou Nelson Mandela, por um coreano.

Kate Blanchett já interpretou Bob Dylan.
Nathalia Timberg foi mãe da Susana Vieira.

Temos que nos libertar desse “naturalismo” e entender que atores não são: atores representam.

Imaginem se gays só pudessem representar personagens gays. O que teria sido da carreira de tantos galãs de Hollywood e de novelas? Se para fazer um serial killer o ‎Anthony Hopkins tivesse que ter cometido sei lá quantos assassinatos?

Tirando o Schwarzenegger, ninguém mais poderia fazer papel de robô.

Foi-se o tempo em que a vilã da novela era xingada na rua e o vilão não era convidado para apresentar baile de debutante no interior.

Cinema, teatro, pintura, é tudo mentira.
A arte é uma ilusão.
Representar, etimologicamente, quer dizer “colocar-se à frente de”.
Não é ser tal e qual: é estar no lugar de outro.

Só vou ficar preocupado quando o Super Homem for mulher trans lésbica negra acima do peso não binária e soltar teia de aranha pelos pulsos.

Ou o Homem Aranha virar um halterofilista verde nos dias em que se esquecer de tomar o rivotril, tiver uma chimpanzé de estimação chamada Chita e morar na Batcaverna.

Anúncios

Deepfake

Carey

Se vazarem nudes meus no zape, já sabem: é fotoxope.

Mesmo que seja eu, cuspido e escarrado, negarei até a morte (e enviarei postagens psicografadas do Além – caso haja Além, e uaifai no Além – negando até depois de morto).

Parece comigo, mas não sou eu. É montagem. Olha esses pneus, esse nariz idêntico ao meu, mas é o Al Pacino, é o Cyrano de Bergerac, é a Barbra Streisand. É, eu sei, a Barbra Streisand não tem essa monocelha e essas orelhas felpudas, mas quem garante que ela não fica assim nas sextas-feiras?

Qualquer imagem comprometedora que vazasse, a gente podia negar as aparências, disfarçar as evidências e viver fingindo que era tudo fotoxope. Não havia provas. Era gópi.

Mas e quando surgissem vídeos? Você e três travestis entrincheirados numa jacuze do Vip’s, sem que fosse possível distinguir o que era de quem – como apelar para o “não é nada disso que você está pensando” sem piorar ainda mais a situação?

Seus problemas acabaram!

Pode levar quem quiser para a jacuze (menos a do Vip’s, que fechou, e a do Holiday, que infelizmente continua em obras) e deixar filmar à vontade. Se a “ménage à trente trois” cair na rede, é só dizer que é dipifeique.

Para quem chegou agora ao planeta, dipifeique é um aplicativo que usa (e abusa) da inteligência artificial para trocar o rosto (e, em breve, outras partes da anatomia) em vídeos.

Mais ou menos o que foi feito na suposta suruba do Dória, só que na ocasião a trucagem ainda era tosca demais para ser levada a sério.

Agora, quem não gostou muito da performance do Schwarzenegger no “Exterminador do Futuro” pode confirmar que ficaria ainda pior com o Stallone (veja os linques abaixo). Quem achou que o Jack Nicholson era imbatível em “O iluminado” pode se surpreender ao descobrir que Jim Carrey até que daria um caldo ali.

A dipifeique está para o “vazou na internet” assim como a pílula esteve para a revolução sexual. Nada será como antes.

O Intercept poderá receber gratuitamente de algum ráquer imparcial e desinteressado um monte de vídeos da Dilma dizendo coisas compreensíveis – e até razoáveis. E de forma tão convincente que a próxima geração tenderá a achar que os feiques eram aqueles em que ela afirmava que o meio ambiente era uma ameaça ao desenvolvimento sustentável, que a autossuficiência do Brasil sempre foi insuficiente, que a inflação foi uma conquista do presidente Lula, que atrás da criança tem a figura de um cachorro etc.

O falso parecerá mais verdadeiro que a verdade. O simulacro será mais verossímil que o real. E ninguém (a não ser você e as trinta e três travestis) jamais saberá o que realmente se passou naquela noite em que você beijou na boca de quem não devia, pegou na mão (ou sabe-se lá em que outra extremidade) de quem não conhecia, dançou até o chão em traje de maiô – e nem por isso a sua reputação se acabou.

O dipifeique veio para mostrar que São Tomé, se ainda fosse vivo, além de velho pra caramba, ainda estaria lascado. Não é preciso mais ver para crer: é preciso descrer de tudo. Da imagem, da voz, da cena. Nossos sentidos nunca nos enganaram tanto.

E se algum velho timbira garantir “Meninos, eu vi”, duvide. Não era eu. Eu jamais faria aquilo. Não naquela posição. Minha coluna não aguenta. Eu não ia correr riscos desnecessários numa jacuze escorregadia como a do Vip’s. Ainda mais numa água fria daquele jeito e com os sais de banho que deixaram meu cabelo esverdeado por três dias.

Não era eu mesmo.
Era dipifeique.

Juro pela inocência do Lula como era.

 


 

Sylvester Stallone em Exterminador do futuro 2

Sylvester Stallone em Exterminador do futuro 2 – trecho 2

Jim Carrey em O iluminado