Ideologia

lupa

ENQUANTO ISSO, NA ÚLTIMA LOJA DE CDs DA CIDADE

– Nossa, essa música que está tocando… Que coisa!… De quem é?

– Não sei, mas vou verificar.

– Preciso saber!

– Gostou tanto assim?

– Não, eu preciso saber de quem é justamente para decidir se posso gostar ou não. Vai que o compositor não votou no mesmo candidato que eu e…

– Mas, afinal, a música te agradou ou não?

– Como é que eu vou saber se me agradou se não tenho a folha corrida ideológica do compositor?

– É uma canção de amor!

– Importa-me lá que seja de amor, que eu tenha ficado arrepiada, que tenha engolido em seco no refrão e que tenha caído um cisco no meu olho aqui na rima final. O autor é de esquerda ou de direita?

– Vou ver aqui no gúgol.

– Aproveita e verifica também o cantor. Não adianta nada se o cantor não for politicamente afinado comigo.

– Não vai querer que eu veja toda a ficha técnica, vai?

– Claro que vou! O violoncelista (deusducéu, o que era aquele solo de violoncelo!) pode não estar no arco de alianças que sustenta o meu partido.

– Bem, puxei aqui toda a ficha técnica. Autores da letra, da música, cantor, arranjador, seção de cordas, solista do violoncelo, spalla, sopros, percussão – com o partido que cada um apoiou no primeiro e no segundo turnos, de acordo com suas postagens nas redes sociais, já que o voto é secreto.

– Ok, Enquanto eu analiso, veja aí o pessoal da mixagem, corte, masterização, técnico de som, essas coisas. E não só nas últimas eleições, mas desde 2002, por favor. Inclusive no orkut e ICQ, que acho que tuíter e insta ainda não existiam naquela época.

– Quer que eu deixe rodando o resto do CD enquanto isso?

– De jeito nenhum. Tire antes que eu me apaixone. Vai que alguma dessas backing vocals maravilhosas é isentona e aí ferrou tudo.

 

(originalmente publicado em 29 de maio de 2019)

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