Fap fap fap

NoFap

Acabou setembro e, com ele, o NoFap September.

Mas se você perdeu esta oportunidade, mãos à obra que ainda dá tempo de se engajar no NoFap October, November, December…

Se não faz ideia do que seja esse tal de NoFap, vou dar uma mãozinha.

NoFap é um movimento antimasturbatório.

Quer dizer, um não-movimento, porque o que não se pode é justamente movimentar.

Quem foi adolescente nos anos 60, 70 sabe que masturbação fazia nascer pelos nas mãos, dava espinhas no rosto, enfraquecia o espírito e só não causava tuberculose porque esse sintoma já tinha saído de moda nos anos 40 ou 50.

Nos anos 2010, o vício solitário provoca baixa de testosterona, disfunção erétil, perda de tempo e obscurecimento mental. Ou seja, um apigreide e tanto.

Não entendo como ainda não surgiu um estudo científico comprovando que masturbar-se é a principal causa de uso de tênis colorido, camiseta, boné virado para trás e aparelho nos dentes.  É questão de tempo.

O NoFap pode ser praticado em 3 modalidades: a básica (abstenção de pornografia), a intermediária (abstenção de pornografia e de masturbação) e a avançada (avançada? É a mais retrógrada de todas: sem pornografia, sem masturbação nem orgasmo).

Os depoimentos de quem virou o jogo do 5 contra 1 são tão críveis quanto os de quem conseguiu perder 30 kg, aumentou o pênis em 9 cm e aprendeu a regra do hífen – tudo em uma semana, e só tomando fitoterápico:

“Notei várias mudanças: a minha voz fica mais profunda eu fico mais carismático; mais magnético, os homens e as mulheres gostam de se comunicar comigo, minha pele fica melhor e, em geral eu tenho mais energia e as minhas emoções e pensamentos ficam mais facilmente sob controle.”

Nada muito diferente do que preconizava o dr. Georges Surbled, autor de um dos meus livros preferidos, o “Conselhos aos Rapazes” (tenho a edição portuguesa, de 1954).

Ali ele diz que “Os órgãos sexuais do homem (…) denominam-se com toda a propriedade órgãos vergonhosos. Acusam eles a concupiscência, que foi o triste fruto do pecado original”. “Qual a razão por que se consideram mais importantes mais nobres que os órgãos intestinais e urinários, aos quais estão intimamente ligados? Menos preciosos que estes, apenas têm um fim: a geração; e não devem visar a esse objetivo nem realizá-lo senão no matrimónio. Fora disso, para todo o homem que se preza, eles não se destinam a coisa nenhuma.” “O celibato (…) não só não abrevia a existência, mas, também, prolonga dum modo notável a vida dos eunucos voluntários.”

Antecipando o nofapismo, o pudico dr. Surbled era duro em suas opiniões; “O repouso absoluto dos órgãos genitais impõe-se. Infringiria gravemente o dever e expor-se-ia aos piores perigos, quem distraidamente levasse lá uma mão, por divertimento ou ociosidade, sobretudo exercendo fricções repetidas sem um fim justificável. (…) É um crime contra a natureza. E esse crime é proibido pela lei religiosa e pela medicina, que nele vê a sinistra origem das doenças mais graves, e até às vezes mesmo um perigo mortal.”

Como se livrar disso? Evitando os cafés e botequins – onde há más companhias, vinho, mulheres e tabaco. Evitando colchões moles e cobertores (ficar na cama mais que o estritamente necessário é “muito prejudicial à saúde e indigno dum homem”). Evitar banhos quentes e perfumes (“Deixem-se de ser maricas e não copiem das meninas este defeito que as desfeia e prejudica”). Desviar os olhos “das gravuras obscenas, dos postais ilustrados, dos quadros ou das estátuas que excitam os sentidos e perturbam o coração”.

Dr. Surbled deve estar gozando no túmulo a satisfação de ver suas ideias recuperarem a potência neste ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 2019. E sem precisar ameaçar ninguém com o fogo do inferno.

A cruzada contra o “vício predilecto” agora tem saite e atende pelo nome de NoFap. Que nem é sigla (No Friction and Pleasure? No Flogging a Prick? No Fondling a Popsicle? No Fooling Around, People?), como eu pensava – mas uma onomatopéia para a diversão mais barata jamais inventada: fap fap fap.

Mas quem se masturba fazendo fap fap fap realmente deve estar fazendo alguma coisa errada (e fazendo errado). Devia parar e aprender como se faz direito.

 

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O hímen, esse desconhecido

himen

Não sei você, mas eu nunca estive cara a cara com um hímen. Certamente nos esbarramos ao longo da vida, mas terá sido um contato superficial e o afastamento foi amigável, sem motivo para rompimento.

Eu julgava mesmo que ele, assim como o teletrim e o professor de OSPB, já tivesse sido extinto. Ninguém fala mais dele, e sua presença, outrora tão requisitada, hoje soa como um anacronismo.

O hímen só voltou à minha mente por causa de um vídeo, visto um dia desses, em que uma simpática mocinha derruba certos mitos a respeito dessa (obsoleta) peculiaridade da anatomia feminina. Foi quando descobri que a total ignorância no assunto não era exclusividade minha.

Admito que o hímen atiçava minha curiosidade, ali por volta da pré-adolescência. Eu o imaginava como um daqueles bastidores que as bordadeiras usam, só que em vez de algodão, haveria uma membrana, tipo essas de bola de soprar. A membrana arrebentaria na noite de núpcias (sim, sou do tempo da noite de núpcias) e pronto, problema resolvido.

Isso, claro, se o hímen não fosse complacente. Esse era um conceito perturbador. E se a membrana fosse muito resistente, e se recusasse a ceder passagem, permanecendo ali, desafiadora, feito um escudo invisível? A simples ideia de vir a topar com um obstáculo que barrasse a entrada, como se eu fosse um penetra, um sócio com mensalidade vencida, me causava leve terror. Eu ouvira dizer que, por outro lado, o hímen podia se romper, por exemplo, pulando corda ou andando de bicicleta – então, uma calói e uns quatro metros de corda de bacalhau haveriam de fazer parte do meu kit lua de mel, just in case.

O hímen suscitava também questões práticas. Como as virgens urinavam? A única hipótese possível era a membrana ser porosa. Menos parecida com a da bola de soprar, um pouco como um coador de pano (sou do tempo do coador de pano). Mas basta olhar pra um coador de pano e perceber que a solução não era nada higiênica.

Talvez as virgens simplesmente não urinassem. Mas algo me dizia que ou essa teoria estava furada ou os bebês dos sexo feminino não nasciam virgens, mas se tornavam virgens (eu, apesar da pouca idade, tinha meus momentos de Simone de Beauvoir). Depois que se envirginavam, deixavam de urinar – até a fatídica noite de núpcias, a partir da qual recuperavam essa função. Sim, minha ignorância sobre o hímen se estendia também à uretra.

O que contava é que o hímen tinha o papel de lacre, de selo de segurança. Ele era a prova incontestável de que a virgindade feminina era uma virtude – em contraponto à masculina, que era um mico. O homem precisaria adquirir bastante prática para, na hora H, saber exatamente o que fazer ao se defrontar, lança em punho, com o dragão do hímen. O fracasso masculino não seria a impotência (fantasma que sequer me ocorria então), mas não conseguir derrotar o hímen de primeira. Para garantir o êxito é que talvez fossem necessárias as tais preliminares – possivelmente uma pedalada de 12 km ou meia hora pulando corda.

Eu imaginava se o hímen se romperia fazendo “ploc” (acho que não faz). Se sangraria a ponto de precisar bandeide e mertiolate (possivelmente, não). Se ficava no começo, no meio ou (o que seria um pesadelo) lá no fundo – um fundo talvez fora do alcance, além das minhas possibilidades. E, mais que tudo, eu me perguntava por que isso era tão importante, a ponto de haver exames médicos para detectá-lo intacto num pré-nupcial, e cirurgias para reconstituí-lo no caso de a moça ter merendado antes do recreio.

Todas essas questões estavam, até um dia desses, totalmente esquecidas, perdidas nas brumas dos meus 12, 13 anos, que foi quando descobri de onde vêm os bebês e como é que foram parar lá dentro. E também que passei a sentir uma estranha atração por meninas ciclistas ou que gostavam de pular corda.

Não era fácil ser pré-adolescente num tempo em que não havia gúgol pra gente se informar direito.

 

(publicado originalmente em 2015)