Desabafo

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Os primeiros símbolos foram criados há cerca de 30.000 anos. A escrita, há quase 9.000.

É muito tempo para ainda não termos aperfeiçoado essa geringonça.

Tudo indica que o alfabeto foi inventado por um grupo de trabalho de burocratas, reunido numa caverna onde funcionava uma repartição pública mesolítica, coordenado por um brucutu do signo de Áries (logo, incapaz de aceitar sugestões e reconhecer quando está errado), sem objetivos específicos claros e sem prazo definido para conclusão do serviço.

Só isso explica termos que perder tempo, ainda hoje, com S, SS, X, SC e Ç para representar o mesmo som.

Por que não delegaram essa tarefa àquele taurino que sentava lá no fundo e se encarregou do T, o D, o P? Nem petista comete erro de ortografia com essas letras.

Imagino a polêmica entre a troglodita emo que achava o J muito fofo, e não queria abrir mão dele, e a primata empoderada que não abdicava do G nem a pau. O gestor (certamente isentão e não querendo contrariar ninguém) deu ganho de causa às duas, e até hoje a gente tem que escrever “giló” e “jiló” para ver qual parece menos estranho, e, aí, sim, saber o certo. (Técnica que, diga-se de passagem, não funciona com “beringela” e “berinjela” – a gente olha pra uma, olha pra outra e, na dúvida, muda a receita para abobrinha).

Hispânicos e lusitanos penam com o B e o V – que, para eles, são a mesma vosta. Nós escapamos dessa, mas não de confundir o L com o U (mau sabendo a péssima impressão que o mal uso dessas letras pode causar num texto).

Porém o maior problema da escrita não é estar dissociada da fonética. É ser, graficamente, confusa.

Terá sido por contenção de gastos que o zero tem a mesma forma da letra O? Que o número 1 seja igual ao L minúsculo? Que o 2 e o Z, e o 5 e o S sejam meio que cara de um, focinho do outro? Que o U e o V, dependendo da fonte (ou de ser uma edição portuguesa antiga) deem quase na mesma?

E – finalmente chegando à verdadeira razão desse desabafo – por que é que quem inventa os captchas (aqueles códigos que a gente tem que digitar pra provar que não é robô) não consegue criar unzinho que seja que não tenha um O, um 0, um l, um 1, um q, um g, tudo embolado?

Desafio qualquer um a acertar de primeira os captchas do site do CAU (Conselho de Arquitetura e Urbanismo). Eu acabo de desistir, na oitava tentativa.

Por que não nasci com uns neurônios a menos, pra ser reprovado no vestibular e acabar na segunda opção, que era Engenharia? No site do CREA, os captchas eram mais facinhos.

~

(Disclaimers)

1. Este texto contém ironia.

2. Na dúvida sobre que parte é séria, que parte não é, em vez de vociferar nos comentários, favor encaminhar mensagem imboques, que eu mando uma versão colorida – em verde o que é pra ler ao pé da letra, em amarelo a ironia, em laranja a chacota, em vermelho o sarcasmo e em roxo o escárnio.

3. Este texto se vale de estereótipos, clichês e astrologia, que são crimes hediondos e inafiançáveis, sem direito a foro privilegiado, colaboração premiada ou progressão da pena.

4. A locução “primata empoderada” não tem qualquer conotação racista, especista, sexista, homofóbica, islamofóbica, gordofóbica e/ou opressora.

5. Nenhum ariano, lusitano, burocrata, petista ou engenheiro foi ferido durante a digitação deste texto.

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Beabá

cartilha

Fui alfabetizado oficialmente através da cartilha “Lalau, Lili e o lobo”. Em casa, o processo começara antes, pelas revistas de costura da minha mãe (“Burda” foi das primeiras e mais inúteis palavras que aprendi a soletrar). E tinha também um livrinho que consistia apenas no desenho de alguns bichos e seus nomes, em letras enormes.

Ali aprendi
A de passarinho (era para ser Águia)
B de peixe (era Baleia)
C de pato (era Cisne)
D de camelo (era Dromedário)
E de Eduardo (era de Elefante)

Vinte e poucos anos depois, quando começaram a pipocar os sobrinhos, tive a ideia de fazer um livro desses para eles, mas menos óbvio. Com alguns dos mesmos bichos, só que agora incluindo poemas para estimular a fantasia – e não gerar dúvidas.

Alice, Amanda, Augusto, Caio, Kaká, Teté, Julie, Juninho e Ed aprenderiam que “A” era de Anta.

Uma anta fitness que usava colã, cantava “Physical” e queria entrar em forma, ter cintura.

Senta, levanta,
Lá vai a anta.
Não come carne,
Não come massa
Só come planta.
Senta, levanta.
Almoça pouco,
Quase não janta.
Faz plástica,
Vai à ginástica.
Não adianta.
Senta, levanta.
O suor é muito,
A dor é tanta
Doem as juntas,
Seca a garganta.
Lá vai a anta
Quem vê se espanta.
Senta, levanta,
Senta, levanta.
E se hidrata, na moita,
Tomando Fanta.

B de baleia:

Era uma baleia
Que no mar vivia
Triste, amargurada
Ninguém a queria.

Um dia encontrou
Alguém que a quis.
Então se apaixonou
E morreu, de tão feliz.

A letra C trazia o “Soneto do caramujo”:

Encaracolado no seu caracol
Onde não batia nem raio de sol
Num jardim sem flores, triste, feio e sujo
Vivia um pobre e velho caramujo.

Era sozinho, sem nenhum parente,
Já quase cego, fraco e bem doente.
Até que um dia descobriu o amor:
Uma taturana em cima de uma flor.

Ficou vidrado, torto, apaixonado
Fez um poema e escreveu no muro
Na esperança de tê-la ao seu lado.

Pobre amor que não teve futuro.
A taturana era analfabeta
E ele voltou para o seu lar escuro.

Animais nunca dantes louvados em prosa e verso apareciam no livro:

Vivo em ti, dentro de ti
Como a dor no coração dos homens
Como sob a casca vive o jabuti.
Vivo em ti como em um nicho
De amor que nunca se acaba.
Me conténs, eu sou o bicho
Que em ti habita, ó goiaba.”

Na letra J vinha mais um injustiçado, o javali marinho:

O javali marinho é um bicho triste.
Só não é mais triste porque não existe.
Existem cavalo marinho, leão marinho,
Lobo marinho, até roberto marinho.
Mas, coitadinho, o javali marinho
Não existe.

Quando passa na tevê algum documentário
Sobre a vida no mar, no rio, no aquário
O javali marinho chora enquanto assiste
E teima, bate o pé, de dedo em riste.
Mas nunca fazem sobre ele nenhum comentário.
Porque ele não existe.

O livro, como o javali marinho e a reciprocidade da taturana, nunca chegou a existir. Virou uma pasta com dezenas de poemas soltos, versos decapitados, e sabe-se lá de quantos traumas de infância meus sobrinhos se livraram.

Agora, porém, há uma nova geração, a dos sobrinhos-netos. Eros, Júlia, João, Laura, Pedro.

Júlia e João escaparam por pouco (já estão imunes às más influências), mas ainda é tempo de tumultuar a cabecinha dos demais.

Antes que aprendam a soletrar “Olavo viu a uva” ou “Lalá libertou o Lula”, vou preparar para eles uma versão 2019 da minha cartilha de animaizinhos fofos.

A de ararajuba
B de baleia azul
C de caiarara
L de lobo guará
M de macaco prego
O de onça pintada
P de pinguim de Magalhães
R de rinoceronte de Java
T de tatu-bola

Para que, daqui a 50 anos, eles saibam que conviveram com animais reais tão incríveis quanto os tiranossauros que encantam o João, e os pássaros dodô, os lobos da Tasmânia de que ouvia falar na minha infância. Todos extintos.

Só não vou me meter a fazer versinhos problematizando (e antropormofizando) os animais. Serei mais responsável desta vez. Escreverei sobre a onça. E sobre o tatu.

Mas evitarei, enquanto puder, coisas como:

Paixão! Coisa engraçada
Depois que passa. Durante
Não há quem a voz levante
E possa escapar da laçada.

Caçava o tatu. Caía
A noite. O vento soprava.
A onça, faminta e brava
Por entre a mata corria.

“Que vejo?” (exclamou) “Oh
Um tatu! Tupã me atendeu.
Comê-lo-ei sem ter dó
Achei-o primeiro, ele é meu.”

Atreveu-se, e sua sorte
Essa noite foi selada.
Um olhar e, apaixonada,
A onça quedou sem norte.

O tatu (quem haveria
De dizer!) caiu sem fala
Numa paixão que avassala
E mata em lenta agonia.

Onça e tatu, loucos
Pelo amor que os consumia
Morreram de fome, roucos
Entre beijos. Fim da poesia.

 

(publicado originalmente em 18 de março de 2019)